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Se trabalharam na Coimbra Editora

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Catálogo 232° Celsius

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Livro e filmes Fahrenheit 451

A antiga Coimbra Editora ganha vida este fim-de-semana e a visita é especial para quem lá tiver trabalhado

Os Pescada N.º5 dão-nos a oportunidade única de entrar e descobrir o emblemático edifício devoluto, que vai ser reabilitado pela empresa Critical Software. E nós gostávamos de ver antigos habitantes por lá.

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Fotografia: Mário Canelas

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Catálogo 232° Celsius

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Livro e filmes Fahrenheit 451

Num Estado totalitário no futuro próximo, «bombeiros» têm como função principal queimar qualquer tipo de material impresso, porque foi instituído que a literatura provoca infelicidade. O romance distópico Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, não só é um clássico da ficção científica contra a censura, como a descrição de uma sociedade antevista que Carlos Júlio afirma que, de alguma forma, se está a tornar realidade. Foi dele que aquele que é um dos principais impulsionares do colectivo Pescada N.º5 (P5) se lembrou quando pensou ocupar a antiga sede da Coimbra Editora com intervenções artísticas: «um sítio onde se faziam livros que foi comprado por uma tecnológica.»

Estamos à porta, mesmo debaixo do letreiro em azulejo. Carlos Júlio aponta para os edifícios em volta e atira: «Aqui eram só laranjais, ali era uma fábrica têxtil e aqui também». Entramos no edifício datado de 1937, construído para acomodar as instalações da empresa fundada em 1920 por um grupo de professores universitários e livreiros, na antiga zona de areais – daí o nome Rua do Arnado. Na altura, o corte da Avenida Fernão Magalhães alterara totalmente a malha urbana da cidade. A zona ligava a beira rio, ou melhor o Porto de Santa Justa, à chamada Baixinha. A vizinhança estava repleta das principais oficinas tradicionais de Coimbra como carpintarias, serrações, chapelarias, tanoarias, actividades ligadas à niquelagem e a famosa indústria cerâmica local.

O edifício, que fica dentro da zona histórica, fechou portas depois de 95 anos de existência e foi recentemente comprado pela empresa Critical Software, que ainda não avançou com a aguardada requalificação dos cerca de 4 500 metros quadrados repletos de história e um encanto que transborda pelas dezenas de janelas e frestas. Mas, já dizia John Lennon: «a vida é o que acontece quando se está ocupado a fazer outros planos».

232° Celsius

Depois de mais um «sábado comunista», que é como chamam aos dias de limpezas, o P5 frequenta o edifício e prepara, um por todos e todos por um, as propostas e os espaços a intervir. São 70 participantes e faltam poucos dias para a exposição que tem a duração de um fósforo: menos de 48h. «O gozo mesmo é o a preparação», confessa Carlos Júlio, sempre com um sorriso e uma energia quase infantis. «É como um casamento, depois acontece tudo muito rápido mas, ao mesmo tempo, também é uma grande escola», completa Inês Moura, que se junta à conversa com Adolfo Caboclo. Ocupam-se de tudo um pouco e notam que a limpeza também faz parte do processo – não se encontrassem gavetas com inúmeros tipos de madeira antigos, chapas e outras «relíquias» que era inevitável capitalizar. Salvo seja.

Nos dias 12 e 13 de Novembro, o P5 – que se recusa a dizer que é composto por artistas, mas antes pessoas que gostam de se manifestar artisticamente juntamente com alguns artistas – apresenta 232° Celsius. Mantendo a tradição da ocupação de espaços devolutos mais ou menos conhecidos com iniciativas únicas e fugazes, depois de Admirável Mundo Novo (2021) na Sociedade Porcelanas Coimbra e É Primavera no Paço no Paço dos Condes de Tentúgal (2022), é a vez dos antigos armazéns da Coimbra Editora, que estavam na mira de Carlos Júlio há mais de 15 anos. (Só) a Critical Software deu luz verde e carta branca para avançar e o processo começou a 27 de Setembro com a primeira reunião do grupo onde se incluem entidades como o Fikalab, a Tipografia Damasceno e a Oficina de Encadernação da Penitenciária de Coimbra.

