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Cowork em Coimbra

Coimbra com mais encanto na hora do regresso

Saíram de Coimbra por melhores oportunidades profissionais, mas agora estão de regresso à cidade. São filhos da terra que buscam na mudança a qualidade de vida e maior proximidade familiar, acreditam que a cidade hoje oferece melhores condições de vida mas lançam ideias sobre o que ainda se pode fazer mais.

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Fotografia: Mário Canelas

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Cowork em Coimbra

Fábio Fernandes é arqueólogo e, em 2017, foi para Lisboa. «Coimbra, na altura, não oferecia na minha área aquilo que outras cidades ofereciam, quer em termos de competitividade, quer de rendimento». Regressou há cerca de um mês, casado e com uma filha pequena. Acredita que a mudança foi facilitada pelo facto de, tanto ele como a mulher, terem podido manter os empregos à distância. «Acho que a questão do teletrabalho veio ajudar muito.» 

Para quem regressa a Coimbra para começar do zero, as oportunidades de trabalho são um obstáculo. João Fonseca que o diga. Já viveu em Inglaterra, em Lisboa e, mais recentemente, na Alemanha. A primeira vez que saiu foi em 2015. «Foi na altura mais complicada da crise e não havia mesmo emprego. Pelo menos eu tive muita dificuldade em arranjar emprego». Está em Coimbra desde o final do ano passado e aposta agora num curso de turismo para complementar a formação na área das artes. «É bom para alargar horizontes e abrir portas».

Foi a falta de oportunidades que afastou Joana Moreira. «Coimbra tem muito pouca oferta de possibilidades, não só profissionais. Acho que esse é, sem dúvida, o ponto principal que afasta as pessoas e falo por experiência, porque passei por isso. Eu quis vir, quis ficar, regressar às minhas origens, e não consegui. Acredito que muita gente acaba por fazê-lo e não fica precisamente pelas mesmas razões».

Na última década, Joana viveu em Lisboa e no Canadá. Quando se dá o regresso a Portugal, a ideia é fixar-se com o marido em Coimbra. «Infelizmente, a cidade continua a não ter muitas possibilidades ou muitas ofertas, principalmente na minha área. Estivemos pouco tempo. A necessidade de encontrar trabalho levou-me novamente para Lisboa». O desejo de regressar manteve-se e a família decide voltar, mesmo sem qualquer proposta laboral. «Felizmente, a empresa não entendeu assim e disse que queria que eu me mantivesse. A minha vinda para Coimbra impulsiona a abertura de uma nova loja. Foi mais fácil, porque vim com um trabalho e isso ajuda logo a que as coisas se desenrolem».

A idade é um factor que pesa na decisão de regressar a Coimbra. Se antes procurou Lisboa por ser atractiva, «pela vida mais social e de entretenimento, para além das possibilidades profissionais», hoje, Mariana Néri reconhece que «estamos noutra fase da vida, em que procuramos mais qualidade de vida». A família regressou há um ano a Coimbra, sem que isso tivesse sido um plano ou um desejo. «Tínhamos a nossa vida em Lisboa e estávamos muito estabelecidos. Não tínhamos ideia sequer de sair dali, muito menos de voltar a Coimbra».

A rede familiar como pilar

Com o nascimento de filhos, a necessidade de uma rede familiar torna-se «mais importante», admite Rita Soares, jornalista, a viver em Coimbra desde Setembro de 2021. O regresso «nunca foi um projecto muito arquitectado» e chega por impulso, através de um convite de trabalho feito ao marido, António Mota. «Começámos a pensar que eventualmente para as crianças era bom estar perto dos avós, dos tios, dos primos». Mas o inverso foi igualmente importante: «Os meus pais já estão reformados e com alguma idade. Agora podem ser a nossa rede, mas também começam a precisar de nós para sermos um bocadinho a rede deles», reconhece António.

Com ou sem crianças, a pandemia foi um marco nas vidas de todos nós e alterou rotinas. No caso de Inês Moura foi um dos factores a pesar na decisão de regressar. «Senti que a pandemia realmente nos pediu para repensar muitos os valores, a nossa condição, o que andamos a fazer com o nosso tempo. Não só no sentido do que se anda a fazer pelo tempo de uma forma profissional e produtiva, mas o que se anda a fazer com o tempo do ponto de vista familiar». Inês Moura vivia no Brasil desde 2009 e está em Coimbra há um ano e meio. «É óbvio que hoje me sinto incompleta, esteja onde estiver. Sei que, hoje, quando estiver no Brasil, há uma parte de mim que está em Portugal e vice-versa». 

