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Fomos à caça da história das Bruxas de Antanhol

Já diz o dito popular castelhano: No creo en brujas, pero que las hay, las hay. A origem será galega, onde curiosamente bruxa se diz meiga, mas aplica-se a qualquer lugar. E não é que Coimbra tem História nessa matéria? Chegada aquela altura do ano em que as montras das lojas se vestem de caldeirões, […]

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Já diz o dito popular castelhano: No creo en brujas, pero que las hay, las hay. A origem será galega, onde curiosamente bruxa se diz meiga, mas aplica-se a qualquer lugar. E não é que Coimbra tem História nessa matéria?

Chegada aquela altura do ano em que as montras das lojas se vestem de caldeirões, chapéus em bico, vassouras e teias de aranha, com o aproximar do Dia das Bruxas — de que já falámos aqui —, contamos aquilo que se calhar muitos de vocês não sabem: a história das bruxas de Antanhol, a freguesia do concelho de Coimbra, 5 km a sudoeste da cidade e hoje inserida na União das Freguesias de Assafarge e Antanhol.

Seguimos as (poucas) pistas que encontrámos e demos por nós à conversa, num café local, com António Oliveira Bento, historiador autodidacta. Residente em Paris, cresceu em Lisboa mas nunca perdeu a ligação às origens dos antepassados.

Por ser apaixonado por pessoas e as suas histórias, o antigo funcionário da Marinha e da área de Recursos Humanos deixou que a vontade de reunir em livro os recortes que foi acumulando ao longo da vida se transformassem numa investigação mais profunda que deu origem à monografia: A Freguesia de Antanhol — Memórias de Um Passado, editado pela Junta de Freguesia de Antanhol, em 2004. Entregue às idiossincrasias dos lugares de Antanhol, Albergaria, Valongo, Cegonheira e Cardenha, não podiam faltar as bruxas!, atira. 

 

A última bruxa

Já diz a quadra: Está a chover e a fazer sol/E as bruxas de Antanhol/A comer pão mole/Debaixo de um lençol. António Bento garante que ao dizer que é de Antanhol, mais do que uma pessoa, fora de Coimbra, reagiu imediatamente com um: ah, terra das bruxas! O autor defende na obra que sempre houve e sempre haverá pessoas com certas características que a ciência da época não conseguirá, por enquanto, explicar e, das pistas que recolheu pela freguesia, seriam pessoas com olhar forte, que dava quebranto e podia mesmo secar o leite de uma cabra. Altina Sousa da Costa, conhecida por Ti Altina, terá sido a última bruxa de Antanhol. Falecida no Valongo em 1979, era considerada médium e apelidada de médica dos pobres, muito procurada para assistir aos partos na terra. António Bento também refere bruxos ou vedores, como Guilhermino Paixão, Manuel Abade, Manuel da Estina, Joaquim Pimenta e Agostinho Patrício. 

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Outras feitiçarias

Citado na monografia de António Bento, Manuel Falcão Machado refere, numa obra análoga de 1954, que:

Quando em Coimbra, e arredores, chove e faz sol ao mesmo tempo, há o costume de se dizer: Estão a pentear-se as bruxas de Antanhol. Tão clara afirmativa deve ter a sua origem no facto de na última metade do século XVI, ter vivido, no meio da mata de Milréus, proximidades desta freguesia, uma bruxa de afamado nome em feitiçarias e a casa da qual os jovens escolares da Universidade iam estudar a Cabala e a alquimia e onde, também, como mais tarde a Inquisição averiguou, se adorava o Diabo na figura de um mono preto, feito de pau de pinho…E tanto assim que a bruxa e os estudantes ali encontrados foram levados ao Tribunal do Santo Ofício que lhes mandou infligir, santamente, alguns dolorosos suplícios.

Sítios de medo

Segundo António Bento, ainda há caminhos não iluminados onde, quando se passa, se fazem figas ou rezas. Os locais das alminhas. Alguns desses lugares são em frente ao cemitério de Antanhol, o Ribeiro da Igreja, no Alto de Nossa Senhora junto à Escola, nos locais onde os funerais paravam, junto à Capela de Santo António (onde se dizia que aparecia o Roxo Velho que a construiu) e junto a um poço onde um homem morreu afogado.  

Quebranto

António Bento garante que é muito frequente encontrar pessoas que, perante certos males, praticam rezas com um sucesso impressionante. Na monografia estão escritas algumas, sendo que o quebranto será a mais importante. Como o nome indica, o quebranto quebra a influência das chamadas pessoas que têm poder no olhar. Em Antanhol, terão sido Ti Conceição, Ti Zulmira da Costa Patinhas, Ti Elisa, Ti Felismina e Ti Bernarda Chapeleira.

O quebranto em si são umas dores de cabeça muito fortes sobre a testa que, é costume dizer, só acontece às pessoas boas porque as más nem o Diabo quer nada com elas. Outros alegados bruxedos são o cobrão (borbulhas pelo corpo), ezerpela (ferida), a dada e o pé torcido. Além do quebranto, os defumadouros servem para limpar casas embruxadas e autor até garante que chegou a comprar alguns na farmácia. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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