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Vai-se Andando | «O centro teve a sua vez, agora é a das freguesias»

A declaração é do professor e presidente da Associação dos Moradores do Monte Formoso, Manuel Cruz, que encontra na autarquia concordância de que a «zona periférica» é a mais necessitada de infraestrutura pedonal da cidade. Fomos até lá para conferir.

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Fotografia: Mário Canelas

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Era manhã de 23 junho de 1963 quando os jornais portugueses anunciavam o lançamento da mais nova zona residencial em Coimbra. «Uma cidade-miniatura vai erguer-se na privilegiada zona do Arco Pintado», com «a sua magnífica exposição, é dos mais ricos de Coimbra», «um notável empreendimento», de «moderna concepção urbanística adoptada em todo o conjunto», «tem magnífica exposição a Sul, dominando parte da cidade, a mata do Choupal e o Vale do Mondego», lia-se na edição desse dia de jornais como o Diário de Coimbra, Diário de Notícias, Comércio do Porto, Diário da Manhã, Jornal de Notícias e Diário do Norte.

Os elogios publicados nas páginas de jornais regionais e nacionais faziam referência ao Monte Formoso, zona Norte de Coimbra. Originalmente um imenso campo de olivais, o Monte Formoso nasceu como um bairro de elite, mas hoje reivindica condições básicas de infraestrutura e acessibilidade – especialmente pedonal. «Estamos na entrada da Cidade, mas tornamo-nos uma ilha. Uma ilha sem passeios ou com passeios estrangulados», lamenta Manuel Cruz.

Não é difícil compreender a insatisfação dos moradores do Monte Formoso e de outras áreas periurbanas da Cidade. Entre as 18 freguesias que integram o concelho de Coimbra, praticamente todo o investimento em infraestrutura, melhorias, segurança e conforto têm sido concentrado na área central do município. Contudo, isso deve mudar.

«Garantir a qualidade pedonal não se pode cingir ao espaço urbano central», é o que afirma Ana Bastos, vereadora da mobilidade da Câmara Municipal de Coimbra (CMC). «As freguesias mais rurais, de baixa densidade, de uma forma geral não estão providas desta estrutura básica. Quanto mais para a periferia formos, maior esta lacuna. O critério é a distância ao centro. Quanto mais distantes formos, vamos perdendo qualidade. Por isso, investir nas freguesias periféricas é absolutamente essencial no combate à ruralidade em que emergiram nas últimas décadas».

Apesar de estar longe da «ruralidade» que a caracterizou antes da década de 1960, o Monte Formoso está na lista atual de investimentos e projectos da CMC – mas não só. Está em curso o projecto de implantação de um passeio nas estradas principais da Corrente e Lordemão, «de modo a assegurar um percurso pedonal em segurança entre o Hospital da Luz e Lordemão», especifica a vereadora da mobilidade. Além disso, já está concluído o projecto de requalificação dos passeios de ligação entre a Ponte de Eiras e a rotunda de acesso ao Retailpark, «estando em curso o projecto de requalificação dos passeios entre o Monte Formoso e o nó da Casa do Sal».

Outra área que terá requalificação do espaço público será do Bairro do Ingote, ao nível do planalto, até à Casa do Sal, «nomeadamente ao Parque Verde. Não há ali passeios, mas está a ser feito um projecto de ligação para dar essa condição», explica Bastos. Os anúncios de estudos de requalificação dos passeios abrangem, ainda, a Freguesia de São Martinho do Bispo – na Rua dos Covões, Rua 5 de Outubro – e até mesmo a não tão periurbana Freguesia de Santo António dos Olivais, com estudos para as ruas Brigadeiro Correia Cardoso e Nicolau Chanterenne.

Entre Palheiros e Canas, faltam passeios

Declaradamente «rural por excelência», a Freguesia de Torres do Mondego tem como principais equipamentos a Praia Fluvial de Palheiros e Zorro e o Vale de Canas – com sua mata de tantos percursos a pé. Apesar disso, a zona conta com mais de dois mil moradores e, diferente das características originais que remontam ao século XI – muito antes mesmo de ser anexada como Freguesia de Coimbra -, hoje apresenta um intenso tráfego de automóveis em meio a creches, centros desportivos e pouquíssimos passeios.

«Dadas as especificidades das aldeias rurais, a implementação de passeios é muitíssimo limitada aqui. Para além disso, existem algumas resistências dos serviços camarários, quanto às aldeias rurais, por indicarem que não se conseguem implementar passeios com as medidas técnicas oficiais, dada a exiguidade das ruas, travessas e becos», afirma Paulo Cardoso, presidente daquela junta de freguesia, adiantando a conquista de uma recente requalificação de um trecho para peões «que apresentava sinais evidentes de degradação. Assim, nesta freguesia existem pouquíssimos passeios, o que torna algumas artérias perigosas para os cidadãos».

