Vânia Gala: «Precisamos de uma Ecologia das Artes»

Em Portugal por uma temporada e já regressada ao Reino Unido, onde ensina numa das maiores academias de dança do mundo, a coreógrafa e investigadora defende que urge pensar no que é a cultura hoje e como pensá-la de forma sustentável.

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Fotografia: Mário Canelas, Centro de Investigação Artística



Fez saber na sua intervenção no debate público «Coimbra não será Capital Europeia da Cultura. E agora?» que, em Coimbra, «há cada vez menos pessoas e menos artistas novos» e a ideia de cultura, tal como a nível nacional, é de consumo, por isso «precisamos de uma ecologia das artes». De origem portuguesa e angolana, a investigadora Vânia Gala cresceu em Coimbra e reside no Reino Unido, onde é directora interina do bachelerato em Prática de Performance Contemporânea BA(Hons) no Royal Conservatoire of Scotland, professora no mestrado em coreografia Conservatório de Música e Dança Trinity Laban e técnica release e coreografia nas Universidades de Kingston e Northampton.

Defensora da comunidade como principal (mas muitas vezes ignorado) agente cultural, a coreógrafa garante que «há ideias de cultura em que as cidades são uma fábrica de ideias e os artistas questionam sobre urbanismo, hortas comunitárias, periferias, estratégias de acessibilidade, engajamento de periferias e com comunidades negras, com comunidades migrantes ou LGBT».


Doutorada pela universidade de Kingston e especializada na intersecção de estudos críticos de dança, filosofia performativa e práticas experimentais na dança, teatro e performance de artes visuais, em 2021, Gala foi convidada a ser membro do DgArtes – Conselho de Financiamento das Artes do Ministério da Cultura Português. Habituada a lidar com alunos de todos os continentes, a artista que começou a dançar no Centro Norton de Matos aos 5 anos, continuou o percurso artístico no CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra e na Rádio Universidade de Coimbra ao mesmo tempo que fazia a licenciatura em Economia mas acabou por avançar mesmo para a carreira artística fora de Coimbra a começar pelo Curso de Dança para as Comunidades, do Fórum Dança, em Lisboa, fala na importância de escutar os outros, perceber os interesses de quem vive em 2022 e pensar na cultura em termos de sustentabilidade e futuridade.

Filipa Queiroz: Defende uma Ecologia das Artes. O que é?

Vânia Gala: É quase como um organismo dentro de uma cidade, tem a ver com a forma como os artistas circulam, quem são as pessoas que os apoiam, como pões os artistas em contacto com o público e não estou a falar só do contacto ao nível de os pôr a ir ver espectáculos é fazermos isto que estamos aqui a fazer – conversar, entrar num diálogo – tu perguntares-me o que é que eu fiz e eu falar da escola que frequentei e da professora que tive. Essas pessoas são importantes, as professoras de dança inseridas na comunidade – são importantes. Estes diálogos e trocas são vitais.

FQ: A educação artística é importante?

VG: Sim. Mas, como um dia disse, interessam-me menos as crianças e focar-me-ia mais naquela faixa em que as pessoas se vão embora e desistem de estar nas artes, a partir dos 13 até aos 18, e por aí acima. No caso da dança em particular, se não houver acesso a aulas regulares de dança contemporânea, uma pessoa que tenha 15 anos e queira seguir dança contemporânea, e não tenha aulas para se preparar, tem de ir para outro sítio ou desiste. É a situação que temos hoje em Coimbra e quando digo nesta área digo noutras também. Na área das artes plásticas, museologia, não há um grande número de actividades que as possam interessar e que possam fazer nem dentro nem fora do espaço curricular estatal. Tudo isso faz, para mim, também parte da programação do que é uma Ecologia das Artes.

FQ: No debate disse que não conhecia artistas novos em Coimbra, é verdade?

