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Quem são os refugiados que vivem em Coimbra?

Integração e autonomia são desejos de quem vê Coimbra como um porto seguro, mas ainda vive numa espécie de limbo entre o país de origem e o de acolhimento. Fomos ao primeiro evento municipal organizado com o objectivo de promover «o encontro de diversas nacionalidades», em Coimbra.

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Fotografia: Filipa Queiroz

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Brócolos, quiabos e carne de vaca. Akerleak barra-nos um pouco da saborosa iguaria do Sudão do Sul num pedaço de pão, mas são o carinho e a ajuda das mãos de alguns dos seis filhos com que o preparou em casa, em Coimbra, que lhe dão o verdadeiro sabor. Falamos com ela no Mercado D. Pedro V, na I Mostra Gastronómica – Iguarias da População Migrante, organizada pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC) para assinalar o Dia Mundial do Refugiado, a 20 de Junho. Aconteceu entre as 11h e as 15h, no âmbito do Grupo Trabalho Migrantes da Rede Social, dinamizado pela Divisão de Intervenção e Ação Social (DIAS), e envolveu 20 refugiados na dinamização e confecção de pratos típicos dos seus países de origem.


Akerleak está feliz, mas o olhar não engana. Num português limitado mas bastante claro, conta como foi difícil aprender a língua mas como isso lhe permitiu finalmente sair de casa e começar a integrar-se na comunidade. Explica que quer evoluir e trabalhar. Gostava de costurar, era isso que fazia no Sudão do Sul, que foi forçada a abandonar. Desde que obteve a independência, em 2011, que o país africano tem sido palco de instabilidade constante e uma guerra civil brutal que levou a combates e atrocidades em grande escala cometidas contra civis como massacres étnicos, violações, torturas, assassinatos, recrutamento de crianças e deslocação forçada.

Estimam-se cerca de 400 mil mortos e quatro milhões de deslocados. Do que é que Akerleak precisa? «Tudo», responde por impulso, para depois corrigir e dizer que tem muito carinho por Coimbra, que dá segurança à sua família, apesar de o coração continuar a 5 400 km de distância.


Abdul Alhamad é sírio e chegou há cinco anos a Coimbra. Tinha 19 e para trás também deixou também uma guerra civil, que começou com uma revolta pacífica contra o presidente sírio, há uma década, e já fez mais de meio milhão de mortos, devastou cidades inteiras e arrastou outros países para o conflito.

Abdul está de serviço. Ultrapassada a barreira inicial da língua, começou a ajudar a Cruz Vermelha Portuguesa e é actualmente estagiário como técnico social de nível intermédio dessa mesma instituição. Como entidade responsável pelo acolhimento e integração de refugiados, desde 2015 que a Cruz Vermelha Portuguesa tem vindo a alojar cidadãos requerentes de protecção internacional de várias nacionalidades, apoiando os processos de integração. Um serviço que é prestado no âmbito do Grupo de Trabalho para a Agenda Europeia da Migração, coordenado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e dos Programas de Recolocação e Reinstalação de Refugiados.



«Como refugiado, eu percebo os refugiados e consigo dar uma grande ajuda. Fui uma grande ajuda para a minha chefe e agora sou um membro oficial da equipa, estou a ajudar os refugiados», explica Abdul, visivelmente orgulhoso. À nossa volta, estão famílias ucranianas, afegãs, iraquianas, sudanesas, marroquinas, moçambicanas, brasileiras e russas que interagem entre si. Não apenas movidas pelo estômago, há jogos de tabuleiro e outras actividades apara agilizar um verdadeiro convívio. Ouvimos uma pessoa ensinar outra a dizer faca, garfo e colher em português e em árabe, quando, de repente, uma funcionária das limpezas do mercado pára de varrer o chão e, curiosa, nos pergunta se se trata de um evento de apoio à Ucrânia. «É de apoio a ucranianos mas também a outros refugiados», respondemos.

No Dia Mundial do Refugiado, a Cruz Vermelha apelou à União Europeia (UE) e aos Estados-Membros para tirarem lições positivas da sua resposta à crise na Ucrânia e estenderam a sua solidariedade a todos os requerentes de proteção, independentemente de onde vieram e como viajaram para a Europa. Desde que as tropas russas entraram na Ucrânia, há quase quatro meses, os países europeus viram uma procura extraordinária por protecção, para mais de cinco milhões de pessoas que fugiram do seu país e se encontram deslocadas na UE. 



Os funcionários e voluntários da Cruz Vermelha têm prestado assistência material essencial e apoio especializado em saúde mental e psicossocial, bem como na gestão de pontos de informação, na gestão de abrigos de emergência e na criação de espaços direcionados para crianças, proporcionando um momento de descontração às famílias. «O propósito deste evento, por exemplo, é mostrar a cultura de cada país e permitir que não só a comunidade conhecesse os vários refugiados como eles conhecerem-se entre si, porque alguns moram noutras zonas e é importante fazer esta comunicação», observa Abdul. «É importante forçar um pouco o contacto entre famílias, alguns estão a receber apoios, outros não, alguns estão a ter formações, outros não, estamos a fazer uma média de todos através deste evento», completa.