Os confinamentos, as escolas fechadas e o trabalho remoto durante a pandemia obrigaram a uma gestão familiar mais musculada. Mariana Néri, licenciada em gestão e a trabalhar na área do marketing, procurou várias vezes a ajuda da família na cidade, o que a levou a questionar por que é não vinha para Coimbra. Mariana aponta que a mudança trouxe benefícios ao nível da qualidade de vida, do preço da habitação e da optimização do seu tempo. «Em Lisboa tudo demora tempo, desde ir buscar os miúdos à escola até chegar a casa é quase uma hora e meia», acrescenta.

Para Fábio Fernandes a qualidade de vida materializa-se em pequenos gestos diários como um passeio no final de jantar com a filha na zona onde vivem, algo que considera ser «completamente inconcebível» em Lisboa. «Quando chegávamos para a apanhar [na escola] já estávamos na fase de termos de ir a correr para casa para ela jantar».

No regresso a Coimbra, uma das vantagens que os filhos da terra regressados da capital reconhecem na cidade é o custo de vida. «Uma creche custa metade em Coimbra. Uma casa custa metade ou um terço em Coimbra do que custa em Lisboa», enumera António Mota. «Em Lisboa, é exponencialmente mais caro e mais difícil manter uma família», conclui.

Na questão da habitação, Fábio Fernandes discorda. O arqueólogo considera que «Coimbra está muito inflacionada», após encontrar valores de construções novas equiparados aos da habitação nas  zonas do Campo Pequeno ou das Laranjeiras, em Lisboa. «É uma coisa que não consigo perceber. E, sejamos francos, Coimbra não é uma cidade que oferece uma realidade cultural e uma realidade de cidade europeia». A aquisição de uma casa é também uma das preocupações para João Fonseca, assinalando que os valores são uma dificuldade «para estudantes ou pessoas que estão a começar a carreira». 

Soluções para a cidade

«Durante muitos anos vi alguma transformação, mas não vi muita evolução. Quando estive em Inglaterra, de um ano para o outro senti que Coimbra tinha começado a evoluir muito mais rápido do que aquilo que tinha evoluído em dez anos», observa João Fonseca. Estas mudanças, verificou-as em questões como a recuperação de casas abandonadas, ruas alcatroadas ou mesmo a abertura do Convento São Francisco. «É mais um passo positivo na cultura e veio abrir muitas portas à cidade». Apesar de considerar que «temos tanto para oferecer», João lamenta que muitas pessoas passem ao lado da cidade sem parar ou permaneçam apenas um dia.

«De 2016 até agora, sentimos uma cidade mais fervilhante, com mais diversidade de ofertas culturais, com actividades muito giras para os miúdos», observa Rita Soares. «Temos muito pouca coisa que digamos: “Precisávamos de estar em Lisboa para fazer isto”», acrescenta António Mota.

«Adoraria que a Câmara Municipal de Coimbra dissesse: “Artistas, arquitectos, designers e músicos, há aqui tantos prédios em condições um bocadinho precárias, mas com a ajuda de todos vamos fazer aqui um grande centro artístico, a uma renda baixa, e vocês podem dinamizar isto” – era espectacular»

Inês Moura

Curiosamente, em relação à vida familiar, é nos programas com as crianças que Mariana Néri sente a maior dificuldade. Diz que em Lisboa e nos arredores «há sempre muitas quintas pedagógicas e muitos teatros infantis» e que, por cá, «sinto que não há muita diversidade ou, se há, não conheço. Pode ser na parte da divulgação que não me está a impactar». 

Também é à divulgação de actividades que Fábio Fernandes aponta o dedo. O arqueólogo entende que as entidades funcionam em nichos e fala de «comunidades herméticas». «Corremos o risco de elas não serem ecléticas o suficientes para cativar a maioria das pessoas». 

Para Inês Moura é urgente dar a conhecer o que Coimbra tem e trabalhar em rede. «Acho que temos imensa coisa que se perde porque as pessoas não conhecem. Os turistas e os locais poderiam ter uma experiência completamente diferente da cidade se uníssemos forças. Falta unir forças, porque há muita gente a fazer coisas, mas acho que ainda falta divulgação». No turismo, Moura argumenta que «não oferecemos coisas suficientes para que as pessoas fiquem mais do que uma tarde na cidade». Na sua opinião, «era preciso organizar as coisas de outra forma e mostrar que há efectivamente instituições em Coimbra que vale a pena conhecer».

Para potenciar o que Coimbra tem, o apelo de Joana Moreira vai no sentido de um maior dinamismo. A jovem acha que faltam locais onde as pessoas «pudessem desenvolver e mostrar tudo aquilo que têm para oferecer». O caminho poderia passar por «mais investimento» e pelo reaproveitamento de edifícios mais esquecidos. «Os tempos mudam, mas sinto um abandono. Sinto que há pouca visão. Acho que há todo um potencial para pessoas empreendedoras, mas não o fazem. Não sei qual o motivo, mas o crescimento de uma cidade não passa só por grandes urbanizações. O que é que isso interessa se depois não damos condições às pessoas de se alocarem aqui?».

