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Leiam

O Livro das Religiões

Conheçam

Mesquita e Terreiro

Descubram

Messiânicos e Espíritas

Descobrimos o verdadeiro mosaico religioso de Coimbra

Quantas religiões cabem na cidade e como são recebidas? Umbandistas, muçulmanos e espíritas rezam e convivem na terra de Santo António e da Rainha Santa Isabel.

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Fotografia: Mário Canelas, Oficina Yoga Braga

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O Livro das Religiões

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Mesquita e Terreiro

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Messiânicos e Espíritas

Aconteceu em Braga, no final do mês de julho. Uma aula pública de yoga teve de ser cancelada porque um grupo católico ameaçou boicotar o evento rezando um terço na mesma hora e local. O pomo da discórdia seria o lugar do encontro: o Monte Sameiro, o ponto mais alto da cidade, com 572 metros de altitude onde, desde 1863, está um Santuário em honra da Imaculada Conceição de Maria.

Foram os próprios organizadores que cancelaram a aula e dispersaram uma centena de pessoas que praticam a modalidade ao pôr-do-sol, uma vez por ano. Um comunicado explicou a obviedade: «Já se realiza há vários anos e os participantes conhecem o seu único propósito: criar um momento de bem-estar físico e mental, de sossego e tranquilidade. Nunca houve referência à religião ou culto a qualquer tipo de divindade. Contudo, talvez por não compreenderem o seu objetivo, totalmente oposto ao qual o pretendem associar, registaram-se manifestações de desagrado por parte de pessoas que são “contra o yoga”».

Embora o relatório sobre Liberdade Religiosa no Mundo refira que em Portugal não existem casos significativos de discriminação por motivos religiosos, especialistas alertam para casos como o de Braga – reflexo de intolerância num país de expressão maioritariamente católica.

E em Coimbra, como estamos? Fomos atrás da diversidade religiosa na cidade do milagre das rosas e pães e descobrimos umbandistas, espíritas, muçulmanos, messiânicos, judeus e budistas em constante convívio. Esta é a primeira de duas reportagens carregadas de histórias de fé, como peças do mosaico religioso da cidade.

Os Kardecistas

Leonor Santos foi uma criança diferente. Os pais, católicos, não entendiam o modo como a menina interpretava o mundo, dizia coisas estranhas. Um dia, pediram que uma junta médica num hospital em Angola, onde viviam, fechasse um diagnóstico para um possível tratamento das esquisitices da criança. Mas não resultou. Leonor cresceu, casou, teve a primeira filha em Angola e a segunda já em Coimbra.

Quando a mais nova tinha três anos, Leonor viu voltar sua mediunidade: «Sou médium desde pequenininha. A mediunidade permite a comunicação dos Espíritos com os Homens, é uma faculdade que muitas pessoas trazem consigo ao nascer e meus pais passaram um bocado comigo. Depois aquilo acalmou, parece que os espíritos esperaram que as minhas filhas crescessem um pouco. Mas voltou e veio forte. As entidades falavam por mim, ninguém sabia lidar com aquilo, eu fiquei mal, não saía da cama, chorava, e foi quando uma médica me aconselhou a procurar um médium e eu não queria, tinha muito medo. Mas procurei e encontrei alguém perto de Leiria. Recebia os passes de cura, estudava a doutrina espírita para entender quem eu era e o que se passava comigo. Comecei a embrenhar-me então no Espiritismo».

Leonor conta que conheceu Divaldo Franco, um dos mais famosos oradores espíritas brasileiros, e visitou em Salvador, na Bahia, a Mansão do Caminho, uma obra social espírita que ocupa uma área de 78 mil metros quadrados, 44 edificações, que recebe diariamente mais de 5 mil pessoas, que buscam auxílio material, educacional e espiritual. Foi lá que recebeu a mensagem do espírito de Joanna de Ângelis para abrir um centro espírita em Coimbra: «Recebi a mensagem e parece que alguma coisa começou a fervilhar à minha volta e nunca mais parei de trabalhar nisto. Hoje é o que vemos aqui.» 