Ao todo, duas dezenas de entidades participaram neste evento: AMI Porta Amiga Assistência Médica Internacional, Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional –Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação de Coimbra, AKTO, ARS Centro, Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional – ADFP, Cáritas Diocesana de Coimbra, CMC- Departamento de Ação Social e Habitação Social, Centro Distrital de Coimbra – ISS, IP, Centro Local de Apoio ao Imigrante de Coimbra, Centro de Acolhimento João Paulo II, Centro de Formação da Pedrulha, Centro Local de Apoio ao Imigrante de Coimbra, Saúde em Português, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação – Universidade de Coimbra, Faculdade de Economia- Universidade de Coimbra, Departamento de Habitação Social, DGeste, SEF – Delegação de Coimbra, Projeto Mediadores Municipais e Interculturais, Polícia de Segurança Púbica – Comando de Polícia e Instituto do Emprego e Formação Profissional.



Abdul afirma que há refugiados que «não têm apoio suficiente, como outras famílias têm» e quer «ver os buracos que as outras instituições estão a deixar». Tradutor de língua árabe, fala num português quase perfeito e repete muitas vezes expressões como «o meu papel» e «o meu dever». Assegura que a comunidade coimbrã não é fechada e é tolerante, mas por vezes pouca curiosa e com algum preconceito, sobretudo quando o assunto é habitação.

«O maior obstáculo dos refugiados agora é encontrar habitação acessível, estamos sempre a procurar casas para arrendar para eles mas não é fácil. Algumas pessoas não aceitam arrendar a não portugueses. Alguns refugiados não deixam a casa arrumada, mas não são todas as famílias iguais, muitas são limpas, fazem limpeza, e nós garantimos isso. Nós somos a retaguarda das famílias e damos a garantia de que, se fazem algo de mal, estamos ali para cobrir. Mesmo assim, estamos a encontrar dificuldades. Continuamos a lutar por isto.» Ainda assim, há vitórias. Recentemente a Delegação da Cruz Vermelha Portuguesa em Coimbra, com a ajuda do Projeto Ser Ninho e uma família local, fizeram a diferença na vida da família de Massouda Hedayat.



Abdul Alhamad vive num apartamento com sete assoalhadas que hoje está ocupado por jovens refugiados de países como Iraque e o Afeganistão. «A minha senhoria deixou-me ficar sozinho na casa, quis deixar alguém responsável que a limpa sempre e quando entrei na casa senti-me responsável», conta o técnico da Cruz Vermelha que, aos poucos, foi convencendo a senhoria a alugar quartos a outros refugiados e agora a casa está toda arrendada e há uma forte divisão de tarefas e espírito colaborativo. «Recebi com muita honra a nacionalidade portuguesa e isso não significa que me afaste dos refugiados, que não continue a ser um deles. Quero sentir que estão apoiados, não quero que sintam que não têm ninguém. Falar é fácil, difícil é fazer. Há um termo que em português é: «falar não coze arroz».



Segundo a Cruz Vermelha Portuguesa, as «acções ousadas da UE e dos Estados-Membros para apoiar as pessoas que fogem da Ucrânia mostraram o que é possível quando a humanidade é colocada no centro da resposta. Devem estabelecer o padrão para desenvolver abordagens mais inclusivas que garantam a dignidade de todas as pessoas que procuram proteção na UE. O apoio oferecido às pessoas deslocadas não pode depender de onde elas vêm, nem de como e quando chegam à Europa. As discussões em curso, em torno do novo Pacto sobre Migração e Asilo, oferecem uma oportunidade para desenvolver a resposta da Ucrânia e comprometer-se com o valor universal da solidariedade.»

A instituição humanitária não-governamental de caráter voluntário e sem fins lucrativos, cuja delegação em Coimbra foi constituída em 1954, defende que «é importante ressaltar que a nova abordagem da UE em relação à migração deva defender o direito à proteção internacional, investir em instalações de acolhimento humanitário e estabelecer programas abrangentes de integração».


A CMC garante que tem desenvolvido um trabalho de proximidade e de acompanhamento aos migrantes e refugiados ucranianos que têm chegado ao concelho. No início de Março, criou um banco de famílias para os acolher. De acordo com a Divisão de Intervenção e Acção Social, até à data chegaram aos serviços 48 famílias para acolher, num total de 120 pessoas e foram acolhidas pela autarquia, junto de famílias particulares e segundas residências, 33 agregados familiares.

O Centro de Saúde Militar de Coimbra, instalado no antigo Hospital Militar de Coimbra, tornou-se no Centro de Acolhimento de Refugiados de Coimbra, com capacidade para receber 40 pessoas, que depois são encaminhados para as famílias inscritas no banco ou encontram respostas habitacionais alternativas à disponibilizada pela autarquia. Neste momento, encontram-se lá três famílias para acolher que, por razões de saúde e falta de autonomia, ainda não reúnem condições para integrar uma solução habitacional. Doze das 48 famílias acabaram por conseguir respostas habitacionais alternativas à disponibilizada pela autarquia.

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