O que podemos fazer?

Inês Moura ainda está a tentar perceber onde se encaixa numa cidade em que nota que «há pessoas a quererem fazer coisas» e com «muita garra», mas «o que ainda está a faltar tem muito a ver com o facto de ainda sermos muito precários do ponto de vista artístico. Neste momento, a minha forma de estar em Portugal é de estar a tentar, com toda a força, aguentar-me só através das artes e tive que fazer concessões. Tive de voltar a viver com os meus pais e não foi uma decisão fácil. Tenho 37 anos». 

Quando olha para a cidade e recorda as memórias de infância, Inês sonha com a revitalização da Baixa. «Adoraria que a Câmara Municipal de Coimbra dissesse: “Artistas, arquitectos, designers e músicos, há aqui tantos prédios em condições um bocadinho precárias, mas com a ajuda de todos vamos fazer aqui um grande centro artístico, a uma renda baixa, e vocês podem dinamizar isto” – era espectacular», atira. «Coimbra teria escala para proporcionar um projecto como este.»

No campo da cultura, Joana Moreira admite que há oferta mas também um certo «individualismo» e falta de trabalho em rede. «Sinto que cada um puxa muito por si e, tendo conta o meio pequeno que é, devia haver mais ligação e mais união entre as pessoas». Por isso, e baseada na sua experiência, já pensou na abertura de um espaço em que «trabalhasse com todos os outros» agentes culturais. 

A necessidade de pontos de rede é igualmente o foco de João Fonseca. «Temos a cena musical de Lisboa, do Porto e a de Coimbra, mas não as vemos a fundirem-se muito, a juntarem-se e a trabalharem juntas. Gostaria que existisse uma rede que tivesse a ver com o turismo, com o sector imobiliário e que pudéssemos juntar tudo para realmente melhorar a cultura». Neste olhar de futuro, Fonseca aliava ainda a promoção do comércio local para manter a identidade local. Esta é, no entanto, uma visão a longo prazo: «Gostaria de sair durante uns tempos e voltar. Não consigo estar parado muito tempo e não tem a ver com a cidade, mas comigo».

Para António Mota, é preciso mudar a imagem que considera recorrente de Coimbra, que é a de uma cidade com «uma universidade muito ortodoxa, muito fechada e de uma cidade à imagem da universidade».

No regresso às origens, Fábio Fernandes pretende recuperar a sua marca ByBike, de aluguer de bicicletas e de roteiros turísticos, por entender que «continua a haver interesse». Em 2016, quando lançou a marca, o seu objectivo era mostrar que a cidade «não é só Universidade, o perímetro muralhado ou a Queima das Fitas». A maioria dos clientes era estrangeira, muitas vezes com interesses específicos. «Vinham de França para verem as nossas colónias de cegonhas em postes de eletricidade no Baixo Mondego», conta. A criação das ciclovias na cidade é apontada como um ponto positivo na cidade nos últimos anos, embora Fernandes defenda uma maior articulação entre elas para incrementar o seu uso.

Para melhorar a cidade e a sua oferta, Fábio Fernandes defende ser importante «identificar se existe massa crítica em Coimbra que queira trabalhar a cidade». «É muito bonito termos um Parque Verde, mas se não se criarem dinâmicas dentro desse Parque Verde, esse parque não deixa de ser um espaço ajardinado que durante o Inverno fica cheio de água». Outra aposta, segundo o arqueólogo, devia passar por apostar em festividades como a Romaria do Espírito Santo, em Santo António dos Olivais, porque «são a nossa identidade». 

Mudar a imagem de Coimbra lá fora

Para António Mota, é preciso mudar a imagem que considera recorrente de Coimbra, que é a de uma cidade com «uma universidade muito ortodoxa, muito fechada e de uma cidade à imagem da universidade». «Estamos a mudar para melhor, mas essa imagem não é projectada lá para fora», assinala o gestor industrial. Nesse sentido, Rita Soares destaca o seu papel como jornalista e a sua importância em mostrar a realidade da região Centro.

«Às vezes, há muito aquela ideia de que só nos grandes centros é que o trabalho pode ser interessante e desafiante. Enquanto for possível, da minha parte, vou tentar combatê-la ou, pelo menos, desmistificá-la, porque o país todo, sendo relativamente pequeno, tem uma diversidade muito grande».  Mostrar essa diversidade do país, segundo a jornalista, «é um ganho muito grande e um privilégio, acho que posso dizê-lo, de ver outras realidades, porque continuamos a achar que as coisas estão muito concentradas nos pólos».

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