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Licenciamento dá luta mas há quem escolha Coimbra para dar o pontapé de saída do seu negócio

Filipe Freire é de Cascais e foi aqui que optou por realizar um sonho com potencial para mudar um bairro inteiro: uma academia profissional de Taekwondo Songahm, com forte sentido educativo, pedagógico e comunitário.

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Fotografia: Mário Canelas

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O professor Freire esperava-nos à porta. É assim mesmo que deve ser tratado, com o título, dado o número de Dan. Mas já lá vamos. De camisa bem passada metida por dentro das calças e sapatos calçados, leva-nos até uma mesinha com águas e biscoitos, onde nos convida a sentar para conversar. A sala é espelhada e a maior parte do pavimento é de espuma preta, o tatami, usado para a prática de taekwondo, sistema não agressivo e ético de defesa pessoal. Para treinar, o calçado fica sempre na parte de fora e está tudo muito limpo e arrumado com doboks, matracas e bastões a espreitar das paredes, e algumas fotografias de alunos a praticar.


Filipe (é este o primeiro nome, aqui entre nós) é natural de Cascais. Mudou-se para Coimbra para abrir a Level Up – Academia de Artes Marciais de Coimbra e, quis o destino, que fosse mesmo na Rua O Conimbricense, na Quinta da Portela. Durante a semana, sobretudo ao final da tarde, facilmente demoramos mais uns segundos na vitrine do espaço onde ele e dezenas de praticantes de taekwondo gesticulam e dão pontapés no ar. Foi assim que Freire começou, há 25 anos. Tinha sete e os pais estavam com muita dificuldade em encontrar uma actividade que o motivasse. «Tive a sorte de um amigo ter ido experimentar uma aula e eu ter ido por arrasto. Nunca nos tinha ocorrido. Via desenhos animados e existia aquele imaginário do «Dragon Ball», mas o que me cativou foi a dinâmica das aulas. Eram muito divertidas.»

O professor ajudou. Professor Reyes, brasileiro, «trouxe o Taekwondo Songahm do Brasil para Portugal». Há duas federações nacionais da arte marcial, cujo nome consiste em três palavras chino-coreanas: «tae», que siginifica pontapear ou saltar; «kwon», que siginifica punho ou mão; e «Do», que quer dizer via, resultando numa palavra que pode ser traduzida como «a via das mãos e dos pés». O taekwondo Songham tem uma vertente educacional e pedagógica. A grande motivação para a prática é passar de níveis e chegar ao cinto preto. Freire tinha 14 anos quando isso aconteceu. Os estudos, em Gestão Aeroportuária e Marketing, afastaram-no da arte marcial mas o coração já estava enlaçado. Voltou ao tatami, tornou-se professor assistente e em 2012 o mentor abriu a própria academia, a Jung Jin Artes Marciais, em Oeiras, e convidou-o para trabalhar. 

Convicção

«Foi um momento importantíssimo, já não via a minha vida de outra forma e decidi dedicar-me ao taekwondo a tempo inteiro», conta Freire. Ainda procurou oportunidades na área do Marketing mas não se via a trabalhar numa secretária. «É a ver o projecto do meu professor acontecer e que era possível fazer disto vida a tempo inteiro, construir um percurso profissional, que o sonho começa a surgir.» Foi em 2019 que o professor decidiu abrir a própria academia e, de todas as cidades do país, escolheu fazê-lo em Coimbra.


«Foi o processo mais difícil, mas estava muito claro para mim que queria sair da zona da grande Lisboa e também já havia uma academia no Porto. Queria levar o Taekwondo Songahm para outra cidade e Coimbra ganhou por um conjunto de razões. Gostava de ir para uma cidade mais calma, mais tranquila, em que pudesse fazer as coisas mais rápido. Com a família e muitos colegas e amigos em Lisboa, queria uma cidade que fosse perto.» Começou do zero. Sem contactos, sem rede. Primeiro a análise macro, como perceber as diferentes zonas da cidade, e agentes imobiliários fizeram o resto. «Gostei muito deste bairro, vi que tinha boas oportunidades de arrendamento, o valor ajudou, além de ser um bairro em crescimento», explica. «O nosso objectivo é dar os benefícios das artes marciais a todas as idades e as famílias contam muito nesse sentido. A zona tem muitas e está perto de escolas», continua. 

