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«Com estas ideias a cidade pode ser melhor, mais saudável e dinâmica, até melhor financeiramente»

Falámos com Carlos Pinheiro, urbanista e criador da página Coimbra Futuro Possível, onde ensaia ideias que acredita poderem melhorar a (con)vivência urbana da cidade e alimentar a discussão em torno da qualidade do seu espaço público.

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Fotografia: Mário Canelas

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A paisagem urbana esconde possibilidades, pede o uso de um olhar treinado para lhe revelar qualidades, para lhe desvendar potencial que escapa à visão toldada pelo hábito. O peão parece não estar no topo das prioridades políticas e regulatórias que definem o espaço urbano, daí que surjam e se insurjam cidadãos com ideias que desbravam um futuro possível, como Carlos Pinheiro. Formou-se em Arquitectura e Ordenamento do Território na Escola Universitária Vasco da Gama de Coimbra, com a tese de fim de curso «A Humanização dos Espaços Urbanos», logo demonstrando o seu objectivo de investir nas pessoas e não nos carros, com a expressa vontade de melhorar o espaço urbano. Na página que criou, Coimbra Futuro Possível (CFP), o corolário anuncia logo ao que vem: «Coimbra está refém do automóvel há quase um século».

Desassossego do urbanista

Sem se conseguir desprender do urbanismo e focado actualmente na família (Carlos tem 5 filhos), encontrou na página, uma «forma de colocar cá fora, de partilhar», aquilo que é um exercício de cidadania e que sublinha serem ensaios, «não duma estratégia conjunta, já que faltam os trabalhos técnicos, mas de ideias do possível para a cidade». A sua desilusão com o exercício da arquitectura, ou seja, «aquela imagem romântica do arquitecto, que esculpe um objecto, não existe. O trabalho que temos, em comparação com aquilo que recebemos e aquilo que se sacrifica na família, não vale a pena. Eu gosto mesmo é de urbanismo, atrai-me o funcionar da cidade».

Carlos resume a sua preocupação enquanto pai e urbanista: «A nossa cidade é terrível ao nível da mobilidade e urbanismo. O desconforto urbano que sentimos é de colocar o automóvel acima de tudo, mas também a falta de infraestruturas. Habituamo-nos [a essa falta] e arranjamos desculpas para a alimentar. Por exemplo, o que se passa com as trotinetes. As pessoas estão escandalizadas com as trotinetes serem deixadas por todo o lado, mas não se escandalizam com os carros estacionados em cima dos passeios. Absorvemos a ideia de que é justificável, porque é a vida das pessoas e isso é muito difícil de combater».

Será que o ser pai o ajudou a pensar mais nestas questões? «Não sei, mas creio que não pensava muito nisto antes deles [terem nascido]. Eu gostava que os meus filhos pudessem andar na rua descansados. Acredito que, com estas ideias, a cidade pode ser melhor, mais saudável e dinâmica, até melhor financeiramente. Acho que há muita coisa a fazer».

Urbanismo táctico

O que é que se podia aplicar desde já? Carlos sugere uma primeira acção: «Eu sou defensor de cortar o trânsito nos Hospitais (HUC) e na Universidade de Coimbra. Com excepção de funcionários e estudantes. São instituições que, com mais ou menos rigor, conseguimos saber quantas pessoas se deslocam para ali, são os locais mais fáceis para gerir transportes públicos. É óbvio que tem que se garantir às pessoas que não vão haver falhas [no serviço]».

Nos HUC entrariam veículos urgentes e transportes públicos e de doentes. Os restantes? «Não entram com o carro. Para já, deve ser feita uma campanha agressiva nos centros de saúde. Há uma pessoa que vem a uma consulta, logo na marcação é dito que não terá lugar para estacionar, terá que estacionar noutro local. Depois tem que haver ligações, os autocarros da Ecovia permitiriam isso, podiam ir até à porta das consultas».

Para Carlos também é urgente combater a dispersão territorial: «Não se entende como é que uma cidade destas se espraia por quilómetros desta maneira. Não havia intenção nenhuma do anterior executivo, nem parece haver do actual, de rever o Plano Director Municipal (PDM). Vão continuar a fazer-se mais urbanizações e isso só alimenta que as pessoas continuem a vir de carro. E isso nem para a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) é bom. É pior em termos de infraestruturas, gasta mais dinheiro e os transportes públicos são mais difíceis de fornecer».

Reverter esta dispersão, este sprawl, tomaria décadas, mas Carlos aponta que o primeiro passo é a alteração do PDM. «Não podemos continuar a ter zonas da cidade superdesenvolvidas, onde todos querem vir, e zonas periféricas, onde as pessoas moram porque ali arranjaram casa. Deslocam-se de carro porque não têm outra opção. Eu concordo com a densificação da zona urbana, desta zona interior [da cidade], construir onde ainda há espaço, aumentar o número de casas. Quantas mais casas houver no centro, mais eficiente se torna a cidade e, provavelmente, baixarão os preços da habitação».