O que é que acontece afinal? É distribuída uma folha de sala à entrada, onde são sugeridos percursos para visitar a exposição feita de forma totalmente «colaborativa, não institucionalizada e viva», nas palavras de Adolfo Caboclo. «No momento em que o Pescada faz este modelo de exposição temos a abertura de, por exemplo, faltando uma semana, ter a liberdade de fazer um tipo expo-gráfico como este; como estamos com um conceito muito bem amarrado, o diálogo com o Fahrenheit 451 e a própria história da editora, é muito interessante ver como um objecto esquecido mesmo assim está em harmonia com toda a narrativa que tínhamos proposto muito antes.»

«Isto também só acontece porque nós nos permitimos estar no espaço. As pessoas estarem, colaborarem e não estarem focadas no seu trabalho e só isso lhes interessar. Os “sábados comunistas” são momentos de integração em que nos conhecemos uns aos outros e aos espaços», nota Inês, que criou os catálogos que podem ser comprados no dia da exposição e que são uma extensão da mesma, relacionadas com a sua mensagem curatorial, que existe apesar da informalidade que o colectivo faz questão de manter.

«Em algum momento do segundo milênio, Johannes Gutemberg iniciou a Revolução da Imprensa. Neste instante, a palavra viva foi domada, deixando de apenas ecoar por cordas vocais ou bailar no nanquim do bico de uma pena, cristalizando-se assim no aço da chapa da indústria.

Com essa Revolução, a imprensa empacotou e distribuiu ideias entranhadas no papel e a humanidade começou a interpretar signos diante de um infinito castelo de páginas e capas. Os livros tornaram-se pensamentos revestidos de matéria. Porém, impressos também se tornaram sinônimos de poder.

A humanidade passou a imprimir capital financeiro em cédulas de papel e capital cultural em publicações editoriais e então, naturalmente, instituições e indivíduos dominantes foram instigados a imprimir um mundo que é reflexo de seus próprios anseios.

No Centro de Portugal esse cenário não foi diferente, pois no último século a Coimbra Editora realizou suas actividades de forma coerente com o seu tempo. Na margem do Mondego, milhares de títulos foram rodados até ao encerramento da empresa, em 2015. Acontece que, por acaso, em um passado relativamente recente, Portugal foi regido pelo Estado Novo e neste contexto histórico, sob a batuTa salazarista, a Editora exerceu a função de forjar a palavra impressa durante mais de quatro décadas de sua existência.»

Excerto da introdução do catálogo da exposição 232º Celsius, por Adolfo Caboclo

Ode à manualidade e ela própria uma composição a várias mãos, na Celsius 232 podem ouvir-se diferentes vozes a ler o conto Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges em várias línguas, conhecer um dicionário onde falta a palavra «futuro», descobrir várias posições de leitura, ver uma pessoa dizer um livro inteiro de cor, assistir às performances de Jorge Cabrera e Vanda ECM, ouvir a música de Gonçalo Parreirão, Gonçalo Barros e Estado Crítico, conhecer as propostas de Felipe Barbosa e Rosana Ricalde, José Crúzio, Sebastião Resende, Filipe Romão, Xana Eloy. José Geraldo há dias filmou uma performance com meia centena de voluntários a tentar memorizar uma página de um livro, assim como acontece na adaptação do livro ao cinema, o homónimo Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut.

Subimos ao primeiro andar. Luís Januário e Rita Serra dizem que se estão a relacionar com a ideia de desaparecimento dos livros. «Pedimos a pessoas que enviassem fotos das mesas de cabeceiras e outros sítios onde lêem e também temos um manifesto cujo tema é: “Ninguém lê nada”. Porque as pessoas hoje em dia lêem títulos, lêem 200 caracteres, essas coisas. Mesmo ali no manifesto, a partir da terceira frase, pode-se dizer o que se quiser porque ninguém vai ler. É um teste. E aqui nesta mesa vão estar livros importantes que ainda ninguém leu», revela Luís Januário.