Esse «aqui» a que se refere Leonor, é o Geeak – Grupo de Estudos Espíritas Allan Kardec que tem sede em Coimbra mas se espalhou para Sandelgas, Pombal, Ovar, Anadia e Caniço. Começou com uma reunião de seis pessoas e hoje são 126 trabalhadores e 18 médiuns: «Foi no quatro de julho de 1996. Depois da reunião fomos para a procissão da Rainha Santa. Eu pensava que seríamos sempre aquele grupo pequeno. Qual quê… passados uns meses vinha gente de todo o lado, a gente não cabia naquela pequena garagem, sempre às quartas-feiras. Mas crescemos. Soube através de um guia espiritual que a Rainha Santa é nossa mentora, ela labora aqui, temos uma falange de espíritos que é ela quem orienta para cá. Também temos a inestimável ajuda da Mariazinha, o espírito que eu recebo, é uma entidade. Foi ela que nos orientou a criar aqui o Ninho da Mariazinha, nosso braço para as obras assistenciais. A Mariazinha começou a acompanhar-nos há 20 anos, ela dá-nos todas as orientações e fala através de mim, é muito brincalhona e bem-disposta. Ela tinha 17 anos quando partiu deste mundo, viveu na zona de Tomar».

O grupo começou com a doação de 43 cabazes no Natal para algumas famílias do Ingote. Hoje presta assistência para dezenas de pessoas num grupo que trabalha em rede, dando apoio e assistência a quem precisa de alimentos, móveis, roupas, emprego, remédios. 

Os seguidores de Allan Kardek, pseudónimo do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail que nasceu em Paris, em 1804, já foram perseguidos no mundo inteiro. O autor de O Livro dos Espíritos criou a doutrina que despertou a ira da Igreja Católica que mandava jovens médiuns para hospícios. Os adeptos acreditam na reencarnação e que a vida continua através dos tempos, encarando cada existência como uma oportunidade de evolução. No ano em que espíritas comemoram os 153 anos da morte, ou melhor, do «desencarne» de Allan Kardec, sua doutrina contabiliza cerca de 13 milhões de seguidores no mundo inteiro. No Geeak de Coimbra, toda segunda-feira tem passe coletivo, às terças acontecem as sessões de cura e nas tardes de quarta é possível receber um atendimento fraterno com fluidoterapia. Toda a prática é gratuita.

A Bandeira de Oxalá

«Desculpa perguntar: esse autocolante no seu carro é seu Zé Pelintra?», indagou o rapaz curioso, funcionário de um Lava-Jato, ao dono do carro que aguardava a vez na fila. «Sim! E você só pode ser da Umbanda, ou perguntaria se era o Michael Jackson!», respondeu o motorista. A história foi contada no grupo que aguardava o início de uma Gira num terreiro de Umbanda, em Cernache, na primeira sexta-feira à noite de Agosto, faltavam alguns minutos para as oito. Zé Pelintra é uma entidade muito conhecida dos umbandistas, mas em Coimbra a figura daquele homem vestido com fato branco e vermelho não diz nada a quase ninguém.

Gira é o principal ritual da Umbanda, religião brasileira que nasceu sob influência dos negros escravizados e trabalha a espiritualidade sob a inspiração de espíritos antigos, num panteão de divindades chamadas de Orixás: Iemanjá, a rainha do mar; Oxum, que mora nas cachoeiras; pai Xangô, que vive na pedreira; Exú, guardião dos caminhos; Ogun, o senhor da guerra; Oxossi, que vive nas florestas; Oxumaré, divindade do movimento, Iansã, rainha dos raios; Nanã, a dona da alma no fundo dos rios; e Obaluaiê, senhor da cura.

Em Coimbra, o Terreiro tem sua Gira toda sexta-feira, das oito às dez da noite. Chegamos um pouco antes do início do culto e já encontrámos várias pessoas na entrada. Quem estava ali pela primeira vez dava o nome e colocava numa caixa qualquer contribuição financeira, nada é obrigatório. Os responsáveis pela recepção anotam o nome e atribuem um médium que incorporará uma entidade para cada consulta. Os consulentes ficam sentados fora do espaço sagrado onde acontece o Xirê, que significa roda, onde os integrantes da casa cantam e dançam ao som da música cadenciada por três Ogãs – responsáveis pela orientação das Curimbas (cânticos) e que tocam os atabaques (tambores).

Na Gira, os médiuns já estão todos incorporados e os nomes são chamados, um por um. Os espectadores entram no solo sagrado para falar com uma entidade que os abençoa num passe e inicia a consulta. Tudo é registado por um Kambono, espécie de ajudante que auxilia o médium e interpreta aquela linguagem por vezes indecifrável. Terminada a consulta, o visitante retorna ao seu lugar e aguarda o fim da Gira, muitas vezes levando consigo um recado da espiritualidade resumido num papel de obrigações. A nossa reportagem recebeu uma vela branca com indicação para a dedicar ao anjo da guarda protetor.

