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Bienal de Arte Contemporânea

Façam

Visita guiada

Já foram ver a «Meia Noite» na Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra?

Vestimo-nos da nossa maior curiosidade e saímos rumo ao Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e outros espaços para conhecer a Anozero. Até 26 de Junho, há propostas de dezenas de artistas, actividades paralelas e visitas guiadas gratuitas todos os sábados.

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Elfi Turpin e Filipa Oliveira colocaram os óculos de morcego de Coimbra por cima dos seus óculos feministas e convidaram artistas a partilhar as suas ferramentas artísticas e críticas na Anozero ’21-22 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. Ferramentas que, segundo as curadoras, «multiplicam e ligam mundos», além de se situarem «depois do patriarcado — no futuro, portanto.» Porquê óculos de morcego? Porque as artistas pegaram no facto de a Biblioteca Joanina, edificada como um gesto imperialista que ambicionava encapsular o conhecimento e ostentar o domínio colonial, ser ao mesmo tempo refúgio de uma pequena colónia de morcegos, que encontraram nas suas condições ambientais o lugar ideal para a sua casa.

Inaugurada em Abril, esta é a segunda parte de «Meia Noite». Começou em Novembro, em forma de exposição-conversa e continua até 26 de Junho com um conjunto de exposições colectivas para ver no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, mas também no Círculo de Artes Plásticas (Sereia e Sede), na Estufa Fria do Jardim Botânico e no Teatro da Cerca de São Bernardo. Deixamo-nos levar pela curiosidade e liberdade de explorar e indagar que a arte contemporânea permite e levantamos o véu de algumas obras.

Mosteiro Santa Clara-a-Nova

O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova é a actual casa mãe da Anozero – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra e é, desde logo, um sítio que vale sempre a pena conhecer ou revisitar só por si. Construído no século XVII para substituir o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, fustigado recorrentemente pelas cheias do rio Mondego, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova ficou concluído em 1696 e albergou as clarissas, fiéis depositárias dos restos mortais da Rainha Santa Isabel, que está lá sepultada. Entrámos com a curiosidade no máximo, pegámos num mapa com o circuito das exposições e acompanhámos a visita guiada disponível gratuitamente todos os sábados, às 15h, sem necessidade de agendamento.

Início da exposição Meia Noite da Anozero – Bienal de Arte Contemporânea 2022

Para «Meia Noite», a curadora francesa Elfi Turpin e luso-francesa Filipa Oliveira trabalharam o conceito da noite, mas não o habitual. As artistas associam a noite à luz e à vida. Alguns dos temas mais presentes nas obras dos 40 artistas convidados, a maioria mulheres, são o anti-colonialismo, o feminismo e a diversidade.


Aurélia de Souza saúda-nos à entrada. Porquê ela? Porque se trata de uma artista vanguardista luso-chilena que viveu no século XIX. Aos 27 anos matriculou-se na Academia Portuense de Belas-Artes, contra a vontade da mãe, e estudou pintura e fotografia explorando sobretudo a perspectiva feminista. Neste «Estudo para o autorretrato Santo António», fotografou-se com o hábito de um monge, a fim de se pintar a si própria como Santo António, em 1902.


Nas primeira salas do circuito numerado, cujo mapa está disponível na entrada, além das cerâmicas de Seni Camara encontramos os trabalhos escultóricos e vídeo de Julie Béna. «Miles», «Letters from Prague», «Dick’s Wings and Grill» tratam o corpo, a sua posse e a constante recuperação dos corpos através das palavras, do amor, do olhar dos outros. Desde encarnar a figura de Jindřich Chalupecký para criticar o sexismo do mundo da arte à sequência fotográfica na qual incorpora, sussurra, grita ou dança a violência da posse e alienação de corpos, misturando histórias pessoais, citações e canções populares.


Mais à frente, a «Suspensão» de Jarbas Lopes faz referência ao momento primordial da invenção do fogo e propõe que reflectamos sobre o ponto de viragem na evolução humana. Com o domínio dessa primeira tecnologia, que permitiu um consequente progresso extraordinário, veio também o desejo imparável de evolução, do controlo e domínio de todas as tecnologias. Nós, espectadores, somos convidados a deixar literalmente a nossa marca no chão com pedaços de carvão.


Há espaços ao longo do circuito da Anozero no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que podem ser apenas para descansar ou absorver a energia do lugar. A Sala das Praças está repleta de plantas e árvores no interior e tem tanto de belo como de intrigante. No primeiro andar, também há um café com esplanada para fazer uma pausa antes de seguir viagem «Meia Noite» dentro.