VG: Sim, eu sou de Coimbra, sou artista e não conheci um único artista novo nos últimos três anos. Não tenho informação e para arranjar essa informação é difícil. Se for comprador de obras de arte também, onde vou? Estou a falar de acessibilidade à arte, aos artistas. Não posso dizer que é um problema de Coimbra apenas, não tenho estudos comparativos – talvez eles nem sequer existam, era uma coisa interessante de apurar – mas, da minha leitura dos projectos e candidaturas a Capitais Europeias de Cultura, por exemplo, penso que não há uma ideia de que existem ideias e abordagens diferentes daquilo que é a cultura. Não há uma ideia de pensarmos e reflectirmos que cultura é que queremos.

«Ensinar é também cuidar, é preparar os alunos para o mundo. E não é o mundo de 2022. Eu estou a preparar alunos para o mundo de 2032, de 2042. Tenho de pensar em futuridade, até em coisas que não sabemos. Aqui o pensamento da cultura é uno, sem pensamento de que cultura queremos e de consumo.»

Vânia Gala

FQ: Como é que devemos pensar a cultura?

VG: A ideia geral dominante em Portugal e em Coimbra é a do artista autónomo, independente do público, do sítio onde está, não tem ligação nenhuma, a sua arte vem do vácuo, é abstracta e nada tem a ver com o real. Isto é uma ideia da modernidade do início do século XX, baseada na ideia da autonomia da arte. Ora, estamos em 2022. Há uma multiplicidade de ideias de cultura que têm em conta os limites desta ideia da autonomia da arte. Estamos a falar de um tempo em que temos discursos de género, pensamento de colonial, ideias de sustentabilidade climática e mesmo das artes e sua comunidade. Eu não posso falar com os meus alunos sem fazer apontamentos em relação a esses discursos, seria impossível, da mesma forma penso que seria impossível fazer uma Capital da Cultura sem ter em conta alguns destes aspectos. Seria impensável eu contratar só homens para dar aulas no meu instituto, por exemplo.

FQ: A que se refere quando fala em acessibilidade?

VG: Uma das coisas que me chocou e continua a chocar em Portugal é haver festivais e eventos sem transportes públicos e com apoio do Estado. E vivo num sítio, o Reino Unido, profundamente neo-liberal em termos artísticos. E lembro-me de ficar chocada em 1999, quando voltei para Portugal e encontrar actividades sem as condições minímas de acessibilidade em termos de transporte. E continuam a existir. Mas acessibilidade é também pensar e programar pensando nas pessoas idosas ou pessoas com deficiência ou incapacidade de Coimbra e do país.

Não se pensa na cultura para a comunidade, pensa-se em comprar mil ou 10 mil criações. E isso evidencia-se no projecto que eu li [para a candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura] que é de uma cidade fantasma, que não tem pessoas e muito menos artistas. Há um texto lindíssimo, «Profanações» do filósofo italiano Giorgio Agamben, que é sobre a «cidade museu», que é uma cidade morta. Vamos visitá-la não por causa das pessoas mas por causa dos museus que lá estão, está ligado também ao manifesto futurista que diz que as coisas vão para o museu quando já estão mortas. A generalidade do projecto para a Capital da Cultura de Coimbra que eu li tem muito a ver com essa ideia, que não tem nada a ver com a comunidade viva da cidade.

Quando falo em comunidade falo em pensar na cidade como um organismo vivo que é feito de pessoas, que algumas são artistas, outras trabalham com cultura mas não são artistas e outras não são artistas mas cidadãos activos da cidade. Há cultura que não é arte. Comer também é cultura. Cultura é uma coisa muito maior do que a arte. Portugal continua a ser muito pouco democrático no acesso á cultura e em tudo. Não é só fazermos eventos e convidarmos as pessoas, é pensarmos na disposição das mesas,
pensarmos em quem convidamos, quanto tempo é que elas têm para falarem, participar e se
não quiserem falar observarem o silêncio, por exemplo.



FQ: O que se pode fazer para uma cidade como Coimbra reter o seu talento?

