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Saibam mais

Teoria Queer

Conheçam

Dinis Machado

Assistam

Dinis Machado em Coimbra

Somos (quase) todos queer?

Para a coreógrafa e bailarina Dinis Machado, autora de apresentações no festival Linha de Fuga, «muitas vezes os corpos mais discriminados terminam por ser os corpos que mais acolhem», porque corpos de quem não se enquadra na lógica heteronormativa terminam por ter uma vivência comum.

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Fotografia: Mário Canelas

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Dinis Machado

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Dinis Machado em Coimbra


Muitas pessoas sabem que o significado original da palavra gay é alegre. Já o Q da sigla LGBTQI+ é menos conhecido. Originalmente, queer significa estranho, esquisito, daí ser usado para referir-se a homossexuais com o intuito de ofender. Mas houve contra-ofensiva. A comunidade apropriou-se da palavra: foi ressignificada, virou teoria na academia e ganhou o mundo. De uma forma bem simplista pode-se dizer que queerness passou a referir-se a uma prática de vida que se opõe à imposição da heteronormatividade.

Quem estará em Coimbra para uma conversa e debate sobre Queer Quê? é a coreógrafa e bailarina Dinis Machado, que mora na Suécia desde 2012. Em sua palestra no Linha de Fuga, este Sábado, dia 24 de Setembro, Dinis falará sobre como as questões políticas queer se cruzam com seu trabalho, o que se enquadra no que ela chama de transreality, e depois com o público. Levantamos o véu desses momentos numa conversa com a artista via Zoom.


Laurisa Farias: O que é transreality?

Dinis Machado: Mais do que os corpos, a realidade é trans. Ser trans é uma questão individual, mas é também sobre como ativar os olhares sobre nossos corpos. Interessa-me esta transrealidade como um espaço transcoletivo. A pessoa trans é a que cose, que tece o individual dentro do coletivo. A pessoa trans está sempre a trabalhar na prática do desviar das expectativas sobre o que os corpos devem ou não fazer, como devem parecer. Uma coisa que as pessoas trans são muito boas a fazer é sobreviver (risadas). A pessoa trans tem de se desviar o suficiente para conseguir abrir outros caminhos, guiar outros olhares, mas trazendo outras pessoas junto para não ficar isolada.

LF: Como é que a Dinis faz para que as pessoas desviem o olhar, como disse?

DM: Bem conversadinho, né? (Gargalhadas). Este desvio de olhar tem a ver com pequenas coisas, pequenas questões porque se as perguntas forem muito grandes, as pessoas assustam-se e fogem. Por isso falo em coser, tecer, para que as nossas questões não pareçam estranhas. Tem sempre a ver com corpos queer, que são facilmente catalogados como corpos estranhos, corpos repelentes, ridículos. A fronteira entre os corpos queer e os corpos normativos não existe. É apenas um desvio porque estas questões não existem somente nos corpos queer. Há muitos homens e mulheres cis que carregam questões queer, que não se sentem completamente confortáveis nos limites de uma masculinidade, de uma feminilidade. Há tantas mulheres, por exemplo, com muitas perguntas sobre como administrar seu tempo, como ser mães, ter uma vida profissional. Estas são perguntas sobre o que é ser mulher, sobre o que é socialmente aceite uma mulher ou um homem fazer em público.

LF: Pode-se dizer então que todo comportamento que foge do padrão heteronormativo é queer?

DM: Claro! Diria que tudo que é questionamento do papel de género são questões queer.

LF: Muitas pessoas estão optando por não ter filhos, chamadas de child-free, como escolha,
ao invés de childless, uma incapacidade. Isso é um desvio da heteronormatividade, como
falaste?


DM: Sim, isso é uma questão queer de alguma forma. Eu fiz uma peça, Consubstanciation. A última cena desenvolveu-se a partir de uma entrevista com uma amiga. Eu pedi-lhe que me descrevesse o processo de gravidez e do parto no território das sensações. Ela descreveu-me tudo em pormenor. Peguei estas descrições e tentei dançar estas sensações, sem entrar em uma lógica mimética, sem fazer parecer um parto. Tentei reativar estas sensações no meu corpo, que não tem alguns dos órgãos que ela me descreveu. Experienciamos os corpos que imaginamos. Isto está muito presente nos corpos trans. A forma como imaginamos o nosso corpo é mais próxima das nossas experiências do que nosso corpo físico. Houve uma rapariga lá no espetáculo que disse: «Eu encontro-me muito com esta vivência
porque eu não quero ter filhos e a sociedade sempre olha meu corpo como incompleto». Aí tem uma ponte que se cruza. É uma ponte de género, há uma incompletude de género que é projetada pela sociedade. Tem mais a ver com desviar a realidade do que ir contra a realidade normativa.

LF: Então não é confronto, mas ampliação deste olhar?

DM: Para mim é porque o confronto tira-nos tanta energia! Também porque quando entra no confronto é muito difícil desviar as coisas. Como sou mais do lado feminino das coisas, gosto mais de uma lógica de sedução, de como convidamos pessoas para outras lógicas, outros olhares, outras possibilidades.

LF: Esta seria uma das lógicas do cuidado?

DM: Este é o mote do Linha de Fuga, mas eu não uso muito esta palavra porque ela é problemática.

LF: Por que problemática?

DM: Porque a ética do cuidado pode ser heteronormativa. É um bocado como a ideia do amor, sobre a qual tenho muitas questões. A ideia do amor está muito marcada pelo afeto heteronormativo. Quando a gente pensa em amor pensa em todos estes filmes que passam na televisão. O afeto entre corpos queer muitas vezes tem outros imaginários, manifesta-se de outras maneiras. A mim interessa muito o cuidado no sentido que estávamos a falar no início: como olho para uma outra pessoa proporcionando aquilo que esta pessoa quer ser, como ajudo a potenciar aquilo que um corpo quer ser. A mim interessa uma lógica de cuidado que é muito estrutural.

