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Mundo em Coimbra | Espanha

Coimbra é o primeiro e único sítio fora de Espanha onde vivi. Aceitei um desafio profissional para seis meses. Passaram 22 anos.

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Fotografia: Mário Canelas

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A minha vida em Coimbra é muito agitada. Em Coimbra trabalho. O meu refúgio é em casa, fora da cidade. A verdade é que eu não tenho muita vida social em Coimbra, muitas vezes por falta de informação. Às vezes acontecem coisas boas em Coimbra, mas ficamos a saber depois de acontecerem.

Nasci em Salamanca e vivi a maior parte da minha vida em Cidade Rodrigo — é essa a minha cidade do coração. É lá que vou recuperar a energia. Antes de vir para Coimbra, estive em Huelva e Vigo por motivos de trabalho. Depois, através da mesma empresa, fui escolhida para vir para Coimbra. Foi um choque, não estava preparada para dar um pulo para outro país, mas tinha de ser. A empresa fez-me um desafio e eu, que sou muito de desafios, aceitei. Aceitei para seis meses e estou aqui há 22 anos. É sinal que não me tratam mal.

O que mais gosto de Coimbra é lembrar-me Salamanca. É uma cidade mais pacata. Gosto dessa parte, de ser uma cidade tranquila, sem o stress do trânsito. Temos tudo o que precisamos. É verdade que queremos ter mais, mas acho que está muito bem assim. Prefiro a tranquilidade de Coimbra, ainda que com a falta de coisas, do que a agitação de Lisboa.

Não gosto principalmente de duas coisas. Não gosto que deixem as coisas envelhecer sem cuidar. Gosto muito de cuidar das coisas. Da mesma maneira que gosto de cuidar de pessoas, e é o que faço profissionalmente, gosto de ver as coisas cuidadas. Faz-me alguma confusão ver edifícios e construções tão bonitos, com muitos anos, com muita história e muito degradados. Isso em Salamanca nunca aconteceria. Noto muito essa diferença. O interesse por cuidar. A minha sensação é que Coimbra envelhece, sobretudo a Alta e a Baixa, e rejuvenesce só a Solum e a Portela, aquelas zonas mais novas. O centro histórico da cidade está triste. Não transmite aquela vontade de visitar coisas. Parece um bocado abandonado. Vemos outras cidades, como Aveiro e Braga, a evoluir muito mais.

A outra coisa, não é bem não gostar, é só uma coisa a que demorei a habituar-me: todo o mundo é doutor em Coimbra. Para quem vem de uma cultura onde, mesmo que haja muitos doutores, as pessoas são chamadas pelo nome, é difícil acostumar-se a tanto cargo quando vamos chamar alguém. Quando vamos a chamar pelo nome, já perdemos o foco com tanto cargo. Agora já me acostumei e quem me conhece sabe que tratar por tu não é faltar ao respeito. Se crio proximidade com uma pessoa, os cargos não fazem sentido. Os cargos são para respeitar quando a pessoa está no seu local de trabalho. Tenho imensas clientes que são médicas, mas são médicas no hospital. No meu espaço não têm batas, não são doutoras.

No início foi uma coisa que me chocou um bocado. Mas pronto, é a cultura do país e se eu resolvi mudar de país sou eu que me tenho de adaptar ao país, não é o contrário. Compreendo perfeitamente. Também tive de aprender a falar português, não é? Os espanhóis, por exemplo, têm muito esta mentalidade errada: nunca querem aprender línguas. Os outros que nos entendam. Eu não penso assim. Se fui eu que me mudei, sou eu que tenho de aprender a gostar desta cultura.

De lá se pudesse trazia a família e amigos. Do que tenho mais saudades é das pessoas. As amigas, aquelas mesmo a sério, estão lá. É verdade que aqui já fiz uma família: a minha filha, genro e neta. Mas lá tenho a outra. Uma pessoa quando vive fora está sempre meio dividida. No entanto, estou a duas horas e pouco de casa dos meus pais, vou lá com frequência, e a família e amigas também vêm cá.

Não tenho saudades da comida porque em minha casa come-se comida espanhola. Também não tenho saudades do presunto e essas coisas, porque temos tudo cá. Aquilo de que tenho mais saudades é de uma forma diferente que os espanhóis têm de aproveitar o tempo. Quando vamos lá, a minha filha até comenta: «Mãe, parece que em Espanha 24 horas dá para mais do que em Portugal». Há muito a cultura de aproveitar a vida: acabamos de trabalhar, vamos beber umas cañas [cervejas], comer umas tapas, juntamo-nos com outras pessoas. Há muita proximidade entre as pessoas. Saem duas amigas passadas duas horas estão dez.

Essa parte aqui faz-me falta. A forma de as pessoas saírem é um bocado diferente. Sinto que às vezes é impensável sair para jantar a partir das 21h30/22h e lá podemos perfeitamente jantar às 23h/23h30. É onde noto muita diferente. Dois países tão próximos, mas com culturas tão diferentes. Ainda assim, como estou próxima de lá, é fácil para mim matar saudades e viver com estas coisas.

Os portugueses sempre receberam bem. Já tive situações incríveis. Por exemplo, os meus pais a caminho de cá perderam-se e um camionista ajudou-os. Ligou-me e disse: «Os seus pais não sabem onde estão, mas eu vou até Coimbra e eles atrás de mim, encontramo-nos no Portugal dos Pequenitos». Isto não acontece em todo o lado. Sinto que os portugueses acolhem bem, sempre fui tratada com muito carinho. Nunca ouvi que vim para cá roubar o trabalho dos outros, nunca.

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