Paulo Cardoso revela ainda que há projectos de melhoria das condições pedonais na Freguesia, tanto de implementação de passeios «em determinados locais de grande circulação rodoviária» quanto de «pedido de implementação de sistemas que reduzam a velocidade de circulação, a fim de evitar potenciais acidentes de maior gravidade» junto à CMC.

Transformar uma estrada numa rua

Projectos, porém, podem ser ou não aprovados ou financiados. Então, o que há de concreto para a zona periurbana de Coimbra? Uma das principais obras já aprovadas pela Câmara é a requalificação da Estrada de Eiras, que o executivo municipal quer transformar em rua. «O termo correto é mesmo transformar uma estrada numa rua. Aquilo chama-se «Estrada de Eiras», que liga desde a zona do nó da Pedrulha com a IC2 até a Estação Velha. Todo esse espaço está a ser requalificado neste momento com ciclovias, passeios e plantação de árvores, no sentido de transformar aquilo numa rua. Vamos ter uma pequena zona que vai ser criada uma zona 30 km, exatamente porque não há espaço para segregar todos os modos de transporte – ou seja, vamos ter que ter uma partilha do veículo com o ciclista», especifica Ana Bastos. Outra zona que já está a receber passeios é a Estrada de Coselhas.

Percorrer os troços da Estrada de Eiras é uma mistura de boas expectativas e constatação de velhos e maus hábitos. Enquanto o espaço é requalificado, já se pode encontrar automóveis estacionados sobre os novos passeios, ainda recém-estreados pelos peões. «É fundamental tirar de dentro das cidades o automóvel particular. Na Dinamarca estão 100 anos à frente de Portugal. É impressionante. Os países que fazem os processos mais simples são os mais avançados. E a prioridade é criar uma cidade amigável do peão», enfatiza Manuel Cruz.

O morador comemora a prioridade de ações anunciadas para as zonas periurbanas da cidade como uma «excelente notícia na vontade expressa de percorrer esse caminho», mas reconhece que é preciso ir além: «Estes passeios do Monte Formoso não são só para nós. Estamos a falar de uma junta de freguesia de mais de 30 mil habitantes, cerca de 18 mil eleitores. Esses passeios vão servir a muita gente que vem da Quinta da Rosa, Ingote, Antonio Sérgio. E muitos deslocam-se a pé. Por isso, gerar uma rede de passeios e ciclovias interligadas é uma questão fundamental. Troços de ciclovias e passeios são bonitos, mas servem para muito pouco».

Nem tanto ao centro, nem tanto ao periurbano: a Rua do Brasil

A perspetiva em rede também é prioridade para o urbanista Carlos Pinheiro que, há dois anos, mantém o perfil Coimbra Futuro Possível na rede social Instagram – um perfil onde publica simulações digitais possíveis para dar mais equilíbrio e sustentabilidade à cidade.

«Uma rede pedonal para o peão em Coimbra é algo muito necessário. Mas ela não existe – sem falar na manutenção do que já está posto, que é má. O decreto-lei que regula as acessibilidades indica que a rede de passeios deve ser coerente, homogénea, para permitir, nos seus vários estados, que as pessoas possam usufruir de uma circulação pedonal segura e confortável».

Nas publicações do Coimbra Futuro Possível não há, ainda, intervenções digitais em zonas periurbanas – algo que Pinheiro pensa fazer. Mas estão lá o Pólo I da Universidade de Coimbra, a Rua Humberto Delgado na Solum, a Estação Nova, entre outros pontos. Um deles, porém, chama a atenção pela divergência com a perspetiva oficial da Câmara Municipal: a Rua do Brasil.

Aquela que é uma das ruas mais movimentadas e estranguladas de Coimbra, tem sido ponto de discursos sempre que o tema é a mobilidade urbana na cidade. Porém, a CMC afirma que não existe projeto para alargamento de passeios naquela via, enfatizando que «não é possível retirar uma faixa de automóveis para alargar o passeio, já que não há uma via paralela, a cota baixa, que permita fazer o sentido oposto», explica a vereadora Ana Bastos.