VG: Quando voltei, em 2005, fui conhecer todos os programadores que existiam no país, em Trás-os-Montes, na Guarda, e lembro-me de me encontrar com um de Lisboa que me disse que eu não podia ser programada no teatro dele porque eu não era de Lisboa. Acho que é um aspecto muito interessante. É uma pessoa bastante querida dos meios portugueses e que me disse que eu devia mudar-me para Lisboa, mas nunca se perguntou quem ia pagar o meu apartamento em Lisboa ou assegurar a minha carreira durante 10 anos. Isto mostra uma certa ideia de cultura e uma das razões por que provavelmente não há retenção de artistas fora dos grandes centros – Lisboa e Porto. Não existe capacidade de os manter, nem eles de se manterem financeiramente nesses locais. Não é benéfico para eles ficarem numa cidade como Coimbra, por exemplo.

Estudos do Conselho das Artes inglês apontaram o caminho para novas leis que se chamam leveling up e que têm a ver com zonas do país com pouco acesso à cultura e às artes, que passam a ser beneficiárias de apoio. Cerca de 40% dos artistas no Reino Unido estão localizados em Londres e eu acho que em Portugal esse número é bastante mais elevado. Não sei se existem estudos mas penso que será mais de 60% dos artistas em Lisboa e isso revela que não conseguimos retê-los nas várias regiões. Desde que conheço os apoios às artes que existem várias medidas para tentar fazer o acesso à cultura noutras regiões mas, o facto é que essas medidas falharam. Esta não retenção intensificou-se e vemos regiões em que os artistas locais são pouco presentes. Normalmente sou avaliada pelos meus alunos e por outras pessoas, e avalio outras pessoas, damos feedback e depois a própria pessoa responde, reflecte sobre o que falhou, pensa-se noutras medidas, não se continua a fazer o mesmo. Este aspecto de avaliação, de propor outras medidas e de responsabilização não parece estar a
ocorrer, penso ser desastroso para Portugal.


FQ: Falta avaliação às instituições e métricas para analisar os resultados e repensar a forma de fazer e apoiar a cultura?

VG: Parece-me óbvio. Não é tanto pensar na falha, mas identificar o que falhou, como falhou, por que falhou e que perguntas deviam estar a ser feitas para se alcançarem os objectivos. Não sei que projectos de investigações têm sido feitas sobre a cultura. No Reino Unido sabemos quais são as percentagens de artistas, as percentagens de artistas negros, as percentagens de artistas transgénero, as percentagens de artistas mulheres, as diferenças de salários entre mulheres e homens, tudo isso tem de fazer parte da forma como se ensina.

Porque ensinar é também cuidar, é preparar os alunos para o mundo. E não é só o mundo de 2022. Eu estou a preparar alunos para o mundo de 2032, de 2042. Tenho de pensar em futuridade, i.e. ter espaço até para coisas que não sabemos hoje no presente. Em Portugal, sinto que muitas vezes o pensamento da cultura é uno, sem pensamento de que cultura queremos e orientado para compra e de consumo (número de eventos realizados, número de espectáculos comprados). Temos cada vez mais pessoas a fazer investigação, por que não essa reflexão ser feita na investigação. Começarmos a fazer abordagens diferentes e incentivarmos as pessoas a fazerem abordagens diferentes, aliás, o vosso projecto é um exemplo disso.

«O vosso debate – «Coimbra não será Capital Europeia da Cultura. E agora?» – só validou o que já pensava, que a ideia de cultura desta organização não pensa a cidade como comunidade, nem pensa uma capital da cultura como um sítio generativo de uma ecologia das artes para a cidade e para uma futuridade diferente, que é pensar em todas as comunidades que fazem parte de Coimbra.»

FQ: Como chamar as camadas mais jovens?