A palavra Umbanda pertence ao vocabulário quimbundo, de Angola, quer dizer «arte de curar» e em Coimbra esse universo se movimenta em torno de Cláudio Pinho Lima, o Pai Cláudio de Obaluaiê, que inaugurou o Terreiro Espiritual de Umbanda Caboclo Nharauê há 19 anos: «Começamos com 17 médiuns, primeiro em Maceira, perto de Lisboa. Aqui em Coimbra abrimos a casa no dia 28 de Maio de 2003 seguindo a linha do Templo Guaracy, de São Paulo, a minha primeira casa, onde comecei com 22 anos e onde conheci o meu caboclo, Nharauê». 

No fim do ritual, o cearense de Fortaleza, a viver há mais de vinte anos em Portugal, explica que, no início, o terreiro esteve fechado vários meses ao público para que ele pudesse ensinar e preparar os médiuns e estabelecer uma corrente. Esta religião brasileira vive a convicção de que os médiuns incorporam espíritos antigos de várias entidades, como o preto velho – espíritos de negros idosos, quase sempre escravos que morreram e carregam sabedoria para lidar com os problemas terrestres –, ou o caboclo (índios guerreiros), e sob o incentivo desses ancestrais se comunicam com as pessoas que procuram o terreiro para dividir suas preocupações ou tristezas, em busca de uma orientação ou mesmo cura de doenças físicas e espirituais. 

«Minha maior dificuldade é explicar que a Umbanda não é magia para se conseguir bens materiais, esse é o meu maior problema aqui. Explicar às pessoas que terreiro não é um mercado de troca com a espiritualidade para comprar casa, carro e roupa nova.»

Cláudio Pinho Lima, fundador do Terreiro Espiritual de Umbanda Caboclo Nharauê

A história da espiritualidade de Cláudio começou numa universidade presbiteriana: «Eu trabalhava na Universidade Mackenzie, fazia parte de um grupo que estava implantando o sistema informático da instituição. Um dos meus colegas de trabalho, o Chico, virou meu amigo e comecei a frequentar a casa dele. No início não desconfiei que a família era de umbandistas e, um dia, a mãe dele, dona Juliana, me disse que era médium no Templo Guaracy e aos sábados estava sempre lá, dando passes. Ela me convidou e eu fui. Fiquei encostado, olhando com medo, certo preconceito. Tomava passe todo o sábado, comecei a ficar encantado com aquilo. Uma entidade me disse que eu precisava de desenvolvimento espiritual e falei pra mim: «Essa aqui vai ser a minha casa», recorda.

A ponte para Portugal foi feita em 1998, através de um grupo de portugueses que visitou o Brasil para um ritual de iniciação, a chamada Camarinha, que traz em si um fundamento de firmar a energia do orixá na cabeça de quem se propõe a seguir a Umbanda. Cláudio acompanhou o grupo e desse encontro surgiu a mudança para Portugal, em 1999.

«As entidades me guiam, o caminho era esse e eu não discuto nem ponho questões, a caminhada é essa e eu a sigo. A minha missão é fazer esse trabalho, ajudar as pessoas, formar médiuns portugueses para o atendimento. O Terreiro de Coimbra conta hoje com 64 médiuns, portugueses em sua maioria, a gente daqui tem compreendido essa religião, a Bandeira de Oxalá. Minha maior dificuldade é explicar que a Umbanda não é magia para se conseguir bens materiais, esse é o meu maior problema aqui. Explicar às pessoas que terreiro não é um mercado de troca com a espiritualidade para comprar casa, carro e roupa nova. Mas depois de ultrapassado esse problema, a entrega é muito grande, o compromisso também. A Umbanda, pra mim, é uma das estradas para quem quer se conhecer através da espiritualidade. Existem muitos caminhos mas eu escolhi esse e alguns portugueses também. Venham conhecer o amor da Umbanda», convida Cláudio antes de se despedir. Ele voltaria para Lisboa naquela mesma noite e na manhã seguinte viajaria cedo para o Algarve, onde prestaria homenagem a Iemanjá.

