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Opinião | Sem saber, aderi ao «plogging» antes de ele existir

Por Cristina Rufino

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Fotografia: Cristina Rufino

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No final dos anos 80, lembro-me perfeitamente do dia em que deitei um papel para o chão e uma colega do 8º ano, a Maria João, o ter apanhado e me dizer: «Imagina que todos fizessem isso. Gostarias de viver num mundo assim?» Estas palavras tocaram-me tão profundamente que, depois disso, nunca mais deitei lixo para o chão. Eu não queria (quero) viver num mundo cheio de lixo! Quero olhar em meu redor e usufruir de uma paisagem limpa, com zonas verdes inseridas no meio urbano onde se possa viver ao máximo.

Para além de não deitar lixo para o chão, comecei a recolher lixo do chão (nas ruas, nas praias onde ia passar férias, onde conseguia e tinha disponibilidade para tal). Antes de haver ecopontos, em 1994, já havia (alguns) vidrões e em Coimbra havia, pelo menos, um local para colocar papel. Mas em Santarém, a minha terra natal, havia na rodoviária nacional um compressor de latas e que até dava pontos! Durante a semana, eu andava pelas ruas de Coimbra a recolher latas e juntava-as num saco do lixo enorme e ao fim de semana levava o saco com as latas para Santarém…. Chamavam-me doidinha… Talvez tivessem razão…

Entretanto, surgiram os Ecopontos e já era escusado ter esse trabalho todo. Continuava a recolher lixo das ruas durante as minhas caminhadas, mas comecei a depositá-lo nos ecopontos da cidade. Sem saber, aderi ao plogging antes de ele existir. O plogging surgiu na Suécia, em 2016, e é uma mistura do termo jogging, com o verbo sueco plocka upp (apanhar). É uma prática desportiva em que se leva um saco (mochila ou saco do lixo) para «apanhar» lixo, fazendo pequenas passadas como para o jogging, no meu caso, passadas de caminhada e muitos agachamentos pelo meio.

Felizmente, são cada vez menos as pessoas que deitam lixo para as ruas mas, no que toca às beatas, a história é diferente. Não sei porquê! Talvez o façam sem pensar, talvez pensem que as beatas não são lixo! Não sei, mas a verdade é que é lixo e é bastante prejudicial. E tudo o que se deita para o chão, mesmo em Coimbra, acaba, muitas vezes por ir para o mar. Pensem nisso! Ultimamente, tenho arranjado uns dias para recolher as beatas que encontro nos caminhos que costumo passar todos os dias. É incrível, mas alguns fumadores conseguem encher locais de paragem de pessoas com centenas e até milhares de beatas numa semana.

Durante um dia, limpei uma rua, em plena Alta de Coimbra, zona da Universidade, até à última beata. Na semana seguinte, passei por lá e, por incrível que pareça, o local estava igual ou pior do que eu tinha encontrado anteriormente. Fiquei triste e pensei: «Não estou a ir à raiz do problema! O que tenho (temos) de fazer é educar, sensibilizar as pessoas para este problema, sem isso, nada mudará!» No início de Abril, estive numa reunião da Bioliving, que é uma associação sem fins lucrativos alicerçada no lema «Natureza e Educação para Todos», que tem como objectivo essencialmente demonstrar que a natureza é de todos e para todos.

Apresentaram os seus vários projectos e, para meu agrado, falaram de um chamado #SemFiltros, criado em 2018, com o intuito de sensibilizar a comunidade para os impactos ambientais do descarte inapropriado dos filtros de cigarro. Os filtros de cigarros recolhidos nas nossas acções têm como destino o Laboratório da Paisagem, situado em Guimarães, onde são valorizados no âmbito do seu projeto E-Tijolo, para a produção de tijolos para construção. Ia precisamente ao encontro daquilo que queria para resolver o problema das beatas no chão em Coimbra, em Portugal e no mundo. Ficámos
em contacto e fiquei incumbida de arranjar parceiros na Universidade de Coimbra para implementar o projecto e sensibilizar a comunidade para evitar deitar as beatas para o chão.

Que alegria! Neste momento várias entidades da Universidade de Coimbra já se mostraram interessadas em participar, incluindo: o NEB/AAC Núcleo de Estudantes de Biologia, a Associação Académica de Coimbra, o GE/AAC – Grupo Ecológico, o iiiUC- Instituto de Investigação Interdisciplinar, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e o CEF – Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet. Em Setembro, vão decorrer várias actividades de sensibilização desta temática e recolhas de lixo e de filtros para este projecto. Para além disso, também se pode participar em diversas iniciativas ao longo do ano, como o Dia da Terra (22 de Abril), o Dia Mundial do Ambiente (5 de Junho) e proximamente o Dia Internacional de Limpeza Costeira (18 de Setembro). Ou mesmo começar a praticar plogging, quem sabe.

Estejam atentos e participem! Não existe um Planeta B. Este é o planeta de todos e devemos protegê-lo para vivermos em plena harmonia com os outros e com o meio que nos rodeia.

fbt


Cristina Rufino nasceu em Santarém e vive em Coimbra. É Licenciada em Biologia, com o estágio em Educação Ambiental e Mestre em Ecologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. É técnica superior no Museu da Ciência da mesma Universidade, responsável pela colecção de
Zoologia. Participou em vários projetos de investigação sobre Biodiversidade e História da Ciência e é voluntária em várias associações de cariz social, cultural e ambiental. É uma apaixonada pela Natureza e por caminhadas. Adora, em especial, gatos e insectos e faz coleção de fotografias de corações que vai encontrando no seu caminho.

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