Contribuir small-arrow
Voltar à home
Apoiem

Ajuda humanitária no Afeganistão

Contactem

Quem nos governa

Leiam

Mini-série sobre Massouda Hedayat

A fuga de Massouda Hedayat do Afeganistão para Coimbra

Coimbra é o porto de abrigo para uma família afegã que foi ajudada a fugir do Afeganistão, ocupado pelo regime taliban, num processo que envolveu diversas pessoas e organizações, entre as quais a organização internacional Women in Tech, a Feedzai, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Embaixador de Portugal no Paquistão.

Partilha

Fotografia: Mário Canelas

Apoiem

Ajuda humanitária no Afeganistão

Contactem

Quem nos governa

Leiam

Mini-série sobre Massouda Hedayat

Massouda Hedayat, uma jovem afegã de 21 anos, sugeriu que nos sentássemos no relvado do Parque Verde do Mondego, com os olhos postos no rio e no futuro. Depois de nos ter contado como cresceu, como era a sua vida em Cabul e o desespero de diversas tentativas frustradas de saída do Afeganistão, ouvimos atentamente o relato da sua fuga para Portugal.

Com a retirada das tropas americanas do Afeganistão, em Agosto de 2021, os Taliban ocuparam o país à força, mudando radicalmente a vida de toda a população, sobretudo das mulheres que viram as suas liberdades restringidas.

Massouda queria fugir do país e do regime taliban. Apesar da soma de dores e sofrimento por todos os dias violentos que viveu, manteve acesa a confiança num futuro melhor. A esperança chegou-lhe pelas redes sociais e foi através do Twitter que conheceu Laia Marsal Ferret, uma consultora de comunicação e marketing. Esta pessoa foi a primeira peça de um dominó de pessoas e organizações que contribuíram para a fuga de Massouda e da família para Coimbra.

Os apelos de Massouda no Twitter desencadearam uma cadeia de contactos que atravessou fronteiras. Laia falou com Marta Crawford, psicoterapeuta e também activista dos direitos das mulheres. Em seguida, Marta partilhou a história de Massouda com a amiga Cláudia Mendes Silva, embaixadora da organização internacional Women in Tech. Por sua vez, Cláudia contactou Nuno Sebastião, co-fundador e CEO da Feedzai, e uniram esforços na redacção de uma carta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). O MNE validou este pedido, mobilizou a Embaixada de Portugal no Paquistão e o Embaixador, Paulo Neves Pocinho, prontificou-se a avançar com a emissão dos vistos necessários para a vinda da família afegã para Coimbra.

O caminho burocrático estava desimpedido, o desafio era agora chegar ao Paquistão: a esperança estava do outro lado da fronteira que Massouda e os pais precisavam de atravessar. «Todos os vôos tinham sido cancelados. Decidimos viajar 100 km para a fronteira, mas vimos mais de 10 mil pessoas à nossa frente, era impossível passar. Voltámos a casa.»

O pior sentimento no mundo é achar que ninguém quer saber de nós. (Massouda Hedayat)

Passados alguns dias, Massouda foi contactada pela Too Young to Wed, uma associação que se dedica a proteger os direitos de jovens mulheres e que trabalha no terreno, com a missão de transportar pessoas de um sítio inseguro para um local seguro. A organização confirmou que conseguiria levá-la e aos pais num vôo charter para o Paquistão. «Viajámos com outras pessoas, mas tudo era muito privado. Foi-nos dito para não falarmos com ninguém, por questões de segurança. Foi a primeira vez que andei de avião, um vôo de 30 minutos, e eu nem estava a acreditar que ia a caminho de uma vida livre. A cada segundo tinha pessoas da organização a perguntar se eu estava bem.»

«Nunca ninguém foge de casa a não ser que casa seja a boca de um tubarão.»
Imagem e legenda de Massouda Hedayat no dia da viagem para Portugal, partilhada na sua conta no Twitter (onde escreve sob o pseudónimo Aisha Ahmad).

Depois de dezenas de dias cheios de tristeza, angústia e medo, a chegada ao Paquistão «foi uma alegria muito grande». Foi nessa altura que Massouda e os pais souberam, através de Cláudia, que o destino final desta operação de resgate seria Coimbra. Como combinado, a Embaixada de Portugal no Afeganistão emitiu os vistos de forma célere e, no espaço de 48 horas, Massouda e os pais estavam finalmente capazes de sonhar com a viagem para uma vida com paz.

