Capital do rock, do fado, da guitarra, da literatura, da Universidade, do património (não se preocupem, não vou continuar, mas podia, sabem que sim). A candidatura a envergar este título com bordão europeu e dinheiro a condizer com a fatiota janota é só mais um capítulo dessa ambição. Um capítulo importante. Pode até ser o momento de charneira. O desfraldar das velas, o acender da velha chama (também não continuo por aqui).
Chegados aqui, o nosso futuro não tem muito que saber. Ou seremos ou vamos sempre querer ser (lembrei-me agora de uma coisa engraçada que o Rui Reininho disse sobre este dilema do ser e não
ter sido). Não me tomem por tão desapegado aos títulos e diplomas. Um bom documento timbrado e um cheque bem assinado podem muito. Quando chegar o dia de investir Coimbra como capital provisória da cultura europeia, será, em princípio, um belo dia. Mas não tem como ser o dia primeiro, aquele dos primeiros versos dos poemas em homenagem aos mais loucos entre os loucos. Tão pouco quando chegar o dia derradeiro, o triste enrolar das lonas publicitárias, a inglória tarefa de descolar os autocolantes e a perigosa aventura de despregar as setas que assinalavam o caminho pelas rotundas;
porque esse dia também chegará, nesse dia, não será de forma nenhuma o fim da história. (Nem por um instante pensei em alegrar este último parágrafo com os versos da «hora da despedida».)
Coimbra tem uma ambição desbragada de ser de importância capital na cultura nacional, europeia, mundial e intergaláctica. É um bocadinho exagerada esta pretensão? É. Mas está connosco para
ficar, presa aos coimbrinhas com raizes de molar. Não nos vai largar. Posto isto, o que fazer? Ser. A inevitável imposição da existência perante o anseio é… isso mesmo: inevitável. Se perdemos ou
ganhamos esta corrida da capital europeia que se segue não devia mudar grande coisa por cá. O que de mais ambicioso alguém tiver incluído no plano dessa candidatura deve manter-se, desafiante,
como se nada fosse.
Por mim a comissão organizadora da Capital da Cultura devia ser chumbada ao chão com o mesmo cimento que usaram para a estátua do Joaquim António Aguiar. E, dotada dos recursos de quem tem um trabalho diário para fazer nos próximos muitos e muitos anos. Se fugir do que não se consegue deixar de desejar faz tão mal ao coração de um pobre desgraçado. Como não ficará então uma cidade inteira, entregue à miséria de negar o amor por timidez? (Isto também vai dar a um fado. Permitam-me que não acabe mais este parágrafo)
Tenho a certeza que esta ideia não é partilhada por todos. Pudera. Coimbra ainda é uma cidade e por definição as cidades não são lugares de unanimidade. Pode até ser preciso discutir isto um
bocadinho e talvez estas linhas que escrevo sejam sobretudo para pegar fogo a essa conversa. Seja lá como for, em algum momento, alguém terá que pedir a palavra em nome dos colegas e vizinhos e
dizer, com o peito que tiver: Coimbra é Capital da Cultura. Quem o fizer não falará em nome de todos e não será o herói ou a heroína de ninguém.
O que não se pode, mas não se pode mesmo, façam-me o favor de não deixar de maneira nenhuma que aconteça, é permitir que esta decisão, tão importante para quem cá está, fique para quem não toma a bica num balcão de Coimbra. Que não seja pela via da externalização administrativa que se decide se Coimbra é ou não é Capital da Cultura (ainda que para efeitos de redação de cheques com muitos zeros se possa perfeitamente permitir que venham cá investir a cidade de uma versão provisória desse título).
Retomando a pergunta que dá título a esta conversa. Se quisermos, será. Por mim, já se percebeu, está mais que decidido. Do que vejo a cidade precisa de se deixar de ansiedades e passar de uma vez por todas à fase do enfrentamento desta ambição.


Alexandre Lemos é programador Cultural, responsável pela Casa das Artes Bissaya Barreto, tem sido um dos júris da DG Artes nos recentes concursos de apoios pontuais às artes. É licenciado em Estudos Artísticos, encenador e trabalhou projectos de software, crowdfunding e livros digitais.
