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O The Living Room é a nova sala de estar da cidade

Abriu portas numa antiga mercearia e é um misto de hotel, café e ludoteca, onde as crianças têm tanto espaço como os adultos e a boa vizinhança e vontade de unir a comunidade são a alma do negócio.

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Fotografia: Mário Canelas

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«Há um restaurante no Texas que serve hambúrgueres e tem um terreno atrás, sem nada. Os pais já sabem que têm de levar uma bola ou qualquer coisa para as crianças brincarem, enquanto ficam a comer e a beber», diz Cristi Gerecke, enquanto tira um café. «As crianças passam ali horas só a correr e a brincar, e a minha mãe dizia: Se tivessem um sítio assim lá em Coimbra é que era! E eu dei-me conta de que não havia mesmo, não aqui no centro», continua, detrás do balcão.

Estamos no The Living Room, o café que nasceu no espaço da antiga Mercearia Morais, na Avenida Dias da Silva, em Coimbra. Quase como uma obra do destino, como conta emocionado o casal americano Cristi e Michael Gerecke, que depois de anos a organizar festas em casa quis oferecer à cidade um espaço descontraído de encontro e construção de comunidade que transpira inclusão e diversidade, sobretudo para com os mais novos. Há brinquedos, casas de bonecas, jogos e até uma sanita para os mais baixinhos. Além de espaço, muito espaço para brincar, com os pais ou enquanto eles desfrutam uma bebida e um snack.



Mal entrámos, reparámos que o chão é o original e quase tudo é verde, bege ou noutras cores mas sempre em tom pastel. Há vários vasos com plantas, alguns em forma de botinhas texanas e objectos antigos recuperados que, soubemos depois, foram oferecidos por amigos e clientes habituais. Um desses objectos é um móvel que serve de estante à entrada, onde estão produtos, frascos gratuitos e merchandising para quem, literalmente, quiser vestir a camisola do espaço. «Estava apaixonada por esta estante, mas era cara. Comentei com o meu grupo de amigas e uma delas foi comprar e ofereceu. Eu disse que não era preciso mas ela respondeu: Eu queria. Também temos livros doados pela mulher de um vizinho que é actor de teatro, por exemplo. É muito bom.»

Mas como é que este espaço aconteceu? Em cinco minutos. «Vivemos sempre aqui no bairro, em casas diferentes, e todos os nossos filhos quatro filhos andaram nesta escola, a «Azulinha» [Escola Básica 1 dos Olivais]. Passávamos sempre aqui junto a este prédio, que estava abandonado, e começámos a falar com os vizinhos mais idosos, que contam sempre que faziam aqui compras na mercearia. Pesquisámos na internet e em agências, mas não havia referências. Procurámos outros sítios mas um dia, quando voltava do supermercado, vi a porta entreaberta, espreitei, e estava uma senhora idosa. Perguntei se a casa era dela e disse que gostava imenso; ela começou a dizer que tinham decidido pôr a casa à venda e eu disse logo: Eu quero! Eu quero! Como uma parva, sem saber preço nem condições», conta Cristi Gerecke.

Conforto e disponibilidade

«É normal ter um café com sofás nos Estados Unidos, com conforto, faz parte da cultura», conta Michael. São 10h30 da manhã e ainda não há clientes. «Nesta parte da entrada queríamos recriar o lobby de um hotel, para as pessoas se sentirem bem recebidas e bem-vindas; o resto foi as mesas compridas e a disposição, fi-las para forçar as pessoas a estarem juntas. Têm de estar juntas e estar em comunidade. Se não quiserem isso, não estão no sítio certo. Entregamos a missão até aos móveis», atira Michael, sempre a sorrir.

O americano de Santo António conheceu Cristi, de Houston, na universidade. Um olhar na cantina bastou – «foi super romântico» – e estão juntos desde então, há 22 anos. Chegaram a Coimbra em 2010, enviados pelo International Mission Board, uma organização evangélica que promove a dinamização das igrejas e o envolvimento com a comunidade. «Não sabíamos nada de Portugal, nem tínhamos qualquer expectativa. Chegámos com o mindset de aprender como era. Vendemos tudo: a casa, os carros, chegámos cá só com as malas na mão. A nossa empresa tinha gente em Lisboa mas não conhecíamos ninguém, nem aqui», explicam. Pouco a pouco, foram conhecendo vizinhos e pais de amigos dos filhos hoje com 18, 17, 14 e (surpresa!) 7 anos.  

«O meu som preferido é quando uma criança entra – porque esta parte está escondida – e faz: “Ah!”. Para mim é uma alegria, não estava acostumada a ter um espaço só para elas. As mães adoram a sanita para crianças também», comenta Cristi, enquanto nos faz uma pequena tour. Perguntamos se são só as mães e ela responde que, na verdade, até são os pais os primeiros a entrar. Confessa, no entanto, que acha que «os americanos são muito mais relaxados». «Os portugueses até dizem “mãe galinha”, andam muito em cima das crianças. Nós somos mais de estar aqui e está tudo bem se eles estão ali. Os miúdos podem brincar sem estarmos sempre em cima deles», nota.

A missão é a alma do negócio

«Somos crentes então a nossa fé faz parte de tudo o que nós fazemos, mas foi o trabalho inicial que nos fez pensar o que é que a comunidade precisa», diz Michael. «Os portugueses precisam um pouco de ajuda às vezes para conviverem. Depois de algum tempo, o espaço começou a ser pequeno para os nossos convívios, saímos da empresa e pensámos arriscar e tentar este negócio», continua.  