LF: Como assim?

DM: Eu usar os pronomes corretos das pessoas, por exemplo. Outro dia li um artigo sobre um conceito que uma pessoa com deficiência falava sobre a «intimidade do acesso», quando alguém a ajuda a chegar aonde quer que seja sem que se sinta como uma pedra no caminho, quando é uma coisa natural. Essa ideia de afeto, de cuidado, pode também ser ideias de invisibilidade. Por exemplo: proporcionar a um corpo trans uma invisibilidade positiva, um corpo trans não ser singularizado em um espaço coletivo. Isso para mim é uma ideia de acesso. Para mim é incrível quando eu entro em um espaço e ninguém comenta a minha roupa. Às vezes isso é mais um cuidado do que o cuidado expresso. O cuidado é mais bem-sucedido quando a pessoa que está a cuidar entende os desejos daquele com quem está a se relacionar. Às vezes cuidar é dar espaço. Devemos pensar sobre cuidado com cuidado.

LF: Pode-se falar em autocuidado queer?

DM: Como falamos antes, a especialidade dos corpos trans é sobreviver e de forma muito
literal: chegar ao fim do mês e conseguir pagar a renda, chegar em casa com um salto alto em
uma mão e uma pedra na outra. Os corpos queer têm esse lado que é muito rico, de desejo de
transformação, um desejo poético.



LF: Esta imagem de que o corpo trans é uma pedra na mão e um salto alto na outra é parte
da transreality?


DM: De uma certa maneira, sim, porque quando falo em transreality é sobre espaço comum. Se calhar essa pedra não é só para nós. Eu luto por um espaço trans como um espaço de solidariedade também, porque não adianta salvar apenas nosso corpo. As pessoas trans têm muito essa consciência. Hoje as comunidades são mais visíveis. Mas nem sempre foi assim. Eu conheci a primeira pessoa trans quando eu tinha 25 anos. Uma coisa é saber teoreticamente que corpos trans existem, outra é conhecer. Quando você conhece um corpo trans esse corpo transforma-se em uma possibilidade e deixa de ser hipótese. Isso faz uma grande diferença. Há um lado político aí.

Uma pessoa sair abertamente à rua como corpo trans é aceitar tomar muita violência. Cada vez que saio à rua é um peso. Tem dias que não quero sair. Mas tem um lado que nos empodera também. Quando saio à rua, faz a diferença. São tão poucos os corpos trans. Vai ter uma criança que vai ver a mim e posso ser a primeira pessoa trans que ela vai conhecer. Trabalho em uma instituição em um lugar muito pequeno, Filipstad, e conheci uma criança trans lá, de 10, 11 anos. Eu tenho quase certeza que fui a primeira pessoa trans que ela conheceu. Isso é uma diferença muito significativa porque transforma uma possibilidade em uma realidade, uma realidade tangível, um corpo que é real, que está ali, que tem uma profissão, que paga a renda no fim do mês. É sobre normalizar a nossa presença. Mas ainda há
a lógica normativa.

Quando comecei a trabalhar no campo, tentei fazer parcerias de trabalho. As pessoas responsáveis pelas instituições culturais falavam: «ah, não sei se vai dar, as pessoas não são muito abertas, aqui tem muitos imigrantes e não estão habituados com estas lógicas queer». Muitas vezes os corpos mais discriminados terminam por ser os corpos que mais acolhem. Na verdade, a discriminação é muito mais dos corpos brancos que são aceites dentro de uma lógica heteronormativa e burguesa. Todos os corpos que têm experiência de imigração, de género, por exemplo, têm qualquer coisa que nos une. Nosso corpo nunca é o corpo do filme do cinema mainstream. Mesmo que não tenhamos partilhado as mesmas experiências, há uma vivência da lateralidade, que é análoga.

LF: Esta experiência em comum entre minorias é que cria esta esta aproximação?

DM: Sim, o termo queer também tem a ver com isso, com um lugar comum, com várias identidades: trans, gay, migrante…. Claro que uma experiência trans não é a mesma de um imigrante. No final das contas, esta ideia heteronormativa burguesa de homem e mulher é impossível, com algumas pessoas apenas a fingir mais que outras.


«There is nowt so queer as folks» é um antigo ditado originário do Norte da Inglaterra. Traduzido livremente seria como não há nada mais estranho do que pessoas. A se fazer a equação entre a antiga expressão idiomática inglesa e as ideias de Dinis, resta-nos uma constatação: somos (quase) todos queer – dito de outra maneira: ou fomos, sou somos ou seremos queer.

QUEM É DINIS MACHADO
Nascida no Porto, aos seis anos de idade já tinha interesse por dança. Frequentou a Academia
Contemporánea de Espetáculo, «uma escola de teatro com um forte componente de dança»,
como ressalta. Foi para Lisboa em 2005 para estudar Teatro na Escola Superior de Teatro e
Cinema (ESTC). Depois da formação em teatro, voltou para dança. Em 2012 foi para Estocolmo
tirar mestrado em Coreografia na Stockholm University of the Arts. Da capital sueca não mais
saiu. Dinis recebeu o prémio Birgit Cullberg Stipendium, conferido pelo Comité de Bolsas de
Arte Suéco – Konstnärsnämnden.
Dinis fará duas apresentações no Linha de Fuga. No dia 22, encena «L’après Midi d’une
Faune», às 19h, na Oficina Municipal de Teatro, e no dia 24 haverá a palestra «Queer Quê?»,
às 17h, no CAPC Sereia, com entrada gratuita.

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