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A comunidade ucraniana

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Conhecem pessoas transformadoras?

Cidadãos Cool: Oksana Sitor Zakharuk

Chegou a Portugal em 2000 e, desde que começou a guerra na Ucrânia, desdobra-se para ajudar conterrâneos que chegam e que lá ficaram. Nos últimos meses deixou de trabalhar, criou uma associação e abriu as portas da própria casa a quem não conhece mas que precisa de um tecto.

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Fotografia: Mário Canelas

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O telefone de Oskana Sitor Zakharuk não pára de tocar. As solicitações são muitas e os contactos vão sendo adiados enquanto partilha connosco os seus dias. «São 24/7 só de voluntariado», observa. Foi ao final da manhã que a encontrámos, depois de mais uma jornada na Loja do Cidadão com duas ucranianas fugidas da guerra na Ucrânia e os filhos que, por agora, alberga em sua casa. Daqui, seguirá para o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Estas são rotinas que já fazem parte da vida da ucraniana residente em Portugal que, desde 24 de Fevereiro, se tem dedicado, em pleno, a ajudar o povo ucraniano que encontrou refúgio em Portugal ou que, lá, enfrenta o conflito. «Sempre sinto que faço pouco. Todos os dias, no final do dia, quando fica tudo calminho e ninguém me liga, analiso o dia e penso que fiz muito pouco. O tempo passa muito rápido e 24 horas não chegam», confidencia-nos. 

Com a invasão russa, e mesmo à distância, a vida de Oksana deu uma volta de 180 graus e os seus dias acontecem, agora, ao sabor das necessidades. Mais dos outros do que suas. «Não consigo planear», desabafa. Tudo o que faz pela causa ucraniana não lhe deixa tempo para mais, tendo, por isso, feito uma pausa no trabalho de mediadora imobiliária na empresa da qual é sócia. «Sinto-me mais realizada, mais calma e mais útil». 

«Acredito muito na lei de retorno»

A necessidade de ajudar e de conseguir formalmente canalizar apoio para os ucranianos, dentro e fora de Portugal, levou à criação da Golden Trident Associação há pouco mais de um mês, à qual preside. Uma mera formalidade. «Fazia tudo o que faço agora com a associação, mas [antes] não podia, por exemplo, fazer a parte de pagamentos e tinha de pedir a outras pessoas para pagar e registar. Chegámos a um ponto em que trabalhamos muito e estamos a fazer tudo e mais alguma coisa. E temos de ter tudo organizado de forma diferente».

E o que têm feito por esta causa? «Fazemos tudo», diz-nos Oksana, de sorriso emocionado enquanto nos enumera algumas das acções que levaram a cabo. «Tivemos de pagar um voo com material logístico para a Polónia; trouxemos pessoas para cá; mandámos autocarros; arranjámos casas, alimentação, roupa, escolas e trabalho [para quem chega], [damos apoio para] legalizar [e tratar da] documentação.» Um trabalho em que Oksana se vai desdobrando, dia após dia, muitas vezes sem direito a fins-de-semana, altura em que costuma fazer rondas pelas famílias que ajudou a integrar para entregar comida, roupa ou outros bens. «Estamos a falar de pouco mais de dois meses, mas para mim parece que já é meio ano. Tenho muito peso e muita carga [nas costas]», conta-nos.

Uma das últimas acções foi a  limpeza e optimização de um centro desportivo inutilizado em Alcarraques (Trouxemil). Segundo Oksana o espaço servirá para armazenar bens recolhidos e funcionar como um mini hostel, por forma a acolher pessoas que chegam ao nosso país, às vezes a horas tardias. Para este trabalho, conta-nos, tem sido crucial o apoio das pessoas, como clientes da sua empresa, amigos e vizinhos. «A parte humana é espectacular», observa. Já certa está a organização de um espectáculo no Altice Arena, em Lisboa, a 20 de Maio, com artistas portugueses e ucranianos para angariação de fundos. 

Pedras no caminho

Na gestão de vidas terceiras, Oksana confessa-nos que tem sentido algumas dificuldades na parte burocrática, com «muito atraso» nos departamentos públicos como as Finanças, o IEFP e a Segurança Social, essenciais para legalizar quem chega a Portugal. Há ainda o lado financeiro: «tenho suportado muitas despesas. Não me pergunte como vou chegar ao final do mês que não sei. Estes dois meses levaram-me muito dinheiro». 