A exposição «Descolonizar o pensamento», de Carlos Bunga, foi a escolhida por Elfi Turpin e Filipa Oliveira para inaugurar a Bienal de Coimbra, no dia 27 de novembro, na Sala da Cidade. Agora podemos ver «Mother», um vídeo de uma conversa do artista português com a mãe que conta a história da fuga da sua terra após o nascimento da irmã e todo o processo de saída de Angola para Portugal. É uma conversa profundamente íntima e crua, mas também uma reflexão sobre o tráfico de seres humanos e o respeito pela diversidade e os direitos humanos.


A provar que a arte pode ter várias formas, «The Africans – Act 1» de Christian Nyameta e Obi Okigbo é uma novela radiofónica criada a partir de um dos momentos centrais do livro «The Trial of Christopher Okigbo», do filósofo e escritor queniano Ali A. Mazrui (1933–2014). O poema sonoro retrata a luta entre individualismo, universalismo e o colectivo social. Um jovem poeta nigeriano, depois de morrer num acidente trágico, chega às portas do After-Africa, onde é julgado pelo Conselho da Salvação por ter abandonado a poesia para lutar na Guerra de Biafra.


Depois de assistir a «Oriana» de Beatriz Santiago Muñoz, filme que parte do livro Les Guérillères, da escritora feminista Monique Wittig, para o qual a artista foi buscar inspiração a Augusto Boal e ao Teatro do Oprimido, voltamos a entrar no edifício principal e subimos ao primeiro andar, com arte a descobrir quer em salas quer pelos corredores. Numa das salas está a instalação de pilhas de ficheiros administrativos cujo conteúdo foi moldado em betão, de Jesse Darling. Refere-se ao peso da administração necessário para manter uma vida, ao peso das horas de espera nas salas dos aeroportos, gabinetes de imigração, hospitais, aos sistemas que reúnem e governam os nossos corpos.


Tremendamente azul, «Olho, Nariz, Boca, Ouvido, Testa, Queixo, Maçã do Rosto, Sobrancelha» de Ru Kim mostra o resultado de uma pesquisa sobre a agentividade da água, questionando a responsabilidade dos seres humanos enquanto corpos de água para com outros corpos de água. Numa perspetiva hidrofeminista, água é o que nos une ao longo das nossas violentas histórias partilhadas de dominação, colonialismo, extrativismo, cumplicidades entre governos e instituições necropolíticas e diferenças através do tempo e dos lugares. O público é convidado a produzir as vozes de diferentes corpos de água em microfones espalhados pela sala.


No corredor, quase a terminar o segundo piso do Mosteiro, «The folds of his flesh stick together, firmly cast on him and immovable. Job 41:23» é composto por duas esculturas que inalam uma substância amarela e são apanhadas em pleno momento de transformação. Oscilam entre o animal e o humano, num profundo estado de transe psicotrópico: corpos em mutação que evocam tanto a história como objetos de uso diário. A ideia de transformação é central no trabalho de Gabriel Chaile, que a aborda de forma poética, simbólica, mas também humorística e política.


Depois de som, visual, matéria, e se a obra fosse…um cheiro? Candice Lin & P. Staff transformaram uma máquina de fumo, como aquelas que se podem encontrar em qualquer discoteca, para produzir um nevoeiro hormonal e destilar um decocto de ervas com efeitos estrogénicos. Os estrogénios podem ser utilizados no controlo reprodutivo, no tratamento dos sintomas da menopausa ou no acompanhamento de transição de género por substituição hormonal (transfeminilidade). A receita para esta infusão é inspirada em receitas de herbais alternativos, tais como alcaçuz, angélica ou lúpulo, que podem ter sido utilizadas, juntamente com a medicina moderna, para «hackear» o sistema hormonal do corpo.


Há mais obras para ver, destacamos apenas algumas, mas não deixamos o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova sem desvendar o segredo nas duas lâmpadas de morse que piscam no corredor principal do piso térreo do edifício. Percorremos os 200 metros entre uma lâmpada e outra até à saída e descobrimos que é Io vivere vorrei addormentato entro il dolce rumore della vita, de Elisabetta Benassi. Representa um diálogo ficcional entre os poetas Sandro Penna e Pier Paolo Pasolini a partir de poemas e textos do último. Quando a luz está acesa alguém fala, quando a luz está apagada alguém escuta. «Gostaria de viver adormecido no interior do doce ruído da vida» é um hino silencioso ao corpo, ao amor e à diferença.

A Bienal continua

Além do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, há mais exposições para ver no CAPC Círculo Sereia, no CAPC Círculo Sede, na Estufa Fria – Jardim Botânico e no Teatro da Cerca de São Bernardo. Nas imagens ficam com um aperitivo das propostas de artistas como Diana Policarpo, Filipa César, Marinho de Pina, Marta Lança e Sónia Vaz Borges, Aurélia de Souza, Lastenia Canayo-Pecon Quena, Mary Beth Edelson e Meris Angioletti.

A Bienal converge e activa

Há uma programação Convergente e de Activação a acontecer em vários espaços da cidade. Podem acompanhá-la no site, na página Facebook e Instagram da Anozero.

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