VG: O país inteiro tem pessoas mais educadas do que há 20, mas isso não se expressa em termos de hábitos culturais. É uma questão sobre a qual é urgente reflectir. Lembro-me perfeitamente do professor Manuel Portela, enquanto director do TAGV (Teatro Académico Gil Vicente) me dizer: “Os alunos estão todos aqui fora, mas o que é que é preciso fazer, oferecer-lhes hambúrgueres para irem lá para dentro?”. Se calhar sim, é a minha resposta. É preciso escutar a comunidade. A comunidade que vive hoje, em 2022, que tem os seus interesses, que tem a sua vida, as suas sensibilidades. O [museu] Tate Modern tem um programa chamado Tate Exchange que convida várias populações – bairros menos
afluentes, comunidades sul asiáticas, comunidades negras, de mulheres com filhos de famílias
monoparentais – para programarem no museu.

FQ: Aqui em Coimbra o Teatrão está a fazer isso.

VG: Acho que isto tem de ser feito a um nível micro e macro. A Direcção-Geral das Artes e uma série de outras estruturas que dão financiamento ao país, o país deve pensar que cultura é que as pessoas querem e ouvir os participantes. Por que é que não vão? Porque se calhar não se identificam com o que está a ser mostrado, não tem nada a ver com as vidas delas. Até pode ser muito interessante a Maria (nome ficcional) fazer um projecto sobre ela, que vive em Coimbra e é filha de um médico, e é casada e tem as suas dúvidas pequeno-burguesas, mas se calhar metade da população aqui de Coimbra não se identifica com isso. Há milhares de mulheres que não são casadas e não têm filhos. Essas mulheres têm acesso a alguma programação pensada para elas? Há milhares de idosos sozinhos que não têm programação adaptada para eles. A maior parte das coisas que vejo não tem pensamento nenhum de acessibilidade em nenhum aspecto.


FQ: O júri apontou como um dos problemas a falta de diversidade da constituição do Grupo de Trabalho da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura, o que comenta em relação a isso?

VG: Fiquei chocada com a constituição do Grupo de Trabalho. Ela está em dissonância com as
problemáticas actuais e o foco da ideia de cultura, dificilmente seria aceite na Europa. Se eu apresentasse uma equipa assim para dar um bacharelato ela seria recusada. Não há um debate sobre estas problemáticas e sobre o que é que isso quer dizer, ou porque é que nas estratégias culturais Europeias se fala sobre estes temas. No Reino Unido a disparidade salarial entre as mulheres e os homens nas artes enorme. Só isso deveria fazer as pessoas pensar. Qualquer pessoa que esteja nas artes e que esteja inserida nos debates de hoje das artes estará a par destas temáticas. B, basta olhar para dois eventos de 2022, a Bienal de Veneza e a documenta, para se perceber o que é que se está a debater nas artes hoje (vários apagamentos nomeadamente o apagamento das mulheres nas artes, questões de género e decolonialidade).

FQ: Cecilia Alemani foi a primeira mulher italiana à frente de uma Bienal de Veneza em quase 130 anos de mostra e a esmagadora maioria dos mais de 200 artistas eram mulheres ou não binários.

VG: Porque está a haver imenso debate à volta das questões de género e de feminismo. Chegou-se à conclusão de que a maioria das colecções dos museus não tem mulheres. Em Portugal, continuam a apresentar-se exposições e colecções só com homens e ninguém pergunta o que é que isso quer dizer e o que é que isso faz. O apagamento de mulheres artistas que continua em efeito nos dias de hoje.

A mesma coisa quando fazemos uma Candidatura a Capital Europeia da Cultura quase sem mulheres e sem uma pessoa mais nova do que eu. Como é que é possível? As pessoas dizem que há muitos artistas mas se não os mostram, eu, que até sou artista, não vou saber. E se eu não sei, a população geral desta cidade não vai saber quem eles são. E se os artistas não são conhecidos não são apreciados. E se não são apreciados, também é provável que não queiram ficar cá. E o papel de um programador não é só ir às compras (comprar criações ou uma companhia de dança). É saber o sítio onde se insere e quais os termos de relação estabelecidos para que as actividades que desenha possam ser verdadeiramente generativas (criar valor, valor para as vidas das pessoas, da cidade, e mesmo valor económico) para a cidade. A perda de população jovem em Coimbra devia manifestar-se na programação e nos própriaos obras dos artistas, por exemplo. Aqui penso onde está a programação e a acessibilidade para ¼ da população de Coimbra que é idosa?

