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Nesta Oficina, reparam-se afectos e afina-se a comunidade

O espaço da Oficina, situado na Baixinha de Coimbra, pretende ser uma plataforma para pessoas e projectos. Mais do que um espaço comercial, é uma associação que quer inspirar um modo de vida social e comunitário, assim como o uso quotidiano da bicicleta.

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Fotografia: Mário Canelas

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Ao caminhar pelas ruelas da Baixinha de Coimbra é que se sente próximo o pulsar medieval da cidade, o sentir do comércio, dos ofícios, das gildas originais; história reconhecível ainda na toponímia. Neste labirinto em que becos se sucedem a ruas que abrem em praças, acumulam-se camadas de gerações, a sedimentação urbana.  A pequena Rua do Almoxarife está cheia de vida, a esplanada duma casa de pasto está a abarrotar com gente a petiscar ou a enxaguar a goela, muitas pessoas a circular para cá e para lá. Uma dezena de velocípedes alinhados na rua anuncia uma casa de bicicletas.  

Numa loja que já acolheu um alfaiate e a uns passos de onde já existiu uma conhecida loja de bicicletas, de Leonel Sereno, representante das bicicletas Celta, criou-se um novo espaço de comércio tradicional que pretende ir muito além da vertente comercial. É a associação Oficina, que, por intermédio da sua presença na Baixa de Coimbra e de várias acções, quer ser catalisadora para o uso da bicicleta e promover a desaceleração como modo de vida, ao mesmo tempo que ajuda a comunidade.

Baixinha

Recebem-nos David Sarmento, João Peralta e Kelvin Monteiro, três dos nove elementos que constituem a associação Oficina. Todos usam a bicicleta diariamente. Criaram a Oficina para estabelecer laços comunitários na Baixa, «vínculos de base afectiva, local e comunitária», como dizem. Estão a «experimentar coisas» desde 2017 e estão neste local há já um ano.

João comenta: «O fortalecimento comunitário é a mais forte arma para te defenderes de ameaças gentrificatórias. Se criarmos algum tipo de laço, será de certeza mais interessante para uma ideia de fortalecimento de comunidade perante ameaças especulativas, do que estar preocupado em criar negócios para pessoas de fora, que não tenham relações com as pessoas daqui, não sabe da vida delas e não quer saber. Essa pessoa, que não tem qualquer tipo de laço com quem cá está, é uma ameaça».

A conversa é constantemente acrescentada por pessoas do bairro que passam e cumprimentam, falam das sortes do dia, em dedos de conversa que tomam o braço.

João retoma: «O que observamos, é que se leva vinte anos de estudo, [depois] trabalho a acelerar e a malta começa a deprimir. Depois é quase obrigado socialmente a fazer família, depois cai ali numa monotonia infinita até ao fim da vida. Nós estamos a tentar não ir por aí e estarmos à vontade para aquilo que queremos fazer. A lógica do comunitário não é tanto o chavão, é mais conhecermos gente e irmos alimentando uma lógica de vida que não é propriamente pré-definida. É impossível não ser agente gentrificador de alguma maneira. Mas se puderes estar aqui e dedicar a tua atenção a quem cá está, dás primazia a isso». «Dás e recebes duma forma mais equilibrada», completa David.

Pretendem trazer à discussão o uso do «pedal quotidiano», falar sobre os problemas desse uso da bicicleta no dia-a-dia e ensaiar soluções. David refere: «Coimbra já teve o Coimbr’a’Pedal, a Massa Crítica, Cicloficina na Casa das Artes. Depois acabou, pessoas emigraram, outros tiveram filhos. A Massa Crítica era incrível, se aquilo tivesse continuado, teria chegado a consequências mais visíveis. Nós queremos mesmo trabalhar estas questões, ao mesmo tempo que queremos chegar mais além. O objectivo tem a ver com a comunidade, já há uma velha relação com a Baixa. Daí o espaço ter esta parte de sala, serve mesmo para juntar pessoas».

A Oficina

O espaço não é muito grande, mas é generoso nas suas funções. Há uma zona de estar na entrada com uma pequena biblioteca que homenageia uma amiga, a Biblioteca Teresa Couceiro, de onde qualquer um pode levar e juntar livros. Ao fundo a oficina propriamente dita, a vertente mecânica da Oficina. Aqui fazem-se reparações e manutenções, vendem-se bicicletas seminovas e usadas. Fazem também alterações personalizadas às bicicletas, com vista a torná-las confortáveis ergonomicamente, adaptando às características de cada pessoa e a custos controlados. «Somos como um alfaiate», diz David. Todo o serviço procura adaptar-se à componente financeira da pessoa.

Alugam também bicicletas num registo de média a longa duração para, como esclarece João: «O aluguer é com o compromisso de colocar bicicletas a circular quotidianamente na rua, confortáveis e com preço acessível».   

Escola de condução de bicicleta

A um dado momento, aperceberam-se de que havia necessidade de ocupação dos tempos livres para as crianças da rua, que são catorze. Criaram então uma escola de condução de bicicleta, em parceria com o serviço educativo do Jazz ao Centro Clube. Chamaram uma psicóloga infantil, uma educadora e fizeram-na durante dois meses, no Verão de 2021, em quatro sessões aos Sábados. O lanche estava incluído, fornecido por padarias e frutarias do bairro.

João vai apontando para várias casas da rua: «Nesta rua temos muitos miúdos, não parece. Vão dos 4 aos 13 anos. Nós pensámos, ‘não estão a brincar aqui, estão em casa’, pensámos em criar a escola, mas não podia ser apenas escola de condução, tinha que ter mais coisas. Surgiu a ideia de aliar a arte, fizemos serigrafia e projecção de vídeo. A ideia da escola não era tanto para ensinar a andar de bicicleta, mas para juntar os miúdos. E foi muito fixe, porque vimos resultados imediatos, começaram logo a falar uns com os outros».


