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Usar a bicicleta em Coimbra não é um mito, mas ainda há muito para pedalar

Intervenientes da Conversa de Café sobre mobilidade urbana e a utilização da bicicleta como meio de transporte, promovida pela Coimbra Coolectiva, vêem maior adesão da população mas apontam à necessidade de uma mudança de mentalidades na cidade.

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Fotografia: Mário Canelas

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Mais e melhores ciclovias, restrições rodoviárias em zonas como a Rua do Brasil ou a Avenida João das Regras, a redução dos limites de velocidade em algumas zonas ou balneários nos locais de trabalho, para os ciclistas tomarem um duche antes de irem trabalhar. Foram estas algumas das ideias que saíram da noite de quarta-feira, no Café do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV). «Não dá para usar bicicleta em Coimbra: Verdade ou mito?». A esta pergunta que lançámos, as respostas foram diferentes, mas consensuais: que o uso da bicicleta é já uma realidade na cidade. No entanto, todos concordam que ainda há muito a fazer.


«Não há nenhuma razão para que, em Coimbra, não se ande mais de bicicleta». A frase foi proferida pelo professor do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e especialista em mobilidade Álvaro Maia Seco, que, curiosamente, até admitiu não ser ciclista. «Andava muito de bicicleta há 50 anos. Agora sou daquelas pessoas que precisa de mais incentivos», revelou.

Para Maia Seco, a bicicleta deve ser pensada numa perspectiva de interligação com outros transportes, reconhecendo haver situações em que a bicicleta não é uma boa solução. «Em Amesterdão (nos Países Baixos) ou Lund (na Suécia), cidades conhecidas pelo grande uso da bicicleta, não deixa de haver automóveis ou outras soluções», lembrou. Para completar, defendeu que há eixos que têm de ficar como rodoviários. «Não podemos dizer que os ciclistas têm de ir para todo o lado, como não podemos dizer que os automóveis têm de ir para todo o lado. Tem de haver redes estruturantes», concluiu.


O arquitecto Bruno Marques esteve no Café do TAGV para provar que usar a bicicleta em Coimbra é possível e uma realidade. Começou a pedalar regularmente no Rio de Janeiro, durante um intercâmbio escolar, continuou nos cinco anos que viveu em Tóquio, no tempo que viveu no Porto, e mantém o hábito em Coimbra, onde vive actualmente. Mas admite que tem os seus obstáculos. «A orografia não ajuda, aconselha-se uma bicicleta eléctrica. Mas parte muito dos trajectos. Vivendo na Alta não é muito fácil fazer a vida de bicicleta, mas noutras zonas é viável», apontou, completando que leva o filho à escola regularmente de bicicleta. «O ciclista ainda é marginalizado na via pública, porque está a mais na estrada e está a mais no passeio», lamentou.


Para Bruno Marques, a rede de ciclovias em Coimbra foi bem pensada, aproveitando a quota baixa junto ao Rio Mondego, mas considerou haver troços que não são os melhores. «Não é boa ideia haver ciclovias mistas para bicicletas e peões, porque, da mesma forma que podemos ser atropelados, também podemos atropelar alguém. Não uso esses troços com medo de atropelar algum peão», justificou.

Em representação da Câmara Municipal de Coimbra, o chefe da Divisão de Mobilidade, Transportes e Trânsito, Tiago Cardoso, destacou uma mudança estratégica da autarquia nos últimos 10 anos, com a criação de mais ciclovias, mas admitiu ter no planeamento da cidade e na mentalidade da população um obstáculo. «Urbanisticamente, o nosso Plano Director Municipal obriga a que cada prédio tenha uma parte de estacionamento privado e público. É uma visão rodoviária da gestão do espaço. E depois temos espaços como a Avenida Elísio de Moura, em que quase todos os prédios têm garagens, que são usadas como armazéns e os carros estão em cima do passeio», salientou.


Como práticas a seguir pela autarquia, o chefe de Divisão entende que tem de incentivar o uso da bicicleta, desincentivar o uso do automóvel e sensibilizar para a questão do estacionamento no espaço público. «Em Coimbra, quem não parar à porta acha que está longe. E toda a gente acha que tem de estacionar à porta e de borla», acusou. No entanto, salientou ver mais bicicletas na cidade, com os parqueamentos para bicicletas muitas vezes cheios.

Maia Seco concordou com Tiago Cardoso na parte em que a cidade cresceu virada para o automóvel, e que o espaço público ainda não está preparado para um uso maior da bicicleta, de forma segura. Para o professor universitário, esta mudança leva tempo e voltou a referir Amesterdão. «Não vamos passar de 0,4% de pessoas a usar a bicicleta para 20 ou 30% em dois ou três anos. Amesterdão demorou 50 anos. Eles começaram a fazer a revolução da mobilidade em 1963, na altura do choque petrolífero, quando perceberam que não tinham dinheiro para o combustível», recordou.


Para que tal aconteça, Maia Seco apontou para investimentos nas infraestruturas. «Nos próximos dias estão previstos 33 graus. Andar de bicicleta com essa temperatura na minha idade é um esforço grande. Mas se houvesse, na minha faculdade, um balneário onde pudesse tomar um duche e dar a minha aula, pensaria nisso. Isso vai demorar muito tempo a acontecer», defendeu.

Ciclovias planeadas

Tiago Cardoso revelou que estão em vias de ser criadas novas ciclovias, que serão interligadas e permitirão uma maior e mais segura circulação de bicicletas. «Temos na calha a requalificação da estrada de Eiras, em que, aproveitando uma obra das Águas de Coimbra, conseguimos a muito custo reduzir a largura das vias, alargámos os passeios e criámos um corredor para criar uma ciclovia. Estamos também a estudar o prolongamento dessa estrutura para Santa Apolónia. No Monte Formoso, queremos aproveitar um troço que já lá existe, ligando o Bairro do Ingote, Monte Formoso e Casa do Sal, sendo que aí já se interliga com a rede de ciclovias».