FQ: Voltamos à Ecologia das Artes.

VG: Sim, saber quem são, onde estão, fazermos uma reflexão interseccional. Quantas são mulheres? Quanto ganham? Quantas têm dificuldade em fazer o seu trabalho? Quantas têm estúdio? Temos um evento excepcional como a Bienal [de Arte Contemporânea de Coimbra], temos uma colecção de arte do Estado [no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra], somos uma das únicas cidades que têm essa colecção do estado, quantas pessoas a vão visitar? Que eventos temos para dar acessibilidade às pessoas para a visitarem? Que eventos temos para o público em geral conhecer os artistas da cidade? Como construímos esse evento de pertença?

FQ: Também há a questão da formação, numa cidade com tanta produção cultural, não podia haver mais ensino artístico, a nível superior?

VG: Isso depende das instituições de ensino superior. E aqui também que tipo formação e para
formar quem e o sobre o quê? É um aspecto muito importante. Vou começar a dirigir um programa em Glasgow, no Royal Conservatoire of Scotland, que é uma cidade interessante porque é considerado um sítio com uma ecologia das artes muito emaranhada. Artistas que estão a fazer bacharelatos vão fazer espectáculos ou coisas nas galerias, há uma grande troca entre alunos, instituições que programam a nível de topo com profissionais muito experientes, e isto vem da Capital Europeia da Cultura que Glasgow foi há muitos anos. É uma cidade com capital cultural, também tem uma universidade muito antiga, um Botânico com centenas de anos, e rejuvenesceu-se com essa capital, mas tem a ver com esse pensamento de as instituições se emaranharem, numa rede que não é geométrica, é uma rede que também tem confusão e espaço para emaranhados que são diferentes. Esse emaranhado é que faz com que uma cidade seja um organismo vivo.

FQ: Tem ideia de mais soluções para isso acontecer?

VG: Eu adoro ir para o Parque Verde. Lembro-me de ele não existir, lembro-me da sua construção, e quando vou e o vejo cheio de actividades completamente diferentes, pessoas a jogar jogos, a dançar, a comer, com as crianças, há uma cidade viva. Vejo-a aí todos os dias. Por que é que ela não é ouvida? E por que é que ela não está ligada às artes? Acho que as instituições da cidade deviam reflectir por que é que as pessoas preferem estar ali. O que é que esse parque lhes dá. Não tens aquele número de pessoas no Botânico. Tem também a ver com a forma como ele está desenhado. É a questão que o professor Portela me colocou, se calhar sim, tens de levar hambúrgueres. Por que não (de forma metafórica)? Aqui o que quero dizer é oferecer outras experiências que as pessoas possam estar à procura artisticamente e que não são apenas ópticas.

Uma vez vi na ponte Pedro e Inês duas miúdas com 12 ou 13 anos e os cabelos soltos, lindíssimas, a andar de skate, e pensei: o Grupo de Trabalho falou com os skaters, por exemplo? Também fazem parte da cultura de Coimbra. Todos nós temos saber, essa é a primeira regra. E normalmente as pessoas não partem desse princípio. Pressupõem uma construção de cima para baixo e não de baixo para cima, bottom-up. Vejo isso nalguns projectos que estão a ser feitos de educação também. Os artistas e instituições artísticas de fora de Lisboa e do Porto têm algum saber? Se têm, porque é que ele não é ensinado, trocado? Se não têm, se calhar temos de fazer alguma coisa. Por que é que têm de ser as pessoas de Lisboa a vir ensinar as pessoas de outras localidades? Penso que isto é uma questão bastante pertinente. Tem a ver com as pessoas questionarem o seu próprio lugar de poder, de saber. Provavelmente as entidades artísticas de Coimbra têm um saber particular e único sobre esta cidade do que outras pessoas, provavelmente as mulheres têm saber sobre o que é ser mulher, provavelmente as pessoas negras têm alguma saber sobre o que é ser negro em Portugal. Eu, se fizesse algum projecto com elas, perguntar-me-ia por que o estou a fazer e como o construir, tudo isto são princípios a serem pensados. Não é só pensar nos assuntos, é como pensar neles e como os abordamos.

