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Radiografia ao Desporto em Portugal

Quanto custa ser atleta?

Começaram ainda crianças a praticar modalidades desportivas e, contra ventos e marés, levam o nome de Portugal a patamares elevados. Do judo ao remo, passando pela ginástica rítmica, fomos conhecer os desafios e procurar soluções para os nossos atletas.

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Fotografia: Mário Canelas

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Bruna Simões tem 16 anos. É ginasta desde os seis, desde 2016 que integra o primeiro Conjunto Nacional de Seniores de Ginástica Rítmica e, em breve, vai representar Portugal em provas europeias e do mundiais. A carreira que entretanto ganhou forma levou a atleta do Centro Norton de Matos a trocar Coimbra por Lisboa no final do ano passado, para treinar no Ginásio Clube Português. «É um investimento pessoal grande mas, porque é o que ela gosta, não podíamos dizer que não», desabafa a mãe, Sofia Guerreiro.

A paixão move os atletas. Para a judoca Catarina Costa, foi a modalidade que se cruzou com ela, e não o contrário. Recorda que foi desafiada para o judo quando, aos 10 anos, a viram jogar futebol no recreio. «Como era muito curiosa decidi ir e dessa primeira aula, lembro-me, adorei.» Ricardo Paula entrou para o remo com 14 anos por incentivo de uma colega da mãe. «Depois foi um amor que se foi construindo» diz, lembrando a «felicidade intrínseca» em cada vitória.


Mesmo movida a paixão e dedicação, a caminhada pode ser longa, tem um preço e a rotina diária dos atletas não é a única a ser afectada. O dia-a-dia das famílias também pode acabar por girar em torno das suas carreiras. «Ela treina mas nós treinamos por acréscimo», conta a mãe de Bruna Simões sobre a logística que envolve conciliar a vida familiar com a actividade desportiva da filha. No jogo de cedências dos atletas, até os períodos de descanso acabam condicionadas pelas modalidades. Com 41 anos, Ricardo Paula, vice-campeão mundial de remo indoor este ano (escalão 40-49 anos), e com mais 40 títulos de Campeão Nacional de Remo, conta-nos que lá em casa «as férias são marcadas pelos ginásios e pela máquina de remo». «Como é lógico há uma adaptação muito grande da minha família. É a base que tem de ser mais sólida para nos permitir dar a este luxo», observa. 

Em causa estão as exigências dos desportos praticados e as muitas horas de treino necessárias para manter o nível. O remador treina dez vezes por semana mas admite que lhe é difícil pôr um número em quantas horas vê diariamente passar no relógio enquanto pratica o desporto. Já a judoca Catarina Costa avança com uma média de três a quatro horas diárias que, ao final de uma semana, dependendo de eventuais estágios da Selecção Nacional, «pode rondar as 18 a 22 horas».

Por mais apoios financeiros

Chegar ao topo implica sacrifícios e um dos deles é financeiro. «As únicas provas que são salvaguardadas, em termos individuais, pelo clube são as provas nacionais que, no caso de Bruna Simões, são duas ou três. O resto são as distritais, as exibições, os torneios e tudo isto somos nós, pais, a patrocinar», conta Sofia Guerreiro. Sacrifícios da atleta e dos pais que «têm de mobilizar-se para conseguir fazer alguns trocos para conseguir pagar algumas despesas extras», desabafa a mãe da ginasta. Só os fatos de actuação de Bruna custam, no mínimo, 350 a 400€. 


O remo também implica um investimento elevado. Pelas contas de Ricardo Paula, um barco ronda os 10 mil euros e um par de remos outros mil. O material pode fazer toda a diferença quando, como ele, « se treina para ganhar por nada». Com quase 30 anos na prática desportiva, o atleta não tem barco próprio mas confessa que gostava.

Medalha de ouro na categoria de -48 kg do Grande Prémio de Portugal e quinta classificada nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, Catarina Costa reconhece que, em termos financeiros, foi mais difícil «quando não era ainda uma atleta tão reconhecida». «Contei muito mas mesmo muito com o apoio do meu clube, a Académica de Coimbra, e dos meus pais, sendo que a Câmara Municipal de Coimbra também financiou algumas das competições em que participei». Hoje, segundo a judoca de Coimbra, a situação é diferente devido à bolsa do Comité Olímpico e à Federação Portuguesa de Judo, responsável pela gestão dessa bolsa. «Se bem que, por vezes, nem sempre cumprem com o contrato», atira.