A Mesquita

Os números do islamismo, a religião que mais cresce no mundo, são impressionantes. Até o fim do século, os muçulmanos irão superar os cristãos como o maior grupo religioso do planeta: há hoje no mundo 1,6 mil milhões de pessoas que se designam muçulmanas. Coimbra ainda não reflete esse crescimento estonteante, pelo menos não no número de frequentadores da Mesquita que há trinta anos ocupa a cave 201 da Rua Bernardo Santareno, no bairro de Santa Apolónia. Mas, ainda assim, tem acolhido a comunidade islâmica da cidade, principalmente os mais jovens. O culto das sextas-feiras chega a reunir duas centenas de pessoas.

«Assalamu’Alykum», diz Malan Fati ao nos cumprimentar. Perguntamos o que significa e o menino prontamente responde: «É a saudação islâmica, quer dizer “Que a paz, Misericórdia e Bênção de Alá estejam contigo”», e continua: «Podem responder “Wa Alaikum Assalam”, que significa “Que Alá aceite de nós e de ti as boas ações”», ensina-nos. Malan tem 12 anos e frequenta a Mesquita todas as tardes, quando o lugar se transforma numa escola especial, a Maktab – um espaço de catequese muçulmana. 

«Estou aqui e estou bem, não tenho problemas com ninguém, dou-me bem com todos. Estou feliz. Todos os vizinhos me conhecem e nunca tive problemas por ser muçulmano, isso é que é o mais importante: darmo-nos bem com todos, muçulmanos com não-muçulmanos, é isso que Alá quer de nós.»

Mamadou Saidou Diallo, Imam da Mesquita de Coimbra

Antes da aula, Malan e as outras crianças brincam com os telemóveis no pátio da Mesquita enquanto conversamos com Mamadou Saidou Diallo. Ele é o Imam da Mesquita de Coimbra, a figura central desta comunidade islâmica. Tem 51 anos, nasceu na Guiné-Conacri e chegou a Portugal em 1992, mesmo ano de inauguração do templo: «Trabalhei no Algarve, Vila Real de Trás-os-Montes e Malveira. Vivi quatro anos nesses lugares até chegar em Coimbra, onde ficarei até quando Alá quiser levar-me para outro sítio. Estou aqui e estou bem, não tenho problemas com ninguém, dou-me bem com todos. Estou feliz. Todos os vizinhos me conhecem e nunca tive problemas por ser muçulmano, isso é que é o mais importante: darmo-nos bem com todos, muçulmanos com não-muçulmanos, é isso que Alá quer de nós. Se existem pessoas que fazem mal em nome da religião, e em todas as religiões existem pessoas boas e más, não é a religião quem dita, não vamos acusá-la», atira o guineense que conversou em português mas domina também o árabe e o francês, além do fula, seu dialeto de origem.

Mamadou Diallo explica que o Islão nasceu na Arábia, no séc. VII, com Maomé, que unificou as religiões étnicas anteriores e cuja mensagem reconhecia um deus único, criador, todo-poderoso, compassivo e misericordioso. O profeta, que nasceu em 571, foi um pregador eficaz e também líder político e militar. Viveu 61 anos e suas palavras foram compiladas pelos seus continuadores no livro sagrado – o Corão. No Cristianismo, a palavra de Deus transformou-se numa pessoa, Jesus, mas no Islão transformou-se em livro: «É por isso que não comparamos Jesus a Maomé ou a Bíblia ao Corão».

A mensagem islâmica assenta em 5 pilares: a profissão de fé (só Alá é Deus e Maomé o seu profeta); a oração diária 5 vezes seguindo o ritmo solar; as obrigações no Ramadão, com recolhimento e jejum absoluto do nascer ao pôr-do-sol; a doação de uma percentagem do rendimento; e a peregrinação a Meca, uma vez na vida. O Imam de Coimbra já peregrinou por duas vezes e nos conta emocionado a experiência: «Fui a Meca pela primeira vez em 1985 para prestar as provas do concurso corânico (que avalia a memorização e recitação da palavra sagrada, em árabe) e a segunda em 2005. Chorei quando deixei Meca… que emoção», relembra.

Outras crianças chegam na Mesquita e Malan pergunta se a entrevista ainda demora. O Imam responde que já estamos a acabar e que ele deve se preparar para adentrar o solo sagrado, e o menino se dirige às torneiras da entrada para a Ablução: «É o rito da purificação. Começa-se com o pé direito, lava ambos os pés, incluindo os tornozelos, depois outras partes do corpo. Deus é puro e na religião islâmica a pureza é metade da fé. Portanto não podemos adorar Alá sem estarmos puros. Sem a Ablução não há oração, mesmo quando não temos nada para oferecer, oferecemos nossa limpeza, nossa pureza a Alá».

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