«O que me preocupa mais é que se não pensarmos dessa forma a cultura, que pode ser um espaço para unir as pessoas, pessoas que não se encontrariam de outra forma, é um espaço de divisão, financiado pelo Estado. E isso é uma coisa muito triste para mim.»

FQ: Foi preciso sair de Portugal para ter essa visão?

VG: Ir para fora não significa ficar. Eu voltei para Portugal em 2006 e fui-me embora porque não havia condições para viver aqui. Estou totalmente aberta para vir trabalhar para Portugal, mas só se me oferecerem as condições para a idade que tenho e o currículo que tenho. As razões porque saí continuam a existir. Não sou branca, por exemplo. Toda a história da dança ou da performance em Portugal, para além de não ter mulheres, não tem corpos negros ou não brancos. Se calhar tem a ver com isso. E deve haver razões que a sociedade portuguesa se calhar devia reflectir, por que é que não há populações distintas da normatividade.

Eu saí porque precisava de saber que não encontrava em Portugal, sítios onde pudesse expressar esse saber que não encontrava em Portugal, e sítios estimulantes intelectualmente, sítios para questionar. Sair foi ver formas distintas de ensinar, horizontais, uma generosidade enorme, um ensino que não é top-down. Estar com pessoas de sítios completamente diferentes, com ideias e abordagens completamente diferentes do que pode ser arte. Pessoas que reivindicavam ter acesso a papel reciclado quando eu vinha de uma universidade quem nem sequer computadores tinha, em 1995. E não é só uma questão de ir para fora, que é uma expressão que acho problemática. O fora ou a periferia são sempre estados relacionais, fora em relação a quê? Eu tenho aprendido muito com os meus alunos e em investigação. No micro, em Portugal, também há essa ideia, de ir para Lisboa, mas eu acho que Coimbra tem imenso potencial e tenho imensa pena de não conhecer artistas novos. O envolvimento da comunidade é escrito em linguagem oficial mas não é feito nem activado.

FQ: No fundo, estamos a falar de sustentabilidade.

VG: Claro. É impensável eu estar a gastar milhões a comprar criações e não reter artistas na cidade. O que é que isso faz a longo prazo? Isso faz com que as pessoas vão embora. Não podes só criar as estruturas e pensar que elas sozinhas geram coisas. Não podes construir um teatro de dois mil lugares e ter uma população de metade. «Lá fora», «teatro da província», eu pensava que essas expressões já não existiam em Portugal, mas existem e em gerações mais novas do que eu. Esta abordagem significa que por trás dela há um pensamento de que as pessoas fora de Lisboa não têm saber e que nós vamos lá ensinar. E depois encontro processos extractivos, pessoas que vão a essas regiões, se calhar orçamentadas com muito dinheiro, e vão extrair saber dessas pessoas, não deixam nada de generativo e recebem financeiramente. Da mesma forma que o Estado gasta milhões a formar pessoas que eu encontro em Londres em todas as áreas.

A transição digital também faz parte dessa ecologia das artes, devia ser mais tida em conta?

VG: Claro, existem canais múltiplos. Os agentes culturais em Portugal têm de perceber que estão em 2022. Eu leio livros na internet, em PDF, porque eu não consigo carregar os livros com os quais estive a investigar, e se calhar posso preferir aceder a música e cinema em casa, os agentes culturais têm de pensar nisso. É preciso perceber o que é que oferecemos numa sala de cinema que não oferecemos em casa. Se calhar tenho um bar fantástico, onde as pessoas podem conversar depois sobre cinema. As pessoas podem pensar: “Ai que coisa horrível (o digital)!” mas se calhar é mais uma forma de aceder à cultura e à arte.

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