Em solo português, foi Paulo Marques (co-fundador e CTO da Feedzai) que cuidou de operacionalizar o acolhimento de Massouda em Coimbra.

«A empresa Feedzai marcou os nossos bilhetes do Paquistão para Portugal, ajudou-nos mesmo imenso, estou muito agradecida ao Paulo e à Cláudia e a todas as pessoas envolvidas neste processo que me permitem estar aqui, à tua frente, aqui ao pé do rio a conversar. O Embaixador de Portugal no Paquistão, Paulo Neves, também lhe estou muito agradecida. Ele telefonou-me pessoalmente, foi uma enorme honra para mim, e seguiu cada passo até estarmos num sítio seguro.»

Massouda já tinha ouvido falar de Portugal porque é uma grande fã de Cristiano Ronaldo, mas não conhecia outros locais para além de ter ouvido falar de Lisboa. «Já tinha visto fotografias na internet, imaginava que fosse um sítio muito bonito, que gostaria de visitar um dia.»

Foi a 10 de Novembro que aterraram em Lisboa, recebidos com flores oferecidas por Cláudia, que tinha também organizado um transporte privado para Coimbra. «Sinto-me tão feliz e tão agradecida a todas as pessoas em Portugal pela forma como fomos acolhidos. Chegámos a casa durante a tarde e foi a primeira vez que vi estes sítios. Só pensava que espero que o meu país chegue um dia a ter este nível de desenvolvimento. Eu não vou perder a esperança pelo meu país e pelo meu povo.»

Sinto-me tão feliz e tão agradecida a todas as pessoas em Portugal pela forma como fomos acolhidos.

A vida de Massouda em Coimbra

Os dias nesta cidade à beira do Mondego são agora o presente feliz de Massouda. Normalmente acorda às 8h para ter aulas às 9h. «As boas notícias é que a nossa casa fica a dez ou 15 minutos a pé da Universidade.» As manhãs são passadas nas aulas de Português, algumas tardes são preenchidas com aulas de programação no DEI. «O mais importante é aprender a língua, estou a aprender português o mais rápido que consigo para poder comunicar, fazer mais amigos, visitar outros locais. Depois das aulas vou para casa, sinto-me segura a ir para casa a qualquer hora, mesmo quando já está escuro. Aqui sinto-me livre.»

Massouda sente que Coimbra é o sítio onde vive agora, ao lado dos pais, uma vida boa. «Estamos tão agradecidos ao governo português que nos deu esta oportunidade, que me permite estudar e envolver-me em actividades. Quero apenas ser uma boa pessoa, ajudar o que eu puder, dar de volta. Somos todos cidadãos, quem sabe poderei um dia ajudar portugueses.»

Continuámos a caminhar, à nossa frente erguia-se a imagem-postal de Coimbra, com a torre da Universidade que parece apontar a direcção de Massouda: “Eu tenho tantos sonhos. O primeiro deles é ser a melhor versão de mim própria, quero ser engenheira informática, como nos filmes que vi com mulheres que conseguiam programar muito rápido. A segunda coisa é ajudar o meu povo. Acho que o pior sentimento que existe no mundo é achar que ninguém quer saber de nós, que somos insignificantes. Senti isso muitas vezes, a cada vez que vinha para casa do aeroporto sem conseguir fugir do Afeganistão, mas nunca desisti. Eu continuei a ter esperança e é por isso que nunca hei-de desistir, agora não por mim mas pelos outros.”

Acho que o pior sentimento que existe no mundo é achar que ninguém quer saber de nós, que somos insignificantes.

