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Onde fica a ONG

Saúde em Português presta ajuda humanitária de Coimbra para o mundo e quer mais voluntários

A organização não-governamental local tem vasta experiência em cenários de emergência e comunidades vulneráveis e tem, neste momento, mais uma equipa na Polónia, a apoiar aos ucranianos que fogem da guerra.

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Fotografia: Mário Canelas, cortesia Saúde em Português

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Tem no terreno a quinta equipa de médicos e enfermeiros a prestar apoio a refugiados ucranianos e uma sexta em preparação. A organização não-governamental (ONG) de desenvolvimento Saúde em Português está na Polónia, a 30 km da fronteira com o país em guerra com a Rússia, desde Março. «O destino que levávamos era Lviv, só que chegámos à fronteira e não pudemos passar», lamenta Humberto Vitorino, um dos dois médicos que integrou a primeira missão. A possibilidade de partir em missão humanitária surgiu de um contacto da SIC Esperança, em associação com a Fundação Benfica e a Associação Fuso. Numa primeira fase, o objectivo passava por uma colaboração com a Ukrainian Refugees UAPT, que trazia refugiados para Portugal e fazerem uma avaliação no terreno. 

Na Polónia, o apoio médico centrou-se em quatros centros de acolhimento, com cerca de 500 pessoas no total. São antigas instalações de escolas e de um hotel, recuperados por uma organização de voluntários, com apoio governamental. «Têm as condições mínimas de segurança», conta o médico Henrique Correia, presidente da Saúde em Português, associação criada em 1993. Nestes centros encontraram sobretudo mulheres e crianças. «Eram pessoas que não tinham como objectivo o trânsito para qualquer país europeu, mas sim ficar o mais próximo possível de casa, na esperança de regressar em breve. O discurso de há dois meses era de que «não é preciso tomar outras medidas, porque em breve vou regressar a casa, [mas] ainda continuam nos centros», observa a enfermeira Susana Jorge, um dos quatro elementos da primeira equipa. 


Desde meados de Março, a organização contabiliza mais de 700 atendimentos e quer continuar a missão enquanto se justificar. «As equipas vão e, entretanto, vamos arranjar o dinheiro para as viagens, porque de facto estamos a ver que estamos a ter impacto positivo nestas 500 pessoas que estamos de alguma forma a ajudar. Lamentamos é não conseguir ajudar mais», atira Susana Jorge.

O objectivo final da associação é, assim que estiverem reunidas as condições, entrar na Ucrânia. «É para onde a gente quer ir mesmo, porque é aí que está a emergência», aponta Humberto Vitorino, também vice-presidente da associação e um dos seus fundadores.

Resposta a carências médicas

No terreno, as equipas da Saúde em Português prestam cuidados básicos de saúde, mas têm estado também a «fazer algum ensino para a saúde», segundo Henrique Correia. «Uma coisa que identificámos, e que estamos neste momento ainda em processo de orientação, é a questão das vacinas». Com a continuação da guerra na Ucrânia e as consequentes deslocações, o médico Humberto Vitorino aponta outras preocupações: «Pode haver doenças graves que já estavam praticamente erradicadas no mundo. Esse é que é o grande perigo. Há medida que o tempo continua o risco cresce e, portanto, há que procurar fazer alguma intervenção no sentido da profilaxia das doenças e da promoção da saúde». 

Regra geral, as equipas da Saúde em Português ficam duas semanas na Polónia, num trabalho que encontra barreiras nas diferenças culturais, nomeadamente a língua. A equipa conta que, ao final de alguns dias, já ia apanhando algumas palavras em ucraniano e, nesse aspecto, a ajuda das novas tecnologias foi crucial, bem como a tradução feita por voluntários. «Fomos inventando» conta Vitorino, referindo-se ainda ao uso de uma iconografia utilizada, associando palavras a imagens. 


