«Estágios» para adultos estão a ajudar mulheres a regressar ao mercado de trabalho

A Covid impôs uma pausa de vários anos em milhões de currículos. Agora algumas empresas estão a oferecer apoio no caminho de volta.

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Fotografia: Unsplash, Shereen Peeroo Finney

Depois de uma pausa de 10 anos na carreira para tomar conta das suas duas filhas pequenas, Rachael Grieve recorda-se de como o regresso ao mercado de trabalho em 2019 foi desesperante. O enorme período em branco no seu currículo permitia-lhe poucas oportunidades que se adequassem ao seu horário ideal e experiência. Depois de uma entrevista falhada para um cargo de manager de escritório, ficou desanimada. «Fui para casa e desatei a chorar. Pensei “pronto, acabou-se”» diz Grieve, que vive em Londres. «Senti que todas estas portas estavam fechadas.»

«Ainda me lembro do desespero e medo, sobretudo depois de entrevistas que destroem a tua confiança como se nada fosse, o que foi também humilhante. Dás por ti presa sem rumo.»

Rachael Grieve

Pouco depois disso, uma conversa casual com uma pessoa amiga que ainda trabalhava no seu antigo local de trabalho, o grupo de serviços financeiros Nomura, levou Grieve a voltar, e, depois, a montar o programa da empresa intitulado Returners (Regressadas) em 2019. Aberto a pessoas com pausas na carreira de 18 meses ou mais, este programa oferece 12 semanas de iniciação, formação e coaching, depois das quais se pode concorrer a cargos na empresa. Nove em cada dez das pessoas regressadas que passaram pelo programa estão agora a trabalhar lá a tempo inteiro.

A iniciativa faz parte dos planos da Nomura para aumentar a representação feminina num sector que é conhecido por ser dominado por homens. A Nomura, num comunicado, nota que atingiram a percentagem de 31% de trabalhadoras femininas dos 33% que pretendem alcançar, sendo que 14% destas trabalham num nível sénior, ponto em que que o objectivo é de 19%.

Programas de regresso como o da Nomura podem ajudar a combater o abandono desproporcional da força de trabalho por mulheres durante a pandemia, ocorrido porque as mulheres assumiram geralmente a posição de cuidadoras durante os encerramentos de escolas e creches. Até Fevereiro de 2021, as mulheres que deixaram os seus empregos representavam a maioria da diminuição da participação na força de trabalho nos EUA. Menos mulheres no trabalho também tem um impacto negativo na diferença salarial de género, que é de cerca de 15% nos EUA. A Harvard Business Review descreveu os programas de regresso, a que chamou «returnships» («regrestágios»), como uma das melhores formas para colocar mulheres de novo no mercado de trabalho.

Resolver o problema da igualdade de género não é fácil, admite Grieve, que é agora a Directora Mundial da Formação e Desenvolvimento para a Tecnologia da Nomura. Por isso é que sente que é tão importante orientar este programa até que se torne uma parte normal da estratégia da Nomura para a diversidade, igualdade e inclusão.

«O nosso Diretor de Informática apoiou a 100% desde o dia um», diz Grieve. «Ter esta plataforma e apoio fez toda a diferença. Também me certifiquei que todos os managers seniores percebem o calibre das pessoas que temos no programa.» 

Uma dessas candidatas foi Shereen Peeroo Finney, uma arquitecta de cibersegurança que vive em Londres e que se juntou à Nomura em 2019 depois de tirar dois anos do trabalho para repensar a sua carreira. Embora já tivesse adquirido novas competências através de formação, havia perdido a confiança. Mas o apoio dado num programa tão estruturante, que inclui aconselhamento sobre o currículo, prática de entrevistas, mentoria externa, plano a 90 dias e ainda uma comunidade com que estabelecer vínculos, faz a diferença entre ser bem-sucedida ou ter dificuldades no regresso, diz Peeroo Finney.  «O apoio extra põe-te a par muito mais rapidamente.» 

Shereen Peeroo Finney

Adaptar tanto o recrutamento como o programa de admissão para acomodar e até abraçar pausas na carreira — tradicionalmente vistas pelas entidades empregadoras como uma falha e não um sinal de um equilíbrio saudável entre vida pessoal e profissional — deu a Zandra Otubamowo o estímulo de que precisava. O espaço em branco de quatro anos no seu currículo para tomar conta dos seus dois filhos pequenos levou a uma série de rejeições e fê-la acreditar, quando começou à procura de trabalho em 2020, que teria de recuar na sua carreira para começar de novo.

Como Grieve, uma pessoa amiga falou a Otubamowo do Programa de Regresso ao Trabalho da Meta, anteriormente conhecida como Facebook. O programa foi lançado em 2018 para oferecer seis meses de formação e mentoria a pessoas que tenham estado em pausa do trabalho por pelo menos dois anos. Em caso de sucesso, o programa podia levar a um trabalho a tempo-inteiro.

Como a Nomura, a Meta espera que esta iniciativa contribua para o seu objetivo de duplicar, até 2026, o número global de trabalhadoras femininas — actualmente, 36,7% das 118 000 pessoas que trabalham na Meta são mulheres.

Otubamowo, residente em Washington, conseguiu um lugar no programa da Meta e, em Setembro de 2020, conseguiu um cargo como manager de programação técnica.

«O apoio do programa é como se nos pusessem numa bolha para nos proteger, o que não encontras quando entras normalmente», diz. «Desde o manager passando pelo mentor e colega, foram muitas as pessoas a trabalhar para que eu fosse bem-sucedida. Estás a entrar num espaço onde as coisas acontecem muito rápido, mas no programa as pessoas ajudam-te a ter o teu ritmo». 

«Acho que não tinha sobrevivido doutra maneira», continua Otubamowo. «Para mim, fez toda a diferença na transição suave de regresso ao local de trabalho. Precisamos que mais mulheres se sintam confortáveis em regressar ao mercado de trabalho sem que sintam que têm de aceitar uma redução salarial ou ficar para trás — têm de acreditar que lhes será dado o que merecem.»

Artigo originalmente escrito em inglês publicado em ‘Internships’ for Adults Are Helping Women Rejoin the Workforce e aqui traduzido por Ana Sousa Amorim. Este é um artigo da Solutions Journalism Network da qual a Coimbra Coolectiva faz parte.