Entre concelhos, lembrou o projecto da ciclovia do Mondego, com mais de 20 anos, que pretende ligar as cidades de Coimbra, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz. «E queremos aproveitar aquele conjunto de populações que vive numa zona com uma quota baixa, como Taveiro, Arzila e Pereira, que vão ligar à rede da Ponte Açude. Está só à espera de financiamento. Outra que está projectada vai do Bolão e segue pela Pedrulha, Adémia, São Silvestre, São João do Campo e São Martinho de Árvore», afirmou.

Sucesso das bicicletas partilhadas

Coimbra tem, há três semanas, um serviço de bicicletas eléctricas partilhadas, através da Bolt. Tiago Cardoso destacou o sucesso que tem sido a sua utilização em 21 dias, com mais de 30 mil quilómetros feitos, mais de 13 mil viagens em, com 100 bicicletas, numa média diária de mais de 1500 quilómetros. «A Bolt já está a pensar aumentar o número de bicicletas», revelou. Acrescentou, no entanto, que o serviço não é o ideal e é caro para quem o quiser utilizar regularmente, salvaguardando que o intuito do serviço também não é o da deslocação de casa para o trabalho. «Ando desde 2012 a tentar criar uma rede pública de bicicletas, mas custa dinheiro e nunca foi uma prioridade. Talvez consiga com o patrocínio de uma entidade externa, como acontece em Londres», disse.

Público aponta para soluções

A conversa de café atraiu cerca de meia centena de interessados ao Café do TAGV, que apresentaram as suas ideias e soluções para a mobilidade na cidade. Pedro Isidoro, professor na Escola Rainha Santa Isabel, em Eiras, é um utilizador da bicicleta e afirmou que a mudança de meio de transporte lhe tem permitido, nos últimos anos, descobrir a cidade. Quanto à ideia de Álvaro Maia Seco, da existência de balneários nos espaços, contou que, na sede da Associação de Utilizadores de Veículos Eléctricos, da qual faz parte (e que nasceu em Coimbra, apesar de estar sediada em Lisboa) essa ideia é já uma realidade.



Paulo Andrade, mestre em Direito do Ambiente, deixou alguns reparos às ciclovias existentes na cidade, considerando que são mais para lazer do que como meio de transporte. «É uma falácia dizer que há uma rede de ciclovias, há alguns troços», criticou. Para Paulo Andrade, as ciclovias devem ser segregadas, em rede, e retirando espaço ao automóvel e não ao peão.

Já o italiano Francesco Navarrini apontou para a vontade política e deu o exemplo da sua cidade natal, Parma. «Era como Coimbra até 1998, uma cidade só para carros. Aí fecharam os estacionamentos para colocar relva e as pessoas ficaram sem saber o que fazer, porque iam deixar de ter lugar para estacionar. A verdade é que o centro de Parma está melhor do que nunca», destacou. Ao lado de Francesco, Fábio Fernandes falou na necessidade de sensibilizar a população. «Havendo serviços de bicicletas e trotinetes partilhadas, é importante que os automobilistas sejam sensibilizados para as outras pessoas que andam na estrada. Há muitos condutores que não sabem que as bicicletas, segundo o Código da Estrada, são equiparadas aos veículos automóveis. Também é necessário haver sensibilização para não ir cada um no seu carro, poder haver soluções de partilha de automóveis», alertou.



Rua do Brasil e Avenida João das Regras

Na resposta às questões do público, Álvaro Maia Seco e Tiago Cardoso centraram as ideias em dois aspectos: a necessidade de reduzir os limites de velocidade em algumas zonas e a restrição aos automóveis, sobretudo em duas vias: a Rua do Brasil (que faz a ligação entre a Solum e o Largo da Portagem) e a Avenida João das Regras (que liga a Ponte de Santa Clara ao Portugal dos Pequenitos). O professor universitário assegurou ainda que estas ruas fazem parte de projectos adiados na cidade.

«Há 20 anos que digo que é um crime a Avenida João das Regras ser a Estrada Nacional número 1. Nessa altura estudou-se a possibilidade de se criar um eixo alternativo, mas a Universidade bloqueou, porque julga que os seus espaços são os mais importantes da cidade», exemplificou. Sobre a Rua do Brasil, revelou também que, igualmente há duas décadas, está previsto o prolongamento da Avenida da Lousã, junto ao Parque Verde. «Eu colocaria as bicicletas na Rua do Brasil, com alternativa rodoviária na Avenida da Lousã, com sentido único», defendeu. Tiago Cardoso concordou que a Rua do Brasil merece que lhe seja dada outra configuração relativamente à actual, mas apontou para um problema. «Os ciclos políticos são de quatro anos e quem vem tem ideias diferentes dos anteriores», sublinhou.


Na questão das limitações de velocidade, Álvaro Maia Seco considerou que, em algumas vias, a sensibilização não chega. «Há que criar barreiras físicas, como lombas, para que os condutores não circulem acima dos 30 quilómetros por hora», considerou. Em resposta à comparação com Parma, lembrou uma «vitória» conquistada a muito custo na Universidade. «O espaço a seguir à Porta Férrea, no Paço das Escolas, era um parque de estacionamento e foi uma luta para tirar de lá os carros, porque os senhores professores não queriam. Outras zonas na Alta têm de ser resolvidas, como o Largo D. Dinis, que é um parque de estacionamento selvagem», entendeu.


No final da sessão, a nossa urna tinha cerca de três dezenas de boletins preenchidos pelos participantes com as sua ideias, opiniões e sugestões para os próximas Conversas de Café.

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