O fotógrafo Vitorino Coragem também participa e, mesmo ao lado dele, expõe Teresa Valente, que encontramos a subir as escadas em direcção ao seu espaço reservado. «Passei aqui em frente muitas vezes quando ainda estava em funcionamento, trabalhava do outro lado da rua, mas nunca tinha entrado e é maravilhoso», conta. Bancária de profissão e fotógrafa amadora, há já alguns anos que participa nas iniciativas do P5 e diz que «é sempre um desafio. Gosto imenso. Não sou artista mas aqui há artistas e há um ponto em comum que é todos gostarmos de arte».

Os próprios Carlos Júlio e Inês Moura apresentam propostas. O Gabinete 30 de Carlos é inspirado num discurso de George Steiner e um espectáculo do encenador Tiago Rodrigues referentes ao Soneto 30, de William Shakespeare: «Quando no meu mudo e doce pensamento / Chamo à lembrança as coisas que passaram / Suspiro pelo que ontem fui buscar / Chorando o tempo já desperdiçado.» Muitos dos trabalhos de Inês começam por idas ao dicionário. E usa sempre o mesmo, Porto Editora, edição de 1984, ano do seu próprio nascimento há (quase exactamente) 38 anos. Na obra Mastigar Palavras decompõe e compõe algumas, manualmente, e o efeito é surpreendente.

Luísa Bebiano, arquitecta, diz que sem «clientes a pôr limites» entusiasma-a poder criar e fazer aquilo que o espaço e o tema pedem. Arquitecta, autora do projecto de requalificação da Cerâmica Antiga de Coimbra, explica que o edifício da Coimbra Editora «é construído com um conjunto de assemblagens de madeira e o que proponho fazer é mostrar como é que essas assemblagens, enquanto peças arquitectónicas, podem ser também esculturas ou uma obra de arte». Conta que a poesia do lugar ou poesia do vazio é algo muito particular de que se apercebeu muito durante a pandemia. «Conseguíamos olhar para os espaços vazios e imaginar as milhares de coisas que ali foram, mesmo que não tenham sido nada daquilo que imaginamos, às tantas transporta-nos para uma riqueza de uma coisa que nós não fazemos a mínima ideia se existiu ou não. É assim que eu vivencio isto.»

Coimbra Editora

Estamos quase de saída quando conhecemos Diogo Sanches, que conta que o bisavô trabalhou na Coimbra Editora. «Não sei muito, só sei que a minha avó contava que ele era o editor preferido do Miguel Torga e que vinha todos os dias trazer-lhe o almoço.» É uma entre tantas histórias que o edifício guarda e onde se sente o peso da memória em cada sala ou corredor. «Vamos tendo todas essas pessoas que cá estavam e não estão mais, mas que deixaram as suas marcas», diz Inês Moura apontando para os calendários, fotografias, desenhos e restos de decorações nas traves, onde antes centenas de pessoas manipulavam prensas e outros equipamentos de impressão e encadernação.

«Aquilo ali eram papéis que vinham aqui de trás, lá de cima vinham as chapas, era tudo trazido para aqui, empilhado, eram muitas mesas!», recorda Carlos Júlio. Extinta em 2020, ano em que completou o centenário, a Coimbra Editora deixou um importante legado em áreas académicas e científicas, além de estar ligada ao percurso de autores como Miguel Torga. A Livraria Lello, no Porto, adquiriu sete mil livros pertencentes a essa e à Gráfica de Coimbra. Mas e as memórias? O dia-a-dia, quem o pode contar?

Gostávamos de ouvir essas histórias na primeira pessoa. Se forem ou conhecerem pessoas que trabalharam no antigo edifício da Coimbra Editora enviem-nos email para geral@coolectiva.pt porque temos um presente. Quanto ao futuro, Carlos Júlio remata: «Em todos os sítios onde temos andado, todos sítios ao abandono, muito apelativos por motivos vários mas sempre grandes desafios, pela sua história ou pelo espaço em si, fica sempre em aberto o que é que vai ser o futuro. E eu não me atrevo a prever».

As portas do 232° Celsius, exposição do colectivo Pescada N.º5, abrem às 15 horas do dia 12 de Novembro até às 22h30, e depois de novo a partir das 15 horas e até às 18h de dia 13. São todos bem-vindos – «só os fascistas é que não».

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