A falta de patrocínios para modalidades menos populares está, por esta altura, a ser sentida pelos pais de Bruna Simões. «A proposta Ginásio Clube Português (GCP) mudou-nos muito a nossa vida», conta a mãe. A ginasta é a única deslocada no Conjunto Nacional Sénior, com sete atletas, e que representa um investimento global estimado em 9 500€. Só um fato custa 600€ e são necessários dois. O volume de despesas levou os pais das atletas a lançar uma campanha de angariação de fundos: «Não queremos ganhar dinheiro, queremos é minimizar os custos para elas poderem ir e irem folgadas», diz Sofia Guerreiro. «A Federação, de facto, ajuda com muita coisa e estão a fazer o que podem. Também estamos numa fase em que não abundam os dinheiros e sabemos que não é um desporto patrocinado. Não é como o futebol», lamenta. 

Ao longo da curta carreira, a falta de investimento tem sido sentida também numa infraestrutura para treinos na cidade onde, observa Sofia Guerreiro, «não há nenhum pavilhão só de ginástica que permita às atletas chegarem e praticarem». A Câmara Municipal de Coimbra chegou a ceder o pavilhão desportivo, cuja utilização ficou suspensa durante a pandemia, mas não era prático. Segundo a mãe da atleta «quando chegavam, montavam o praticável e, quando saiam, desmontavam-no». A nível de clubes, a falta de investimento também se vai sentindo. Ricardo Paula diz que «é um bocado do reflexo da cidade que temos». «Temos pouca indústria, pouco investimento e poucos patrocinadores. Os clubes do norte estão muito mais bem apetrechados do que nós: têm barcos melhores e mais patrocínios», acrescenta.

Perante as dificuldades, é a persistência que move atletas e famílias. No caso de Bruna, embora reconhecendo o esforço, os pais assumem que se trata do «sonho dela». «À Taça do Mundo nunca foram miúdas de 16 anos», atira a mãe.

Desporto ou uma profissão?

No remo desde os 14 anos, Ricardo Paula assume a necessidade de ter um trabalho a tempo inteiro, depois de perceber que «não dava para viver» da modalidade. «Passei um momento difícil», recorda o remador. «Uma coisa é só treinar e estudar, em que não se tem responsabilidade, e outra coisa é quando temos um trabalho fixo, exigente e onde se tem que se fazer a adaptação para o tempo de treino».

Positivo têm sido os ensinamentos do remo e dos vários treinadores com quem se tem cruzado e que faz questão de os aplicar no trabalho. Ricardo Paula fala do incentivo constante aos colegas para a prática de desporto mas do foco, tal como no remo, de «não perder tempo com coisas fúteis e de nos preocuparmos só com o que podemos controlar».

Nas decisões importantes de vida, a mudança para Lisboa de Bruna Simões foi incontornável. Apesar da distância, a mãe diz estar «tranquila», notando que as colegas de equipa« a acolheram muito bem e interagiram muito bem com ela». A proximidade com a treinadora é também importante. Sofia Guerreiro identifica janelas que se abrem com esta experiência para o futuro da filha, nomeadamente o facto de lhe conferir o estatuto de atleta de alta competição e dar acesso ao rendimento mínimo, mas também por lhe poder facilitar o acesso à universidade. «Tudo isto lhe traz vantagens, mas também lhe está a sair do corpo a ela e do bolso a nós», atira Sofia.

A tirar o curso de Medicina na Universidade de Coimbra, Catarina Costa fala da dupla vida como um desafio. «O judo é duro» diz, assegurando que no entanto que «quem corre por gosto não cansa». «Encaro cada desafio como algo que me vai fazer crescer e tornar melhor atleta.» Ricardo Paula admite que tinha considerado começar este ano a reduzir a carga desportiva mas a boa marca a nível mundial fê-lo pôr os olhos em Toronto, no Canadá, onde no próximo ano vai tentar ser Campeão do Mundo. «Com a idade que tenho sei que quando parar vai ser definitivo», assegura. 

Rede de apoio ao estudo: das escolas à universidade

Em 2016, o governo criou as Unidades de Apoio ao Alto Rendimento na Escola (UAARE), que oferecem condições a alunos atletas para conciliarem as actividades desportivas com a vida escolar. Mas este projecto abrange apenas algumas escolas nacionais. Coimbra está representado com o Agrupamento de Escolas Coimbra Centro, englobando a Escola Secundária Jaime Cortesão e as escolas dos 2.º e 3.º CEB – Poeta Manuel da Silva Gaio e a nº 2 de São Silvestre. 

