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Há um colectivo em Coimbra que cria alternativas à praxe

Conversámos com a organização do Cria'ctividade, que é um projecto 100% voluntário de acolhimento aos novos estudantes universitários, que não quer fazer braço de ferro mas rompe com a ideia de que para fazer parte é obrigatório participar na chamada tradição académica.

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Fotografia: Mário Canelas, @cria.ctividade

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A praxe académica sempre foi vista por muita gente como uma grande forma de integração estudantil. Depois de um período de subordinação aos «doutores» e à tradição, os novos estudantes sentem-se parte de uma família maior, pela qual gritam e cantam. Por consequência, quem não frequenta a praxe, está destinado à exclusão e à marginalização. Mas será mesmo assim?

O Cria’ctividade, projeto alternativo à praxe, não é um coletivo radical, nem tampouco quer ocupar o espaço da praxe académica. Nas palavras de Benny, um dos porta-vozes do Cria, como gosta de apelidar, o grupo não pode nem deve deixar de ser um projeto dissidente, porque «aí passava a ser oposição».

Roteiros pela cidade, palestras sobre temas internacionais, karaoke, conversas sobre sexualidade e uso de substâncias, contacto com repúblicas, festas, jantares comunitários, foi disto que foi feita a 9.ª edição, entre 19 de Setembro e 4 de Outubro. «Uma solução para todos os estudantes de Coimbra que não se identificam com a praxe» e que procuram outras soluções para se aproximarem dos seus colegas, dos conimbricenses e da cidade. Através de actividades culturais, sociais e artísticas ao longo das primeiras semanas de aulas, promove-se uma «integração diferente» na cidade.

Hugo Gageiro, membro sénior da organização do Cria, recusa a ideia de que o projecto contribui para a continuação da narrativa «nós contra eles». Pelo contrário. Na sua visão, o projeto faz aquilo que a praxe tenta fazer mas, por vezes, sem sucesso: ser uma força verdadeiramente inclusiva de todos os estudantes, não olhando a ascendência, social, financeira, política ou ideológica. «Não falta nada na praxe para ser integradora, há pessoas que simplesmente não querem fazer parte», indica Hugo, ao afirmar que ambas as opções visam, em última instância, a integração, de pontos de vista distintos.

A praxe académica consiste num conjunto de regras, costumes e práticas que governam as relações académicas entre alunos de uma instituição de ensino superior, baseado numa relação hierárquica. Não sendo uma alternativa anti-praxe, a estrutura informal montada à volta do Cria’ctividade é aberta e agradece o envolvimento de toda a comunidade estudantil e não-estudantil. São vastos os exemplos em que os dois universos convergiram pela causa da integração, desde os concertos de tertúlias femininas de direito ao próprio debate regular sobre a praxe, que envolve membros de toda a comunidade académica, ou ainda as visitas guiadas às repúblicas, que não são um mero elemento no meio da equação criativa.

As repúblicas foram um fator fundamental para a criação, desenvolvimento e estabelecimento deste outro caminho. Hugo Gageiro conta que «muita da luta estudantil e da vivência alternativa Coimbrã vem das repúblicas» e que elas sempre foram locais de debate crítico sobre a praxe, onde já se falavam de alternativas à forma de integração tradicional. O Cria’ctividade nasce num ambiente em a cultura de alternativa já estava «internalizada» e normalizada.

Recursos humanos e financeiros

O Cria é a prova física de que a vontade humana é mais poderosa que os recursos monetários. Sem  financiamento ou apoio camarário, Hugo Gageiro admite que a classificação do grupo enquanto coletivo não ajuda a arrecadar fundos. «Os coletivos não têm jurisdição, então não conseguimos receber fundos de apoio à cultura», rematam os membros da organização do projeto, que ainda não conseguiu encontrar estabilidade de recursos humanos para montar uma associação com maior presença na comunidade.

Por enquanto, acontece com recurso ao voluntariado de estudantes e ao patrocínio de alguns pequenos negócios da cidade de Coimbra. Benny Correia refere mesmo que a força motriz de todas as edições do é o corpo estudantil de antigas edições que, ao sentir-se tão bem recebido em todas as atividades culturais, decide ajudar na integração dos recém-chegados.

Recentemente, a ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apelou aos estudantes e dirigentes do ensino superior de todo o país para iniciarem o novo ano lectivo com «um ambiente académico inclusivo, inspirador e seguro», repudiando as praxes. Numa carta enviada a dirigentes de associações e federações de estudantes e aos dirigentes das instituições de ensino superior, Elvira Fortunato disse que queria «garantir a defesa desse ambiente académico positivo, que esteja alinhado com os princípios da liberdade, da tolerância e da solidariedade. É por isso que a recepção e a integração de novos estudantes não podem assentar em práticas de integração humilhantes e abusivas».

A ministra disse que ia manter a linha de apoio para reportar praxes abusivas, que funciona por telefone (número 213 126 111) ou por email (praxesabusivas@dges.gov.pt) e anunciou para breve o lançamento de «apoios à realização de actividades alternativas às praxes académicas», com destaque nas áreas do desporto, na ciência e na cultura e que deverão prolongar-se por todo o ano. Hugo Gageiro garante que o Cria estará sempre «na frente da discussão» quanto à cedência de verbas para projetos desta índole e aguarda o contacto por parte dos organismos oficiais que tenham interesse em «ajudar ou saber mais».

E depois de 4 de Outubro?

Quem veja o folheto informativo das atividades do Cria, pensa: «E depois de dia 4?». Benny diz que o «próximo passo é fazer com que esta integração não seja algo pontual, mas ao longo do tempo». Aquilo que o motiva? Criar «uma prática que se faz com trabalho, tempo, energia e acima de tudo, entreajuda».

Quanto à criação de uma organização formal, Hugo Gageiro afirma que é algo que está a ser equacionado, mas que ainda não avançou por conta da impossibilidade de manter uma estrutura coesa durante algumas edições. «Para ser uma associação, tens de dar garantias que as pessoas ficam durante muito tempo», atira, em tom de conclusão mas optimista com o futuro da integração académica naquela que, afinal, é conhecida como «cidade dos estudantes».

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