O espaço dá para transformar num pequeno cinema privado, com uma tela na parede do fundo, o mobiliário tem rodas e dá para adaptar em assentos. Afonso apareceu à porta, é uma das crianças que participou na escola. «É quase instrutor, um dos melhores ciclistas que temos aqui na Baixa», apresenta David. Afonso diz que gostou da escola e que talvez queira participar noutra: «Talvez. Mas eu queria era aprender a nadar, porque eu não sei». Esta pode vir a ser uma componente duma futura escola, comentam logo os presentes.

João completa: «Há mais crianças da Baixa que querem [participar]. Algumas mães também queriam aprender. É interessante as famílias cruzarem-se, porque antes não falavam».

Passeio Cheio de Lua

A Oficina organiza mensalmente um passeio de bicicleta por altura da lua cheia, um percurso de curta duração e não muito exigente, que serve para convívio das pessoas próximas à Oficina. Vão até ao Choupal, organizam comes e bebes caseiros, juntam uma dezena a dezena e meia de pessoas. Tudo o que fazem está em construção permanente. E exige também proximidade e relacionamento interpessoal.

«Não temos intenção de publicar [o Passeio], nem de fazer cartazes, não fazemos evento ou anunciamos», explica João. «A ideia é trazer amigos nossos e assim espalhar a palavra. Ou seja, nunca é um contacto por via indirecta ou impessoal. Ninguém é mal vindo, se vieres por bem, na boa. Se quiseres trazer um amigo, ‘bora. Mas tem que haver alguma ligação afectiva, tem que haver laços. Torna tudo mais fácil, é fazer de conta que não há Internet».

Coenços Cimeiros e arquitectura

A Oficina também se expande para outras geografias além da urbana. Numa aldeia serrana a meio caminho entre Ceira e Senhor da Serra, uma aldeia de viveiristas chamada Coenços Cimeiros, estão a recuperar uma casa de xisto que já foi salão de bailes da aldeia e que pertence a um dos elementos da associação.

David explica: «Sempre que há um Passeio de Lua Cheia, vamos no fim-de-semana seguinte para Coenços. A ideia é chamar os amigos para irem para lá, a casa precisa de obras e tem um vale inteiro que queremos cultivar. Temos muita relação com as pessoas da aldeia». David e João são arquitectos e procuram conjugar também essas capacidades ao trabalho da Oficina.


«São as três cenas para te sustentarem, não só financeira, também mentalmente.  Mobilidade pela bicicleta; abrigo pela construção e arquitectura; comida, pela agricultura. E os afectos, que liga isto tudo», enumera João. Esta é uma dicotomia bem equilibrada, entre o rural e o urbano, o bairro e a aldeia, que se resume na génese primordial da vida comunitária entre as pessoas, a base da sociedade.

João continua: «Estamos a pensar num âmbito rural, pedagógico. Nós estamos à procura de fazer obras que são autogeridas, em que toda a gente receba o mesmo e toda a gente participa no desenho. É criar uma relação equitativa, este é o principal ponto. Estamos a pensar constituir-nos em cooperativa de construção civil».

A Oficina da Baixa permaneceria, em Coenços estão a considerar estabelecer uma oficina de madeiras e uma cooperativa de habitação. Ou seja, «propriedade colectiva, mas em que cada um tem o seu espaço», esclarece.

Outras ideias e objectivos

Estamos a fazer um site e aí irão registar alguma actividade e produtos. Estão a desenhar sacos para bicicleta, de viagem, modelo do dia-a-dia, para levar à frente, alforges etc. Estão a fazer protótipos, explicam, «O desenho é partilhado, o tecido é dos Tecidos de Coimbra, impermeável e resistente. E a costura fica a cargo duma comerciante de roupa da Baixa. O dinheiro ganho será feito para fazer os próximos».


Querem também recuperar a escola de condução, também com outras artes aliadas à bicicleta, além da serigrafia, porque as crianças sugeriram música, teatro e dança.

Têm outras ideias, como a de criar um jornal comunitário em mural. Mostraria as histórias das pessoas do bairro, para dar voz aos seus problemas, seria feito da Baixa para a Baixa. Estão também a considerar trazer para Coimbra os Bike Anjo, porque já «vieram umas cinco ou seis pessoas pedir ajuda para andar de bicicleta pelas ruas de Coimbra».

Para concretizar tudo isto, precisam de dinheiro. João explica: «O que temos são recursos humanos, mas precisamos é de dinheiro. Para fixar pessoas aqui [na Baixa, elas] têm que ser pagas, estamos a pensar em financiamentos. Como é que se arranja dinheiro quando não se tem dinheiro? Nós queremos dar resposta [também] a quem precisa de trabalho». Fixar pessoas e dar-lhes sustento. «É um caos», acrescentam, «Às vezes porque é difícil pagar a renda, e não há um valor justo para pagar a quem arranja as bicicletas. Não gostamos que a necessidade financeira ganhasse o espaço todo, mas é importante comunicar que é preciso atender a isso também. Tornarem-se sócios é um contributo muito grande. Se tivermos 10 associados já dá para pagar as contas do mês. O ideal era que a pessoa que passa mais tempo aqui, o David, tivesse remuneração. Queremos que os preços que fazemos sejam mais acessíveis, um pouco abaixo do valor de mercado. O ideal é o valor pagar o serviço e [o cliente] ter a consciência de que o valor que está a pagar está a permitir isto tudo, que é o catalisador de toda a acção da Oficina».

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