Confiança

A Level Up começou a ser projectada em Janeiro. Freire fez o pedido de licenciamento à Câmara Municipal de Coimbra mas o processo só arrancou em Agosto, altura em que o professor se mudou para a cidade, até porque começavam também as obras no espaço «em branco» que desenhou de raíz. Só em Fevereiro de 2020 é que obteve a licença de abertura. «O licenciamento é difícil. Foi moroso, cerca de um ano. É muito tempo. É aí que notamos que de câmara para câmara os processos são diferentes. Os tempos são diferentes. Foi um «loop» e, só para dar um exemplo, tive uma colega que, em Oeiras, pediu ao mesmo tempo do que eu e dois meses depois tinha tudo finalizado.»


O lado positivo: houve (muito) tempo para preparar tudo ao pormenor. Até começar a dar aulas e angariar alunos no Pavilhão do União de Coimbra. Muita ansiedade e dores de cabeça depois, a Level Up inaugura no início do ano, mesmo como Filipe sonhou. «Vieram pessoas de Lisboa, o meu professor, foi um evento espectacular e era aquela ânsia, nunca mais inaugurava, nunca mais inaugurava, mas depois dá-se o momento de inaugurar e começam aqui os primeiros treinos.» 

Foram duas semanas de alegria. Mas apenas duas semanas. Em Março, o Estado declara estado de emergência e o país confina, devido à pandemia de Covid-19. «Demorou muito tempo a cair a ficha», comenta o empresário, que, mesmo assim, conseguiu levar para o online cerca de meia dúzia de alunos, mas admite que «não tinha ainda a capacidade de liderança e de antecipação aos desafios e aos problemas», por isso muniu-se da observação dos seus modelos de referência. «Foi muito importante estar perto de outros professores que tinham academias noutros ritmos e níveis, que têm de dar resposta muito em força, porque têm centenas de alunos, e foi seguir e copiar os modelos deles.»

Comunicação

As aulas presenciais da Level Up recomeçaram. Em Fevereiro deste ano, Catarina Nogueira foi uma daquelas pessoas que parou em frente à vitrine da Level Up. Ia a caminho da padaria, perdida nos seus pensamentos e com um gigante nuvem cinzenta em cima da cabeça, quando viu um grupo de crianças a treinar. «Primeiro achei super fofos, com aqueles mini doboks a treinar; depois, como estava consciente de que estava com um grande nível de stress, a segunda coisa que me ocorreu foi praticar artes marciais. Pensei: «É mesmo isto que eu preciso!». Senti uma ligação super forte.» 


Quando regressou da padaria, a aula já tinha terminado e a fundadora e CEO da empresa United Boutiques, que desenvolve sistemas de comércio electrónico, deu literalmente o primeiro passo. Entrou na academia e perguntou ao professor Freire se tinha aulas para adultos. «Ele disse que sim, e eu insisti: “Não, mas, estava a perguntar se tem treinos para adultos que, de um momento para o outro, enlouqueceram e decidiram treinar artes marciais.”» Foi convidada a experimentar e o filho Vasco, de 6 anos, quis acompanhá-la. Hoje, Catarina diz que há um antes e depois do taekwondo na sua vida.

O Taekwondo Songham aprende-se por ciclos e o que Catarina está a aprender agora é o da Comunicação. A praticante explica que na modalidade é tudo muito rigoroso e tudo comunica, desde o olhar e os gestos à apresentação e pequenas acções. Houve duas coisas que a impressionaram na história do professor Freire, por exemplo: «A forma impecável como fez tudo sozinho – porque eu sei como é, também tenho um negócio e há mil coisas -, e o rigor, a dedicação e a disciplina que tem na vida. Acho impressionante o foco deste homem que aos 30 anos mudou de cidade, só porque era aqui que estava a oportunidade e era o sonho dele: viver do taekwondo.»


«O foco aqui não é treinar para a competição; se os alunos um dia se interessarem por isso podem fazê-lo, mas o foco é a caminhada para o cinto preto. Aquela luta com eles próprios, e não com os outros, no sentido de crescerem. Além da defesa, ter confiança para, seja em termos de comunicação, seja em termos de relacionamentos, seja quando precisarem conseguirem impor respeito», explica Filipe Freire. Na dinâmica das aulas, trabalha-se tudo. O pequeno Vasco diz que é «muito fixe» e, além de «fazer pontapés e golpes de punho sem acertar nos pais, só no ar» também aprende «a não empurrar e não bater», a «ter confiança que é preciso gostar primeiro de nós e pensar em nós próprios», bem como «comunicar bem, dizer olá a olhar nos olhos das outras pessoas e não esquecer das outras coisas».