Este ano lectivo, há 23 alunos integrados no programa, nas modalidades de judo, natação, futebol e ginástica aeróbica. No primeiro ano eram apenas dois. «[O salto] revela que há muitos alunos que escolhem a nossa escola por ela oferecer este tipo de possibilidades de conciliação das actividades desportiva e escolar», diz Luís Dias, com funções de professor acompanhante deste programa. A ele cabe a ligação entre estudantes, professores e clubes. Ao abrigo do programa, os alunos «têm uma sala de estudo com professores designados para apoio e uma sala de estudo nacional digital, a que podem recorrer quando estão em período de ausência para terem ensino à distância», conta o professor. Também contam com o apoio de uma psicóloga semanalmente, até porque «há alturas do ano em que têm maior sobrecarga competitiva».

O sucesso do modelo reflecte-se na taxa de desempenho académico que tem estado sempre acima de 90% . O primeiro semestre deste ano lectivo não fugiu à regra. Segundo Luís Dias, a taxa foi de 97,92%. No ensino superior, têm sido dados igualmente passos consideráveis e para trás parecem ter ficado episódios como os de Ricardo Paula: «Tive um professor que me disse «têm de fazer escolhas: ou a engenharia civil ou o remo. As duas coisas são incompatíveis”».

A Universidade de Coimbra (UC), além das obrigações estabelecidas por lei que dão facilidades para conciliar os estudos e o desporto, tem o Programa de Apoio ao Alto Rendimento (PAAR-UC), considerado um «passo mais no sentido da diferenciação» da academia por António Figueiredo, vice-reitor da UC para o Desporto, Qualidade e Serviço de Acção Social. São 28 os atletas integrados actualmente no programa que prevê apoio ao nível escolar (na escolha de horários e de turmas e na possibilidade de realização de mais unidades curriculares em época especial) e à facilitação do acesso às instalações de treino e de controlo e monitorização da prática desportiva. 

Segundo Figueiredo, um dos benefícios é o facto de os atletas poderem ser acompanhados, técnica e cientificamente, pelas faculdades de Ciência de Desporto e Educação Física, Medicina, Farmácia, ou outras para a «motorização do treino e da competição». «Isto é um traço muito importante porque, hoje em dia, ninguém está associado à alta competição sem estar devidamente associado também à ciência ou a métodos científicos», acrescenta. A UC conta ainda com uma centena de alunos com o estatuto de estudante atleta. Segundo o vice-reitor, a instituição dá a possibilidade à comunidade académica de integrar programas de desporto e actividade física. Segundo os dados disponibilizados são mais de 3000 os participantes. 

Desporto devia «ser obrigatório»

Embora considerando que o país «está melhor a nível de mentalidades», Ricardo Paula diz que «não há cultura desportiva» e tudo depende de uma vontade política para mudar. «Enquanto os actores políticos não perceberem que ao falar de desporto estamos a falar de saúde pública, de educação, de criação de valor, isto não vai mudar», lamenta Ricardo Paula. Com os jovens a praticar cada vez menos desporto e o país com «uma taxa de obesidade que é das maiores da União Europeia», Catarina Costa não tem dúvidas de que se trata de «um hábito que se deve instituir desde a escola». Para a atleta, devia «ser obrigatório e fazer parte da rotina das crianças», e vai mais longe: sugere incentivos a projectos de desporto escolar que permitam aos mais novos experimentarem várias modalidades. «Acho que deve ser feito um investimento maior no desporto porque é fundamental para termos uma população mais saudável, jovens mais saudáveis e, claro, para formar campeões desde cedo». 

É na formação de base que recai a aposta de futuro para Ricardo Paula. Para ele, olha-se «demasiado» para a alta competição. «De quatro em quatro anos fala-se em desporto, quando são os Jogos Olímpicos, quando todos os dias se devia falar em desporto. O investimento no desporto escolar acabou totalmente e nas nossas gerações havia investimento». Além do investimento na formação, Ricardo Paula aponta o caminho ao desporto de veteranos, como forma de atrair investimento.

«O que eu mais gostava era que mais miúdos viessem para o remo para terem as experiências de vida que eu tive», confessa o atleta, que soma momentos inesquecíveis nesta longa carreira num desporto «muito social». «Estar no Tamisa rodeado de 400 barcos, é uma coisa fenomenal. Em Coimbra, entro no rio às 6 da manhã, sozinho. Fiz a mesma coisa no Tamisa e tenho 10 mil atletas ao meu lado. São vivências que acho que são muito enriquecedoras. Se eu pudesse puxar o máximo dos miúdos para a modalidade, sentia-me realizado». 

Além do investimento na formação, Ricardo Paula aponta o caminho ao desporto de veteranos, como forma de atrair investimento. O remador assinala a valorização dada em outros países a atletas em fase final de carreira, sobretudo vistos como modelos por empresas e clubes. «Em Portugal todos os atletas saem “chateados” com o remo».

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