Algumas pessoas, como o grupo das Raparigas do Código já desafiaram Massouda para alguns eventos e a jovem afegã está a encontrar o seu espaço, os seus amigos e as suas referências neste novo capítulo da sua vida, em Coimbra. «Houve um evento em Lisboa, fui com as Raparigas do Código durante 3 dias, elas cobriram todas as despesas. Foi a melhor experiência que podia ter tido porque fizeram-me uma surpresa e levaram-me à praia.» Na altura do Natal, com Paulo Marques (co-fundador da Feedzai), pôde experimentar andar de patins no gelo, um momento que Massouda considerou ter sido inesquecível. Também já visitou as instalações da Feedzai, feitas do material dos seus sonhos. E lembra-se, com muito detalhe, do convite para jantar que lhe chegou uma semana depois de ter chegado a Portugal, rodeada das caras gentis que a ajudaram a sair do Afeganistão, símbolos de uma renovada esperança.

A tranquilidade do quotidiano não varre para debaixo do tapete as profundas consequências psicológicas da ocupação taliban e que deixam um lastro de sintomas como pesadelos e ansiedade. «Não sabemos exactamente como lidar com tudo o que passámos. Quando viemos para cá, eu estava a dormir e, de repente, ouvi um som, não sei o que era, mas fiquei imediatamente em choque, senti-me naquele momento de volta ao Afeganistão. Sempre que ouço um barulho mais alto, mesmo que seja um barulho normal, não consigo controlar, a minha mente vai imediatamente para o Afeganistão.»

Fome no Afeganistão: imagem de mulheres que aguardam que alguma pessoa lhes ofereça pão para alimentar a família.
(Imagem publicada por Massouda Hedayat na sua conta no Twitter)

O que podemos fazer pelos afegãos?

Percorremos a estrada de terra batida no Parque Verde durante longos minutos, a nossa atenção alternava entre a leveza das brincadeiras das crianças que nos rodeavam e a seriedade da conversa. Perguntámos o que podemos fazer pelo povo afegão. «Obrigada por perguntares o que é que a comunidade pode fazer. Criei um crowdfunding que ajuda pessoas a obter comida, sobretudo pacotes de pão. Há pessoas que deixaram de poder trabalhar, há muita gente a passar fome. Também estamos a fornecer bolsas de diferentes países para raparigas poderem estudar. E fornecemos passaportes e vistos para o Paquistão. Estamos em contacto com diferentes países para coordenar uma resposta conjunta. Todas as pessoas podem contribuir, não importa com quanto.»

Para lá da acção do terreno, queremos saber o que pode a comunidade fazer. «O melhor é não se esquecerem de nós. Podem activar o tema nas redes sociais para que a comunidade apoie o nosso povo. Hoje em dia, não vejo nada nas notícias sobre o Afeganistão, quero refrescar a memória do que se passou. Este assunto tem de ser relembrado, não podemos deixar os Taliban no Afeganistão, temos de apoiar o povo, sobretudo as mulheres que estão num risco acrescido.»

Massouda não larga a determinação que a trouxe até Portugal e, admitindo a complexidade do regime taliban, deixou-nos uma sugestão: «É possível colocar pressão nos países que estão a ajudar os Taliban. Sabemos quais são, não é nenhum segredo. Se quisermos pressionar, se os países que já o estão a fazer à Rússia fizessem o mesmo aos países que apoiam os Taliban, podíamos ver resultados. Neste momento, os Taliban fazem o que querem no Afeganistão.»

Podem ler mais sobre a vida de Massouda Hedayat no Afeganistão antes da fuga para Coimbra e sobre o último tema que abordámos, sobre a diferença de tratamento entre refugiados ucranianos e afegãos.

Mais Histórias

Descobrimos o verdadeiro mosaico religioso de Coimbra

Quantas religiões cabem na cidade e como são recebidas? Umbandistas, muçulmanos e espíritas rezam e convivem na terra de Santo António e da Rainha Santa Isabel.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Cabine da Palavra: 21 confissões com vista para o passado e o futuro da Baixa

Num vídeo documental que resultou da iniciativa Rua Zero – (Re)imaginando Coimbra, dezenas de cidadãos partilham histórias e ideias sobre a zona histórica e o resto de Coimbra à espera de acontecer.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Com a palavra, os sem-abrigo (melhor ouvir do que só deduzir)

Permitam-se um olhar diferenciado e uma leitura livre de julgamentos, e conheçam a cidade do lado de quem cedeu ao desalento e abandonou o lar como parte do pacote do desespero, e a rede pública que os ampara diariamente.

quote-icon
Ler mais small-arrow
Contribuir small-arrow