Freire diz que se trata, acima de tudo, de trabalhar o equilíbrio entre a parte física e a parte mental. «Eles acreditarem que vão ser capazes de ultrapassar os desafios, puxarem pelos outros, terem aquela disciplina de concretizarem as coisas até ao fim, não desistirem e, cada uma destas etapas, ser programada.» Hoje com cerca de 80 pessoas a frequentar a academia, a maioria crianças, o professor conta que a mais nova tem apenas três anos e as aulas dessa faixa etária, os Tigers, duram 40 minutos mas a brincadeira faz parte do currículo, como a leitura de livros, interpretação de histórias e jogos adaptados como o «macaquinho coreano». «Só o facto de chegarem aqui e terem a coragem de fazer o treino, e do início ao fim, já é uma vitória.»


Para os adultos também. Catarina confessa que, quando era adolescente, praticava natação e quando o treinador começou a pressioná-la para participar em competições, o medo do fracasso afastou-a da prática desportiva. «Agora que sou adulta e consciente da asneira que fiz tento incutir o contrário no Vasco, digo que não há problema de ir a um torneio e não ganhar nada.» Já a empresária, participou recentemente no primeiro torneio (de taekwondo e da vida). «Não ganhei nada, e fiquei dois ou três dias a remoer, mas sinto que me estou a curar. Enfrentei e até comentei com o professor que o meu maior desafio era ir, não ganhar nada e viver com isso. Só não disse em quanto tempo», atira, a rir-se.


Filipe Freire admite que ainda há estigma de que as artes marciais são coisa«para os rapazes». No entanto, o professor conta-nos que há duas academias de taekwondo dirigidas por mulheres em Portugal e «incríveis atletas» a dar aulas. «É um universo de igualdade de oportunidades, a progressão delas é igual à deles e competem entre si», assegura.

Catarina confirma e Freire conta um episódio, que aconteceu durante uma apresentação numa escola local. «Tinha acabado o desafio de partir a tábua, perguntei se tinha sido uma dor boa, uma menina respondeu que sim e um menino comentou: «Pois, está a doer porque vocês são mais fracas!» Mas recebeu logo a reacção dos colegas. «Isso é machismo, tu não podes dizer isso!» O professor acredita que, a partir do momento em que os alunos vêem que as alunas batem tão forte como eles, tudo passa e quanto mais alunas começarem a ser um exemplo de liderança no tatami, maior continuará a ser a desmistificação.


Ciente do poder do reforço positivo, o professor tem um sistema de atribuição de pequenas fitas coloridas que vai colando nos cintos dos mais novos a cada pequena grande conquista, além de manter correspondência com os pais e com a escola dos alunos, com pequenos pedidos de avaliação comportamental. «Não queremos ter alunos que no treino estão com uma atitude incrível e um óptimo comportamento, mas depois não estão a levar para casa e para a escola o mesmo exemplo», explica o professor. Já sobre os adultos: «o chapéu que posso tirar é chegarem aqui depois de um dia de trabalho com imensas coisas, vida profissional, vida familiar, e concentrarem-se nisto. Deixarem tudo lá fora. É um desafio grande mas faz muita diferença.»

Cinto preto

Quem diria, há uns anos, que Filipe Freire ia estar a dar aulas a professores universitários e empreendedores? Ninguém. Muito menos o próprio. Além das aulas, a Level Up promove eventos como treinos com a família, treinos ao ar livre e até Noites Ninja, em que os pais podem deixar as crianças na academia ao final da tarde e voltar às 23h, para os recuperar de uma noitada de jogos, pizza e um filme. «Eu próprio tenho a oportunidade de me divertir também com eles. Temos de equilibrar desde cedo os momentos mais sérios e mais divertidos», conta o professor.

Rendido a Coimbra, diz que a cidade lhe oferece liberdade. «Gosto muito de explorar as zonas à volta, tenho amigos que vêm visitar-me e que são muito aventureiros. Gosto desta dinâmica de estar numa cidade que é fantástica, onde durante a minha semana consigo fazer tudo rápido, de forma bem eficiente e ao fim‑de‑semana poder optar. Coimbra tem coisas tão boas se quiser cá ficar, ou facilmente posso ir a Lisboa ou ao Porto, por exemplo.»