Em contraponto a essa afirmação, Carlos Pinheiro coloca-se em voz e ecrã, com uma maquete digital onde se pode ver circulação de automóveis, bicicletas e peões na frenética rua. «É uma falácia dizer que é difícil requalificar a Rua do Brasil. Difícil por quê? Porque vai impactar o trânsito de automóvel. É por isso. Se quisermos mesmo salvaguardar o peão é darmos um só sentido de circulação de automóveis ali, diminuir a velocidade dos carros. É difícil para os carros, somente, mas é preciso inverter a hierarquia. Essas decisões são fáceis. Não são populares, mas são fáceis», enfatiza Pinheiro.

O urbanista explica a viabilidade do que apresenta em proposta digital. «Vai-se desde o Corte Inglés até ao final da rua em sentido único, a 30 km, priorizando o transporte público, moradores e pessoas que vão aceder àquela rua. Os moradores daquela via, hoje, não usufruem nada daquele trânsito que lá está. Da Caixa Geral até os colégios, o carro que quiser voltar vai pela circular externa – não tem que voltar necessariamente pela Rua do Brasil. Vai dar uma volta maior? Vai, mas há alternativas».

Assim como apontado por Manuel Cruz, Pinheiro faz críticas à hegemonia do automóvel. «Massificar o automóvel privado faz com que os governos deixem de ser deles a responsabilidade de gerir os transportes públicos, porque as pessoas já não precisam tanto. O problema é que isso é um esquema de pirâmide. Começa a ruir quando a cidade deixa de ter capacidade para toda a gente ter carro».

«Andar é a forma de mobilidade mais democrática que existe»

O criador de Coimbra Futuro Possível não poupa críticas à falta de prioridade à caminhabilidade. «Tirando alguns pontos, o que temos neste momento não é uma prioridade para o peão. Há muito tempo de espera ao semáforo, imensos passeios em que não há estrutura onde devia haver uma faixa contínua de apoio técnica – com postes, sinais, caixas de eletricidade, bocas de incêndio alinhados. O que se herdou das outras Câmaras foi uma situação ainda muito medíocre sobre segurança para o peão», destaca Carlos Pinheiro.

O activista da mobilidade sustentável pondera: «Já houve uma política de inclusão de acessibilidade, principalmente nos centros urbanos. O processo era: levantamento dos passeios, todos do centro da cidade, onde era detalhado se havia passadeira, rebaixamento ou não, pavimento sensorial ou não, obstruções ou não, e definidas zonas de intervenções. Não devíamos abandonar esse modelo. É preciso seguir fazendo levantamento onde não há estrutura pedonal e definir uma estratégia. Acima de tudo, definir um objetivo – e cabe à CMC mostrar esses objetivos às pessoas».

Enquanto as mudanças não se concretizam, João Mariano, que há 45 anos reside no Monte Formoso, conta histórias de pessoas que deixaram a zona pela falta de acessibilidade e relembra que, há muitos anos, os moradores faziam todos os caminhos a pé, sem medo de automóveis. «Hoje, quem vier da entrada do Monte Formoso até cá cima não pode vir pelo lado direito. Não há passeios. As pessoas cegas, com dificuldade de locomoção, têm que atravessar a rua para poder subir. E mesmo ali é perigoso», conta. Fomos até a entrada do Monte Formoso e constatamos algo inusitado: onde deveria estar um passeio público estão faixas pintadas no alcatrão, entre a faixa de  rodagem dos automóveis e uma paragem de autocarros que também se é usada como um estacionamento improvisado.

«É uma falácia dizer que é difícil requalificar a Rua do Brasil. Difícil por quê? Porque vai impactar o trânsito de automóvel. É por isso.»

Carlos Pinheiro, @coimbra_futuro.possivel

São cenas assim que levam Carlos Pinheiro a seguir idealizando futuros possíveis para Coimbra. «Quando ponho um passeio entre a estrada e a ciclovia, por exemplo, é um erro técnico. Não é a minha opinião. É um erro técnico! Quando se cruza ciclovia e passeio, é um erro técnico. Estamos a abandonar as pessoas no seu momento mais crítico. A CMC tem de mostrar quem tem a responsabilidade ali. Custa-me a ver essas coisas. Preciso de pôr cá fora. É um lavar da alma. Se tivesse um só seguidor do Coimbra Futuro Possível eu continuaria a fazer. Andar é a forma mais democrática de mobilidade que existe. Essa forma tem que ser sempre garantida», desabafa.

Orgulhoso de morar no Monte Formoso, João Mariano sabe que «o poder público é complicado», mas continua fazendo caminhadas diárias pela zona. «A gente grita muito, para os políticos, mas tem-se feito algumas coisitas», pondera. Para Manuel Cruz, «agora é a vez das freguesias», mas é preciso ir além, insistir em uma rede pedonal e ciclável. «Isso vai nos dar a todos mais dignidade e consideração social».

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