Michael diz que o facto de tanto ele como a mulher serem estrangeiros é uma vantagem, que lhes dá o poder de serem observadores em ambos os países – o de origem e o de residência. «Conseguimos ver coisas que quem está cá assume como normais, e que de facto cá são normais, mas são diferentes de muitos outros sítios.» Depois de três anos de obras, o The Living Room abriu portas em Junho e, passados poucos dias, já havia estudantes a instalarem-se regularmente para estudar. Como Kuno, que é coreana e acabou de se sentar numa das mesas mais escondidas. Entrou este ano na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, ao fundo da rua, e vem com regularidade por ser um sítio diferente, acolhedor e perto de casa.

Para comer e beber

Michael Gerecke admite: «os Erasmus percebem melhor o espaço». O americano conta que os portugueses têm mais tendência a criticar, sobretudo quando o assunto é o menu. «Temos uma avó portuguesa que diz que as pessoas na rua dizem que não temos muita oferta. Eu respondo que as pessoas não sabem se temos oferta ou não, porque elas não vêm cá. As pessoas apontam o que não temos, mas isto não tem de ser igual a todos os outros sítios. Se querem outras coisas, podem ir aos outros sítios. Eu não sou portuguesa e não quero competir», atira Cristi, mas ressalva logo que também há o reverso da medalha: «há clientes mulheres que vão ganhar 10 quilos! Eu já disse: “Calma meninas!”. Mas elas vêm cá todos os dias», atira. 

Cristi lembra-se do primeiro review do The Living Room no Google. Foi de um português e na última frase dizia: “Até os preços são acessíveis para os portugueses”.» Bagels, brownies e donuts com diferentes sabores e recheios – como banana, pepitas de chocolate, limão e canela -, gelados, salgados, o espaço até tem «o melhor café da cidade», brinca Michael.

O empresário conta que os fornecedores são portugueses e o esforço é mesmo o de vender produtos nacionais, combinados com receitas texanas. «Tentamos fazer tudo com excelência em termos de conforto, espaço mas também bons produtos. Temos as coisas que nós gostamos de petiscar. Qualquer americano goza com os texanos, mas temos muito orgulho no nosso país e, obviamente, este espaço tem coisas do Texas, mas queríamos criar também orgulho daqui, de Coimbra, de Portugal. Fazem coisas lindas! A loiça também, não podia ser feita na China. O país tem muito para oferecer.»

Negócio «mas com uma missão, um propósito maior do que o lucro», o The Living Room está aberto de terça a sexta-feira, das 10h às 18h30, pode ser arrendado para festas e não têm de se preocupar com o barulho (dentro do razoável) porque são o casal e os filhos que moram no andar de cima. Nas traseiras, há mesas, cadeiras, um baloiço redondo e uma estrutura de escalada para os miúdos. Também há jogos para outras idades e caixas com perguntas para fazer conversa. Das festas Back to School, Halloween, Taco Tuesday e Thank’s Giving que faziam em casa, passaram a experimentar serões de jogos como Bingo, cinema ao ar livre e Book Club (Clube de Leitura).

«Sempre dizemos: isto não é só nosso. Então, quando as pessoas partilham ideias dizemos: Podemos tentar. Perguntei às pessoas online o que queriam fazer e algumas sugeriram o Bingo. Foi tão giro, houve muitas famílias a aparecer, não estava nada à espera, por isso vamos repetir.» Cristi e Michael dizem que tem sido bonito ver que o espaço agrada a todas as idades e têm noção de que «em Coimbra tudo passa a palavra, sabemos que funciona assim, que é lento mas está a correr bem. Assim temos tempo para conhecer as pessoas, saber o nome delas e criar uma ligação. É uma oportunidade.» Recentemente, numa noite de jogos, um casal que visitava o espaço pela primeira vez disse que tinha sido sugerido durante o Speed Meeting da Coimbra Coolectiva. «Alguém lá falou do nosso espaço e é isto, Coimbra é assim, todos apoiam uns aos outros», afirma Cristi.  

Integração e boa vizinhança

Michael recorda que o foco do casal sempre foi integrar-se na cultura portuguesa e não nega a impressão de que, nos últimos anos, mais americanos se mudaram para Portugal e Coimbra em particular. «Normalmente é para Lisboa ou Porto, mas Coimbra finalmente está a atrair e pode ser uma coisa boa. Acho que a cidade precisa de mais influências de fora, sempre ajuda a ter uma perspectiva diferente, mas depende também da mentalidade das pessoas. Eles vêm cá ver, mas se têm vontade de submeter a cultura deles, é impossível. Se têm vontade de aprender a língua, melhor. Mas há americanos com arrogância, que sabem que vão entrar nas lojas e as pessoas vão falar inglês com elas, têm dinheiro, mas só vão perder uma oportunidade de influenciar e ajudar o mercado.»

Michael e Cristi Gerecke contaram com o apoio de particulares para financiar as obras do The Living Room, através de uma campanha de crowdfunding na plataforma GoFundMe. Reuniram mais de 20 mil euros através de mais de uma centena de doações para criarem, como se lê no manifesto, «uma coisa que falta nesta cidade de 150 mil habitantes», que é «um local adequado para as famílias se reunirem e passarem tempo juntas» e «ajudar a unir a cidade».

O sonho de criar uma sala de estar para Coimbra (a tradução do nome do espaço para português, que também pode significar sítio para ser ou viver), realizou-se. «É preciso não ter vergonha de pedir. Acho que os portugueses têm. O próprio “obrigada” quando alguém dá alguma coisa, tu sentes-te “obrigada”; nós não temos vergonha de aceitar ajuda, como não temos problemas em oferecer ajuda.»

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