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D. Dinis: por uma escola «sem muros» e com um currículo indisciplinador

A Escola Secundária D. Dinis não é apenas mais uma instituição de ensino. Organismo vivo, lá dentro afeto é verbo conjugado por seu multiverso de 500 alunos e 70 professores e funcionários, onde se é artista por se ser pessoa.

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Fotografia: Mário Canelas

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«Nós somos a melhor escola do mundo, mas só nós é que sabemos». A autora da frase foi a professora Lurdes Santos. Sua voz não ecoa mais no prédio da Pedrulha. Mas está, para sempre, imortalizada, e é lembrada quotidianamente, pois para honrar seu trabalho, sua memória e seu amor pela educação, seu nome foi dado ao auditório da Escola Secundária com 3° Ciclo D. Dinis.

Para quem vê do lado de fora, a escola localizada na Estrada de Eiras, fundada em 1985, é apenas mais uma instituição de ensino. Mas basta cruzar os portões laterais da D. Dinis para perceber na prática o que o educador brasileiro Rubem Alves sempre defendeu: não existe ensino, existe aprendizagem.

Na D. Dinis, a premissa do também escritor, psicanalista e teólogo encontra ressonância prática: o que a equipe de 70 professores trabalha com os 510 alunos é a «construção de uma comunidade de aprendizagem», como ressalta Teresa Sá, coordenadora do Projeto Cultural de Escola (PCE) e professora há mais de 40 anos. Pode-se dizer de outra forma: «Não focar no binómio professor e aluno», como diz a professora de Educação Visual Maria do Carmo Almeida, também conhecida como Miká, no circuito das artes por ser ela uma artista plástica.

Inspiradas pelo educador Paulo Freire, pelo diretor de teatro e dramaturgo Augusto Boal («somos Boalinas») e pela arte-educadora Ana Mae Barbosa, Teresa e Miká são adeptas do «se não sei, quero saber». Para elas, a criatividade é necessária em qualquer área e é preciso «indisciplinar a escola», a qual precisa estar sempre atenta aos desafios da comunidade, que, por sua vez, também precisa perceber os desafios da escola, que é um organismo vivo.

Sob esta perspetiva nasceu o Projeto Cultural de Escola. Na verdade, é mais do que um projeto: “É um chapéu que abriga e distribui uma dinâmica que abraçamos: a do Plano Nacional das Artes (PNA)», ressalta a coordenadora PCE-PNA. Instituído em 2019, o PNA tem por missão «promover a transformação social, mobilizando o poder educativo das artes e do património na vida dos cidadãos: para todos e com cada um».

O que coaduna com o pensamento da coordenadora, que entende que a expressão «escola cultural é um pleonasmo». Usando esta mesma linha raciocínio, pode-se dizer que uma instituição de ensino murada é um oximoro. Daí o manifesto da Dom Dinis: «Por uma escola sem muros. Por salas de aula sem paredes. Por um currículo indisciplinar, indisciplinado, indisciplinador. Por uma educação poética que alimente e desenvolva a curiosidade que é inerente à pessoa e favoreça o desenvolvimento de seres em relação, movimento e mudança». Ingredientes que fazem com que a escola seja, como Teresa ressalta, lugar de fala dos alunos, muitos deles vindos das franjas sociais. Sua multiculturalidade é resultado da presença de jovens dos quatro cantos do mundo, com distintas capacidades de aprendizagem, com diferentes padrões neuro-normativos e diversificados backgrounds.

Os professores da D. Dinis entendem que «arte é um direito humano», e, como tal, deve ser usada para questionar, além de ser instrumento de humanização. Mais do que multidisciplinar, a educação tem que ser transdisciplinar, para incentivar junto aos alunos o pensamento de «existir como são e não como deveriam ser». Mas que não se pense que a D. Dinis é «apenas» uma escola de artes. Na verdade, é o «PNA com Tech», como diz a coordenadora.

Além das 12 turmas do Ensino e oito do Ensino Secundário Regular, conta com nove turmas de cursos de formação profissional, cujos alunos participam de oito programa do Erasmus+, programa europeu que apoia a educação e formação de docentes e discentes. Este ano, quase 100 alunos e mais de 20 professores participam de eventos como programação robótica, conceitos científicos na produção de energia sustentável, programação de jogos educativos. Não só a escola mandou alunos e professores para Itália Roménia, Turquia, como também recebe seus pares de outros países europeus.

Na D. Dinis, a tecnologia é considerada uma grande aliada da educação. Entre os projetos há o BE@Games, dos alunos do curso profissional técnico de Informática e Sistemas, em parceria com a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, da Universidade de Coimbra, e com o Instituto de Engenharia de Coimbra (ISEC). Tem ainda o Clube de Programação e Robótica, mais conhecido como DDRobotic, com cerca de 60 alunos. Na área das Letras, a D. Dinis conta também com o Clube de Jornalismo, responsável pela publicação da Post Scriptum, a revista da escola feita por e para os alunos da escola.

Se a D. Dinis é «uma escola sem muros, mas com arte dentro», como disse Teresa, tem também aprendizagens sobre habilidades às quais pouco – ou nada – se dá atenção. A partir dos 14 anos, os alunos têm aulas, uma vez por semana, sobre como executar atividades da vida diária, como coser, cozinhar, lavar loiças, entre outras. São os jovens que definem a ementa e a preparam, sob a supervisão da professora Teresa São Miguel. No dia que estivemos lá, o prato foi sopa de abóbora assada com amêndoas. Mais uma ação de educação para o consumo consciente.

Por entender a escola como um projeto social, durante a pandemia, a D. Dinis ajudou em torno de 150 famílias, com cabazes semanais e atenta à pobreza menstrual – ou seja, disponibilizando artigos de higiene íntima feminina. Mais uma ação de educação cidadã. Para Teresa, um dos objetivos da D. Dinis é transformar a comunidade, localizada na «geografia da exclusão», em coautora de atividades e práticas cotidianas contínuas e dialógicas junto com a escola.

Juntas para tornar realidade o que Sophia de Mello Breyner Andresen ensinou-nos: «cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades. A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça».

Passamos quase três horas na D. Dinis. Percorremos vários corredores, entramos em muitas salas. Não deu para ver tudo, como, por exemplo, o ginásio polidesportivo. Mas foi perfeitamente percetível que há algo parecido com encantamento comum a todos naquele prédio da Estrada de Eiras. Talvez esteja relacionado com o fato de uma palavra pouco popular – e menos ainda em ambiente escolar – ser mencionada várias vezes. «A escola é muito temperada por afeto», «onde há desafios criam-se afetos», «o afeto tece a comunidade».

Além da palavra afeto, há um outro elemento que deve contribuir para o encantamento que paira na escola. É a mágica. Mas não aquela que faz sumir coisas e que usa ilusões visuais para ludibriar. Faz exatamente o oposto: resgata, descobre e revela, sem nenhuma artimanha enganosa. «A Mágica Dinis mais não é que uma dinâmica que prioriza as pessoas e as faz acreditar que são capazes. Não somos uma escola de artes, mas de artistas porque pessoas», como resume Teresa Sá. Não é de estranhar, portanto, a citação da professora Lurdes afixada à entrada do auditório.

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