Coimbra automobilizada

Carlos ia a pé para a escola, este jornalista ia a pé para a escola. O que é que aconteceu, entretanto, para que se vejam tantas crianças a serem transportadas por automóvel até às escolas? «Mais carros, a velocidade é maior», tenta explicar Carlos. «É a nossa cultura, os pais têm que deixar os meninos à porta da escola. E porquê? Por razões de segurança não é, somos o país continental mais seguro do mundo. Só pode ser por comodidade ou porque não há pedagogia para as crianças começarem desde cedo a andar de transportes públicos. Falta as escolas integrarem-se na comunidade, são ilhas fechadas. Quando é que foi a última campanha dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) nas escolas? Continuo a achar que as crianças são uma mina para mudarmos mentalidades.Tudo isto é uma construção que precisa ser feita, a mobilidade precisa de tocar em muitas coisas».

«A única maneira de fazer com que as pessoas deixem de andar de carro, é dificultar-lhes a vida, não há outra maneira», defende Carlos. E como? «Eliminando estacionamentos e faixas de rodagem, doando-as aos autocarros. É óbvio que não quero uma cidade sem carros, é impossível. Mas tem que haver método, tem que haver redução no seu número».

É fácil arranjar desculpas, remata Carlos, ironizando: «Coimbra é uma cidade com muitas subidas e descidas, não há cultura da bicicleta. A questão do relevo não se coloca em Coimbra. Na nossa vida quotidiana temos entre 20 a 30 sítios em que nos deslocamos regularmente. Se os apontarmos no mapa da cidade, a probabilidade de eu ter todas as deslocações da zona mais baixa para a mais alta da cidade, serão um punhado de pessoas. Quem viva na Solum e que vá à Baixa ou se desloque até ao Bairro Norton de Matos, a inclinação nem se coloca. Mesmo na Alta, o problema só se coloca a subir. O que é necessário é arranjar meios para levar as pessoas até lá, como a ideia dum teleférico da Emídio Navarro até à Alta, falado vezes sem fim e que nunca avançou». Ou o futuro projecto do elevador a ser criado na lateral das Escadas Monumentais.

Bicicleta, futuro possível

Para Carlos é simples, «as bicicletas querem ir para onde os carros vão. Se lhes dermos segurança, elas começam a aparecer. Isso implica uma rede contínua. Quem desenhou as ciclovias em Coimbra claramente não anda de bicicleta, que é uma máquina de movimento linear. Sempre que se interrompe o movimento linear, tem que se recomeçar. Se dissermos que todos os condutores, ao chegar a um semáforo, terão que sair do automóvel e carregar no botão para passar, ninguém levaria isso a sério. Porque é que não é o carro a deixar a bicicleta passar? Se invertermos a prioridade das coisas, haverá mudanças. Mas nós nem nas cores das ciclovias conseguimos concordar (em Coimbra e Aveiro são vermelhas, em Lisboa e Leiria verdes, a Ciclovia do Dão é azul)».

Arranjam-se desculpas enquanto sociedade e quem toma decisões abriga-se nessas desculpas, aponta Carlos. «Aqui diz-se que está a chover, em Copenhaga neva e andam de bicicleta. Com o pouco que se fez, já se nota vontade das pessoas de circular [de bicicleta]. Vêm-se muitas em lazer, algumas em uso funcional. Se se fizer mais, mais se verão. Há estudos que mostram que a cidade paga para as pessoas andarem de carro, paga nos cuidados de saúde, no pavimento das estradas e na qualidade do ar. E que recebe dinheiro, economicamente falando, das pessoas que andam de bicicleta. As infraestruturas de bicicletas são menos dispendiosas, requerem menos manutenção e as pessoas são mais saudáveis. Ou seja, se é assim tão prejudicial o uso do automóvel, então fazia sentido beneficiar uns em detrimento de outros». 

Mobilidade necessária

Na Coimbra Futuro Possível alinham-se as visões de Carlos para a Rua do Brasil, Estrada da Beira ou Largo da Portagem. Mas há muitas outras vias problemáticas. Carlos acrescenta: «Falta estratégia, em Coimbra navega-se à vista. Há imensa inércia na cidade. Criar um espaço estéril, com [apenas] casas e carros não é fazer cidade, e é assim que se faz em Coimbra. O próprio Programa Municipal para as Alterações Climáticas não tem nenhuma meta numérica, tem generalidades. Têm que se estabelecer objectivos concretos e delinear estratégias a partir daí». 