Com uma vasta experiência em ajuda humanitária em situações de emergência, em países que vão desde Timor-Leste à Guiné-Bissau, do Sri Lanka ao Haiti, os profissionais confessam que esta acção junto aos refugiados ucranianos tem deixado marcas e não apenas por se tratar  de um conflito às portas da Europa. Susana Jorge refere a resiliência das vítimas do conflito e a capacidade de aceitação. A enfermeira destaca o exemplo de uma mulher, fugida da cidade de Odessa, que o grupo ajudou a viajar para Portugal depois do apelo da filha. «A senhora não nos conhecia e quando nos viu fez aquele sorriso e aquele sinal de quem vê a luz, a família, com a sensação de aconchego. Na viatura, esteve a contar que durante dois ou três dias esteve agachada na zona da casa de banho, que era a mais segura por causa dos bombardeamentos, e que via os mísseis; que tudo o que era acesso à internet foi logo bloqueado e que lhes pediram os telemóveis. Ela estava a contar isto ao mesmo tempo que ainda conseguia ter sentido de humor e brincar». 

As equipas que têm estado na Polónia são constituídas por médicos e enfermeiros, mas a ONG admite repensar as áreas de trabalho e incluir, por exemplo, psicólogos ou nutricionistas para melhor responder às necessidades. «Neste momento temos que ser um bocadinho redutores na resposta, que poderia ser mais holística», reconhece Susana Jorge.

Onda de solidariedade

A Saúde em Português confessa-se impressionada com a resposta dos profissionais de saúde e das instituições ao autorizar as deslocações. «Temos tido uma boa resposta, uma boa compreensão e adesão por parte dos serviços. Estamos a falar de profissionais de saúde e, na maior parte, temos tido uma boa resposta dos serviços em facilitar a saída dessas pessoas. Acho que todos compreendemos um bocadinho esta causa maior e esta necessidade», elogia Susana Jorge. 

Os donativos e os apoios recebidos têm sido igualmente essenciais. Humberto Vitorino destaca-nos a resposta à campanha de donativos «Ajude-nos a ajudar».«São estas pessoas que têm contribuído e têm feito com que a Saúde em Português consiga estar na Polónia a ajudar aquela gente», diz, visivelmente emocionado.


Na Polónia, a rede de voluntariado que encontraram é igualmente crucial. «Aquelas pessoas são inexcedíveis e dignas do nosso respeito, porque são dedicadas apenas àquela causa. E penso que nunca verifiquei algum ganho secundário. Nunca suspeitámos que houvesse algum interesse particular ou tentativa de ganhos. São pessoas genuinamente solidárias e que, de facto, aquelas pessoas que ali estão tiveram sorte de as encontrar no caminho», nota Humberto Vitorino. 

A enfermeira recorda a «maneira muito orgânica» como se tem construído a rede de voluntários, com gente de vários países, que deixam em prol desta causa.«Eles iam completamente sozinhos à aventura, só com esta vontade em ajudar. A mim marcou muito esta capacidade de entrega». 

A onda de solidariedade que chegava à fronteira da Polónia com a Ucrânia levantou, no entanto, algumas preocupações, nomeadamente o risco de tráfico de seres humanos, uma das áreas de actuação da ONG. «Chegávamos a encontrar pessoas com cartazes a dizer: “Levo duas mulheres” ou “uma mulher com crianças”. Isto é um choque muito grande e foi o que mais me assustou», recorda Susana Jorge. A enfermeira fala de uma falta de controlo sobre quem saía dos centros de acolhimento, embora muitas vezes estivessem presentes as autoridades, mas nota que a situação foi melhorando durante a sua permanência no terreno. 

Na luta contra o tráfico humano

Desde 2013 que um dos projectos de maior envergadura da Saúde em Português é a gestão do CAP- Centro de Acolhimento a Vítimas de Tráfico de Seres Humanos do sexo masculino. É um dos cinco centros que existem no país e um dos dois apenas destinados a homens. «As autoridades referenciam e sinalizam as pessoas. Nós recolhemo-las, tomamos conta, protegemos numa primeira fase, avaliamos os danos provocados e tentamos ultrapassar algumas dificuldades em termos sanitários. Depois é a questão fundamental da reinserção social», descreve Humberto Vitorino.

