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Nova rubrica satírica e gastronómica quinzenal assinada por O Tatonas.

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Fotografia: Mário Canelas

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Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.

Não me esperavam ver por este tasco com estes preparos, verdade?

Mas a vida dá voltas e voltas e por vezes temos de dar um passo atrás para depois dar dois em frente. Hélas!

Estarei por aqui quinzenalmente, acompanhado de abundantes refeições que convosco partilharei enquanto serpenteamos um pouco por assuntos prementes das últimas semanas. Que vos agrade esta aventura em igual proporção da bovídea torre.

Fazemo-nos à estrada pelo politicamente adiado IP3, se bem que o trajeto pela Estrada da Beira também poder ser alternativa. O destino: Restaurante Vimieiro – Food, Drinks and Friends. Nome que poderia ter sido retirado de uma qualquer Entidade de Utilidade Pública cá do burgo, n’est-ce pas? O caminho faz-se bem e em 40 minutos estamos em plena Praia Fluvial do Vimieiro, com um belo espelho de água, dotado de todas as comodidades para ali se passar uma bela tardada com ou sem criançada. Lá em cima, com privilegiada vista sobre aquele, encontra-se o garboso restaurante.

Com a primeira trinca nos crocantes camarões fritos, aquele som do quebradiço estalar faz-me recordar, além da coluna vertebral de alguns senhores da nossa praça, aquele som distante que todos ouvimos, num determinado momento, algures sempre pairando sobre a cidade – conforme lhe dá o vento – e que nos sussurra incessantemente na vidraça do quarto fazendo-a até, por vezes, estremecer. Falo da bela festa da Latada e dos seus “concertos”. Ah, a bela música Generation Z a uivar-nos às portas, o incessante barulho dos histriónicos imberbes rastejando sobre a calçada, a cidade-mictório. Oh, sintam o aroma…

Só por isso, aqui vai um generoso gole de Ramos Pinto tinto acompanhado de mais um belo camarãozinho ao piri-piri. Desafortunados aqueles que não estudam.

Sigo degustando a bela Batata Vimieiro com Molho de Queijo, Presunto e Cebola Frita, uma inteira e luxuriosa narrativa explicativa de um ataque do miocárdio. Haverá lá melhor? Só sendo estudante em plena Latada! Como não há bela sem senão e da mesma forma que um estádio que recebe Rolling Stones terá, no mesmo recinto que ouviu ecoar no seu concreto o Sympathy for the Devil, obrigatoriamente de abrir fissuras aos primeiros acordes de Yellow.

Coldplay chegou e à nossa mesa chega também o cold plate, não por ser frio mas antes desinteressante: o Pica-Pau de Novilho com Três Mostardas. Irrelevante, tal qual como aquela banda ficará na história da música e os 200 mil que a acompanhará em Maio. Mas, como se costuma dizer, o melhor fica sempre para o fim – temo sempre que esta expressão seja o mote orientador dos autarcas coimbrinhas – e, caríssimos, utilizando as palavras de Anthony Burgess: Oh, it was gorgeousness and gorgeosity made flesh.

Neste caso, bacalhau (fresco, meus senhores e minhas senhoras, fresco). Eu, que nem nutro especial apreço por peixe marinho demersal da família dos gadídeos, devo confessar que este é daqueles pratos que valem a viagem. O nome é mais extenso que uma fatura na Quina Lopez: Bacalhau Vimieiro com Batata Gratinada, Cebola Caramelizada, Ovo BT (para os ignorantes, é baixa temperatura), e Molho Pil Pil (que é como quem diz piripiri, mas com sotaque afetado, ali da Quinta São Jerónimo).

Eu podia tecer os maiores louvores, as mais adjetivadas loas e um discurso repleto de rasgados encómios que nunca lhe iria fazer justiça. Uma bela posta que se desfaz à colher, com a finíssima batata gratinada a cobrir o retângulo superior, buscando a crocância que o alvo bacalhau irá desfazer, ladeado de uma suculenta espuma e um ovo que verte, enchendo o prato. Isto não é um prato, isto é um grito orgásmico.

Ir ao Vimieiro e não escolher o Bacalhau é como ir a Coimbra e desprezar a Torre. Fechamos, da mesma forma que os Gypsy Kings encerrarão este ano de 2022 algures na Baixa coimbrã, com muito ritmo e desaforo, com um vertiginoso Bolo Cremoso de Chocolate, Crocante de Amendoim e Mousse de Frutos Vermelhos. Tal como os plátanos da Lusa Atenas também esta sobremesa estava lá e no outro instante já não estava. É este o melhor elogio que lhe podemos fazer, ao contrário dos plátanos. Se entrarem no IP3 ou na Estrada da Beira, façam questão de percorrer 40km e se deslumbrarem com este espaço!

Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.

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