Carlos remata: «Têm que ser feitos compromissos. Compromissos implica dizer que andámos 50 anos a pôr o carro à frente, agora temos 50 anos a pôr o carro para trás. E porque não atribuir um passe às pessoas, logo à partida? Tem que haver coragem partidária e deve haver consenso dos dois maiores partidos, senão volta tudo ao mesmo. Isto não é uma questão de gosto. É uma questão de olhar para a realidade e dizer que assim não dá, não pode haver um carro para cada pessoa, estradas para toda a gente, ruas que não têm sequer passeio. Ouvi vários urbanistas dizerem isto e para mim é o que faz mais sentido. Pergunta-se ‘quantos carros é que cabem nesta estrada?’ e aquilo que se deve perguntar é ‘quantas pessoas é que consigo transportar nesta estrada’, seja em autocarros, carros ou bicicletas, o débito das vias. Continuamos a pensar muito no modo de escoar automóveis e temos que pensar na melhor maneira de transportar pessoas daqui para ali».

«Quando é que foi a última vez que a CMC fez uma alteração profunda numa estrutura viária em prol do peão ou das bicicletas?», questiona. «Não há. As ciclovias estão feitas para gastar o mínimo possível, para poderem dizer que têm o maior número de quilómetros possível. As faixas dedicadas ao autocarro são pouquíssimas em percentagem da rede viária da cidade e os automobilistas usam-nas indevidamente. Se o autocarro demorar o mesmo tempo a chegar, as pessoas continuarão a ir de carro».

Ideias a recuperar, outras a copiar

Comemora-se o Dia Europeu Sem Carros a 22 de Setembro, integrado na Semana Europeia da Mobilidade e que a CMC realizou em 2021 com o fecho ao trânsito da Avenida João das Regras. Espera-se pelo seu retorno este ano. Mas há muitos projectos interessantes que Carlos gostaria de ver aplicados em Coimbra, como os comboios de bicicletas, em prática em Lisboa pelo Programa Municipal de comboios de bicicletas de Lisboa, além de outras iniciativas por parte de escolas. «Daqueles miúdos, haverá um terço a adoptar a bicicleta. Se um terço o fizer, é excelente; metade melhor ainda», acrescenta Carlos. 

Sugere também a aplicação de suportes (racks) nos autocarros dos SMTUC para transporte de bicicletas. Outros projectos que identifica são o Brincar de Rua, que pretende criar condições para que as crianças possam voltar a brincar na rua. Na linha do Brincar de Rua, há também o projecto CRiCity

Já o Urbanismo Táctico, um conceito interventivo que, como explica Carlos, «pode surgir de um movimento de cidadãos que escolhem “combater” a burocracia, a incapacidade política ou apenas a inépcia contextual. Mas também pode ser uma ferramenta para o poder local, promotores ou Organizações Não Governamentais (ONG) para abordarem a população durante as fases de desenvolvimento de ideias ou até na fase inicial da implementação de soluções para testar algo antes de se comprometerem com gastos». Disruptivo e entusiasmante. 

Coimbra Parques

O descontentamento de Carlos Pinheiro com o espaço público de Coimbra, é idêntico àquele que levou uma cidadã a criar a Coimbra Parques no twitter, e com quem já falámos na Coimbra Coolectiva. 

Nessa conta, ela regista a tomada descontrolada da cidade pelo automóvel, com condutores a ocuparem passeios, passadeiras e passagens. Comenta: «O que me choca é que as pessoas não se coloquem no lugar do outro. O outro que anda no passeio e precisa de se desviar; que quer atravessar a passadeira e tem lá um carro; que está num espaço público a brincar com uma criança ou a passear um cão e tem de se afastar para que ninguém se magoe; que leva uma criança no carrinho de bebé, ou se desloca numa cadeira de rodas e tem de circular na estrada por ser impossível andar no passeio». 

Diversos problemas que Carlos já elencou e que resumem hábitos, maus hábitos, já costumeiros. Para Coimbra Parques, choca-a que: «se tenha tornado completamente natural estacionar em cima dos passeios, de passadeiras, de espaços relvados. As pessoas já nem se indignam, desviam-se. Os polícias nem sequer param (quanto mais multar). Para além da falta de respeito directa pelos peões, ainda temos a questão da degradação dos passeios e do espaço público. Outro dos exemplos que mais me choca são as escolas, onde os adultos vão buscar as crianças sem respeito nenhum pelas mesmas. Sem respeito porque lhes roubam o espaço que é delas, sem respeito porque lhes estão a dar o pior exemplo. Acho que a pedagogia só resultará com as crianças. Elas ainda não têm vícios e podem ser mais conscientes. Com muita pena, pela minha experiência, acredito que os adultos só vão mudar de atitude com fiscalização».

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