O T2 da família de Oksana Sitor Zakharuk tem estado também aberto aos que chegam fugidos da guerra. Já foram 18 pessoas a viver com a família. Agora são seis. «Não conheço as pessoas de lado nenhum. Estou a fazer isto não é para ter reconhecimento ou agradecimento. Não! Posso provavelmente não acreditar na Igreja – que nunca lá vou -, mas acredito muito na lei de retorno. Estou a fazer isto porque espero que, um dia, quando a minha família, que está na Ucrânia, precisar de algum apoio o tenha.»

No esforço para ajudar os conterrâneos refugiados da guerra, e embora presida a associação que canaliza apoio, Oksana rejeita qualquer protagonismo, assegurando que apenas dá o nome e a cara por uma equipa de, pelo menos, nove pessoas. «Não temos dinheiro, por isso, esta associação é só de voluntários e sem fins lucrativos. Nós fazemos tudo o que podemos fazer. Eu sou presidente. Sou taxista. Sou encarregada. Sou pedreira. Não mando em lado nenhum mas, na estrutura da associação, tenho que gerir tudo».

Focada por agora nesta missão de ajudar quem mais precisa, Oksana promete, mais tarde, empenhar-se na reconstrução do seu país. «Para mim, é a minha vida e já não me vejo como outra coisa».

Do doutoramento à mediação imobiliária

Oksana deixou a Ucrânia em 2000 com o marido, professor de História, e o filho de cinco anos. Não conhecia ninguém em Portugal. «Viemos à aventura. O meu pai ligava-me e dizia-me que se eu quisesse voltar arranjava dinheiro para comprar o bilhete», recorda. Com um doutoramento na área da microelectrónica, Zakharuk nunca exerceu em Portugal, embora tenha equivalência. Nos primeiros anos em Portugal fez de tudo. Trabalhou em cafés e lojas, mas não só. «Fiz um ano de limpeza com uma senhora espectacular que era professora. Eu fazia limpezas e ela dava-me aulas de português». Depois entrou na área da mediação imobiliária, um ramo a que se dedica há 15 anos. 

Para trás ficava uma Ucrânia saída da União Soviética há cerca de nove anos, mas que diz que «continuou dependente da Rússia». «Era muito complicado constituir vida própria. Não estou a dizer que não o fiz. Fiz! Tive um trabalho espectacular, ganhava bastante bem mas, de qualquer forma, queria fazer mais alguma coisa, constituir o meu próprio conforto na vida. Sempre quis sair daquilo, da minha área de conforto, e queria uma vida melhor para o meu filho».

Portugal foi a escolha da família por ser «um país pequeno, muito confortável e o único país, naquele momento, onde tivemos possibilidade de ficar legalmente desde o primeiro dia». Além disso, conta-nos, «era mais seguro para a nossa família e para o meu filho». Quanto a Coimbra, da análise que fizeram, a cidade apresentou-se como «mais confortável para viver», pelas condições que entenderam ter nas áreas da Educação e Saúde. 

«Sinto-me humana e não faz diferença a nacionalidade»

Com a família e amigos na Ucrânia, Oksana Sitor Zakharuk desvaloriza a distância, embora reconheça que vive intranquila com a possibilidade de lhes acontecer alguma coisa. «Se estão muito tempo offline fico preocupada. Basta não atenderem o telefone e entro em pânico». Com o coração na Ucrânia, assume que tem receios sobre quanto tempo pode ainda durar esta guerra e do que poderá ainda a acontecer, sobretudo pelo «medo que alguém se lembre de usar armas nucleares». 

Oksana Sitor Zakharuk enaltece ainda o recente discurso do presidente ucraniano,, no Parlamento português através de vídeochamada. Diz que sente  «muito orgulho» e refere-se a Volodymyr Zelensky como um líder, embora admita que quando se candidatou à presidência não lhe tivesse simpatia. «Aceito morrer por ele e acho que qualquer ucraniano aceita», diz-nos, reconhecendo que Zelensky a surpreendeu positivamente. 

Face à incerteza dos dias e do futuro, pede mais acção ao mundo para que a guerra acabe o mais depressa possível, defendendo mais sanções contra a Rússia e que mais países sigam o exemplo do Reino Unido, do Canadá ou dos Estados Unidos e expulsem os cidadãos russos. 

Antes de nos despedirmos, perguntamos a Oksana se já se sente um pouco portuguesa ao fim de duas décadas a viver em Portugal, e respondeu sem hesitação: «Sinto-me humana e não faz diferença a nacionalidade. É melhor ser humana

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