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Quarto de despejo: Diário de uma favelada

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Lei relativa ao trabalho doméstico

Para fora da sombra: rostos do trabalho doméstico em Coimbra

Teresa, Pedro, Alexandrina e Fernanda contam os desafios e a persistência dos serviços domésticos na economia contemporânea. Ouvimos suas histórias e, através delas, descobrimos as singularidades desta profissão

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Fotografia: Mário Canelas

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No penúltimo sábado de outubro, o Teatro da Cerca de São Bernardo recebeu o espetáculo musical das «Batukadeiras Bandeirinhas Da Boba». Elas vieram de Lisboa, mais precisamente da Amadora, para cantar em Coimbra. A descrição do grupo anuncia que este é conjunto de mulheres cabo-verdianas empregadas domésticas que cantam para construir um espaço de cumplicidade e partilha através do batuque. «Um grupo só com empregadas domésticas? Não soube, se soubesse teria ido, queria ter visto» diz Maria Teresa Dias Soares, 70 anos, e que trabalha desde os 14: «Estive por 44 anos nos hospitais, antes era a Auxiliar de Limpeza no Colégio Alexandre Herculano, já nesta época dava serventia a pedreiros nas minhas folgas, fiz de tudo um pouco e continuo a fazer.»

Atualmente, Teresa trabalha de segunda a sábado, em várias casas. Numa delas, além de cozinhar e limpar, ensina a língua portuguesa: «É uma família indiana, eles só falam o inglês que eu não entendo, só tenho a quinta classe… mas já ensinei muita coisa, mostro as palavras no telemóvel e assim nos comunicamos!», diz orgulhosa. Recebe a reforma do tempo que trabalhou no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra – CHUC mas não pensa em parar com o trabalho doméstico remunerado, batiza o domingo como o pior dia da semana «já estou muito acostumada a trabalhar, não gosto de folgas e vou dizer uma coisa: se eu fosse rica eu nem pedia dinheiro por este trabalho, faço-o só pela companhia, eu trabalho pela companhia, ajudo e sou ajudada.»

Direitos (e deveres) de quem “trabalha a dias”

A crise económica causada pela pandemia e vincada pela guerra causada pela Rússia na Ucrânia, deixou as trabalhadoras domésticas ainda mais vulneráveis e algumas famílias estão a reduzir-lhes o número de horas. O problema é difícil de quantificar, pois não se sabe exatamente quantas mulheres a dias existem – ou homens a dias, para entender exatamente quem está a ficar para trás. Em Portugal, há cerca de 65 mil pessoas a realizarem trabalho doméstico com contribuições pagas. Os números são de 2021, segundo análise do PORDATA, a base de estatísticas certificadas sobre o país.

A tempo inteiro ou apenas algumas horas por semana, todos as empregadas ou empregados domésticos têm direito a proteção social, o que obriga os empregadores a conhecerem o conjunto de procedimentos a seguir para manter preservados os direitos daqueles que trabalham nas casas portuguesas.

Além da remuneração acordada, há que contar com as contribuições para a Segurança Social, os subsídios de férias e de Natal e o seguro de acidentes de trabalho, conforme detalha o site da DECO PROTESTE, a Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor.

«Tive outras hipóteses, não quis»

Fernanda de Jesus Barros nasceu na Figueira da Foz, tem 57 anos e está em Coimbra desde 1989. Tinha 24 anos quando começou a trabalhar com limpeza em casa de particulares e resume a trajetória profissional com alegria: «Gosto imenso de ser empregada doméstica, sinto-me realizada. Sei que todos os trabalhos têm o seu “que”, há muita gente que diz que faz este trabalho porque não teve outras hipóteses, eu tive outras hipóteses – tenho um curso de Auxiliar de Educação, mas optei mesmo por trabalhar como empregada doméstica, porque se ganha mais e porque encontrei nas pessoas que me estimam e me pagam todos os direitos.»

Ela trabalha a tempo inteiro numa casa e faz horas em outras, e pontua que não cobra um valor fixo pois entende que algumas pessoas «querem ver a casa organizada, mas não têm o suficiente para pagar um ordenado mensal a uma profissional.»

Fernanda diz que em Coimbra os valores da hora variam entre seis a dez euros, em média e que empregadas domésticas podem fazer €1.500,00 por mês.

 «Para quem está a começar eu aconselho: vá em frente, trabalhar em casas não é desprimor nenhum, e não recuse seus direitos para depois se queixar», chama a atenção. Durante a entrevista, Fernanda conta que nem sequer pensa em reforma, e solta uma gargalhada quando lembra os feriados em que já saiu cedo de casa quando percebeu que estava de folga, «quando dou por elas já estou na estrada, palavra d’honra, já me aconteceu várias vezes!»

Pedro e a limpeza

O negócio foi parcialmente herdado do pai, mas Pedro o incrementou. Da venda de produtos de limpeza, numa empresa que começou as atividades em 1984 com José Penetra, Pedro Penetra ficou com os antigos clientes e inovou: «Fornecer o meu serviço de limpeza surgiu com o pedido de um cliente, informalmente. De repente tenho a QClean com 4 funcionários dois homens e duas mulheres, fazemos limpezas em casas particulares, ginásios e clínicas dentárias.»

Conta que o negócio está a crescer pois «um cliente satisfeito traz outro e transferimos o boca-a-boca para as plataformas digitais.» Para Pedro, o desafio de quem oferece um serviço de limpeza é ganhar a confiança do cliente e que «hoje não é tão fácil entrar na casa das pessoas e precisamos ter a liberdade de ficar dentro das casas das pessoas por horas, dias, a fazer limpeza, mas depois são essas mesmas pessoas que passam os nossos contatos a futuros clientes.»

A acompanhar a entrevista está Filipa Damas, aromaterapeuta, esposa de Pedro e que o apoia no negócio: «Em breve vou implantar um novo serviço na empresa, será possível escolher um serviço de limpeza com o uso de óleos essenciais, os mesmos que funcionam muito bem na aromaterapia e que tem sido cada vez mais utilizada na rotina das pessoas, vamos poder recorrer aos aromas como forma de manter um ambiente harmonizado», revela Filipa.

As horas de Alexandrina

Começa a dizer que o trabalho doméstico era uma das coisas que nunca iria fazer. Diz ainda que fazia uma rica vida, viajava para fora, anda no ginásio e tinha mesmo um personal trainer: «Mas depois comprei uma casa e eu sempre gostei de ter as minhas coisas e não depender de ninguém. Sou Auxiliar de Enfermagem no CHUC e um dia alguém me perguntou se eu queria fazer limpezas nas horas da folga, acabei por aceitar», lembra Alexandrina Isabel Costa Alves, 42 anos, natural de Penacova.

Começou a fazer limpezas regulares, chegou a trabalhar em cinco casas semanais além do hospital, dividia-se em turnos, não gostava de ficar parada em casa. Durante a entrevista, apresenta o filho Tomás: «Cuido sozinha» e conta que hoje trabalha em apenas uma casa, fora o hospital.

Ao final, um recado para as que estão começando agora: «Não vale a pena desistirem, nem tudo é um mar de rosas, ao princípio as pessoas não têm confiança em nós, não estão habituadas, confiança é uma coisa que não se ganha assim tão facilmente, persistam.»

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