Com capacidade para 12 pessoas, a taxa de ocupação ronda quase sempre 100%, com metade dos utentes de nacionalidade portuguesa. «Muitas das nossas vítimas, passaram anos a aceitar [a sua condição] e a não se reconhecerem como vítimas, exploradas laboralmente de manhã à noite, a comer restos, a dormir em barracos onde chovia e havia ratos, sem os mínimos direitos, vítimas de violência, a quem era dado uma garrafa de vinho como compensação. E isto continua a acontecer», observa a Susana Jorge.


Com uma vasta equipa envolvida, com desde técnicos a psicólogos, médicos e monitores, o centro dispõe ainda de um apartamento de autonomização que é usado pelas vítimas quando estão em transição entre o acolhimento e o regresso à vida normal. Um período em que, segundo Henrique Correia, continuam a ser acompanhadas pela Saúde em Português, mas acabam já «a gerir o seu dinheiro e as suas coisas». «Gerir o dinheiro que a Saúde em Português articula com outras instituições, no sentido de lhes dar formação e arranjar emprego. A pessoa só sai quando está completamente reinserida na comunidade», complementa Susana Jorge. 

Além do apoio, a ONG dá formação nas áreas  do combate ao tráfico de seres humanos e da violência doméstica, assim como na promoção da igualdade de género. Os destinatários são, entre outros, assistentes sociais, forças de segurança ou psicólogos a trabalhar nas áreas. 

De Coimbra para o mundo

A Saúde em Português actua ainda junto a comunidades vulneráveis, actualmente com mais dinamismo em Viseu, onde também tem uma delegação. «O «Saúde na Esquina» que dá uma resposta às necessidade de saúde das trabalhadores do sexo da área de Viseu; o «Saúde sem Tecto» em resposta às necessidades da população sem-abrigo; o «Saúde na Prisão» que dinamiza actividades com vista à reintegração social dos utentes do estabelecimento prisional de Viseu e o «Saúde sem Diferença» que, no Centro de Acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Viseu, cria dinâmicas com as crianças acolhidas», enumera Henrique Correia. 

Mas e em Coimbra? «De alguma forma, acaba por haver ou tem havido mais respostas a estas populações vulneráveis do que em Viseu. Em Viseu, quando a Saúde em Português começou, não havia nada e foi muito fácil implementar-se estes projectos no terreno. Em Coimbra, já há mais respostas e outras associações. Neste momento, estamos a repensar e a pensar que projectos é que podemos desenvolver em áreas para que não haja sobreposição», observa Susana Jorge.


Na cena internacional, a organização está envolvida no projecto de uma unidade materno-infantil no Gungo, em Angola. O objectivo é ajudar a minimizar os principais problemas que interferem na saúde da mulher e da criança até aos cinco anos. A organização pretende apostar no público escolar, mais em concreto nos ensinos básico e secundário. O trabalho já tem vindo a ser feito nas áreas de tráfico de seres humanos e da igualmente de género, mas o objectivo é alargar as temáticas. «Agora queríamos começar a desenvolver [acções] dentro mais da saúde, do risco e da saúde mental, que acho que é uma área tão precisa», avança Susana Jorge.

De porta aberta a sangue novo

Quanto mais voluntários a associação tiver, mais capacidade terá para dinamizar os seus projectos, por isso o grupo está empenhado em cativar mais membros. A ideia é poder actuar de acordo com a bolsa de voluntários disponível. «Não faz sentido haver intervenções de mero assistencialismo que depois o impacto que deixamos não é nenhum. É muito apelar a que se dê resposta a algo que é efectivamente uma necessidade e ver de que forma, perante as pessoas que temos e do que temos para oferecer, as podemos colmatar», diz Susana Jorge. Até porque, segundo o vice-presidente da Saúde em Português, é do trabalho em rede que se criam respostas. 


Na agenda está ainda uma campanha de angariação de associados, actualmente a rondar as cinco centenas. «Estamos completamente abertos à participação de quem quiser vir juntar-se a nós. Não precisa de ser profissional de saúde. Qualquer cidadão português que seja apologista da garantia dos direitos humanos pode contribuir. Esperamos que contribuam para a organização de uma forma activa e permanente», remata Humberto Vitorino.

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