Freire conta que os alunos também comentam as suas realizações. «Chegam aqui e, assim como com as crianças no final da aula fazemos o paralelismo do treino com a rotina diária, em casa ou na escola, eles contam que experienciam o mesmo e partilham.» Catarina, por exemplo, sente que está mais atlética, mais leve, mais calma e até resolveu um problema de bruxismo. Também usa o taekwondo na educação do Vasco – até para fazer chantagem. «Temos de fazer as coisas à primeira, não é? Vou ter de dizer isso ao Professor Freire? Isso não é uma atitude de cinto preto!»

A brincar, a brincar, o desenvolvimento da auto-confiança, do auto-controlo e da comunicação positiva aplicados em casa e na escola pode mesmo resolver cenários de «bullying». E mais do que isso, Catarina acredita que os ensinamentos do taekwondo podem mesmo influenciar o bairro. «Há muitos alunos [residentes] na Portela e se o professor conseguir incutir neles, desde pequeninos, esta disciplina e responsabilização… Se todas as crianças da Portela foram um Filipe Freire, está tudo bem! Isto vai influenciar muito na educação dos miúdos do bairro, porque há muitos pais que fazem o mesmo que eu. E eu também sinto que tenho uma vida antes e depois do taekwondo.» E remata: «Chegar ao final do dia e dar uns golpes de punho no plastron é maravilhoso! Estar no treino e não pensar e mais nada, além do lado bonito da coreografia, porque o objectivo não é atirar ninguém ao chão.» 

Futuro

«Agora é toda uma nova etapa. A primeira foi ver se era viável, aquele friozinho na barriga, será que é viável, será que vai ter boa aceitação; passada essa fase, é aumentar ao máximo a qualidade do serviço que damos a todos os alunos, há um progresso, porque então a academia cria uma comunidade. Daqui a um ano temos os primeiros cintos pretos da Level Up», atira Filipe Freire. Aliás, Professor Freire, porque subiu ao 5.º Dan (graduação de faixa preta, 10 no total). Os alunos com cintos coloridos tratam-se por senhores/senhoritas e o primeiro nome, os cintos pretos tratam-se por senhores/senhoras e o apelido. Quando atingir o 6.º Dan, Freire passará a mestre. «É uma escada hierárquica que faz parte da estrutura e do respeito que se tenta passar em ambiente de academia da arte marcial», explica.

Antes de nos despedirmos, o professor admite que sente que hoje personifica a tríade evolutiva do taekwondo. «A progressão que tenho a ultrapassar desafios físicos, mentais e sociais é enorme. Se me dissesse há uns anos que ia conseguir abrir uma academia noutra cidade eu dizia que era impossível, impensável. Só que depois temos de dar o primeiro passo. É por isso que celebro cada vez mais a primeira aula deles. Em que eles vêm e passam para o tapete. É uma lição de coragem enorme sair da zona de conforto, experimentar uma coisa nova, estar desconfortável, mas é isso que nos traz crescimento. Obriga-nos a crescer e a evoluir e eu noto isso, que as artes marciais me trouxeram isso tudo.»

Catarina acaba de criar um blogue. Chama-se «A vida é um tatami de Taekwondo» e é feito a quatro mãos. «Vamos ter sempre duas componentes: a vida e o taekwondo. O professor Freire chamou-lhe o yin e o yang. Eu vou escrever sobre a vida e ele sobre o taekwondo. Serão episódios que me aconteceram e que estão relacionados com o ciclo que estamos a viver nessa altura. Já foi a convicção e agora é a comunicação, por exemplo. Nunca sei qual é o próximo», conta a engenheira informática. «Apercebi-me que as pessoas que praticam desde pequeninas não se apercebem que aquelas acções que tomam, tomam-nas porque aprenderam no taekwondo, e que aquelas pessoas que não têm qualquer relação não têm noção da riqueza que é esta arte marcial.» Começa um novo ciclo, uma nova meta. 

Filipe Freire explica que afinal o cinto preto é só o começo. A seguir há competição, a formação, o ser o exemplo ou líder para os outros. E vai sempre haver tábuas para partir. «Não é só a técnica que tem que estar certinha, não é só ter força, é nós acreditarmos em nós próprios e não desistirmos se não conseguirmos partir à primeira. É aquela perseverança e procura de soluções, perceber por que é que não estão a conseguir partir e tentar resolver.» Ver o brilho nos olhos dos alunos, dos mais novos aos mais velhos, é o maior prémio. 

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