Tenho 64 anos e, com a excepção de dois breves períodos passados em Siena (Itália) e Salamanca (Espanha) para estudar, sou nascida e criada em Coimbra. Vivi até aos 4 anos na Estrada da Beira, actual Rua do Brasil, e depois na Baixa da cidade com os meus Pais. Já autónoma, vivi na Alta e na Solum. Há 27 anos mudei-me para Monte Formoso. Antes do início do Bairro, nesta localização existia
um extenso olival sobranceiro à Casa do Sal e quando se deu a construção, a partir de 1962, o construtor solicitou à Câmara o registo de «Monte Formoso» tendo em conta a beleza do local e, suspeito, a possibilidade de uma designação mais apelativa em termos comerciais.

Conta quem cá morava que a ocupação era, sobretudo, de jovens casais atraídos pela qualidade das habitações e pela proximidade das grandes vias de trânsito, a Avenida Fernão de Magalhães, a Estrada Nacional nº1, bem como da Estação Velha (Coimbra B). Em 1974, também, a população de Monte Formoso teve o seu episódio “revolucionário”. Descontentes com o facto de não existirem transportes públicos para a zona, apanharam um autocarro na Baixa da cidade e pressionaram o motorista para seguir até Monte Formoso. Aí permaneceu o veículo por vários dias com a população a fazer piquetes até verem cumpridas as suas reivindicações.



No Bairro existem jardins, um recinto de jogos, uma capela, um centro social, um parque infantil e outro de ginástica, um supermercado e um mercado menor, uma farmácia, restaurantes, cafés e várias lojas de serviços. Tempos houve com, ainda, mais comércio e serviços. Desapareceram a peixaria e o multibanco, por exemplo. Mas outros equipamentos apareceram ou foram recuperados, como por exemplo, a Mata de Monte Formoso, recentemente recuperada e aberta ao público e que é a 3ª Mata de Coimbra, depois do Choupal e de Vale de Canas. A vizinhança continua activa e promove candidaturas várias. Mesmo agora foi inaugurada a mini biblioteca de rua, financiada pelo Programa Bairro Feliz, onde se pode efectuar troca ou simplesmente levar ou trazer livros, de molde a fomentar os hábitos de leitura.

A qualidade de vida neste local tem sido mantida, também, nos últimos anos, com o trabalho da Associação de Moradores que tem zelado pelo património do local, aumentando os serviços à comunidade quer através de mecanismos semelhantes ao orçamento participativo da Freguesia quer através de reivindicações junto do Município e da Junta da União de Freguesias de Eiras e S. Paulo de Frades. Ainda há pouco, com apoio destas entidades, se inaugurou o projecto «Monte + Formoso» com
um terreno para implementar uma ideia de vizinhas e dar lugar a um jardim silvestre com plantas apelativas para as abelhas e outros insectos. E a Associação de Moradores tem vários projectos em curso como as varandas floridas ou os ninhos para que as andorinhas possam continuar a visitar o Bairro sem criar constrangimentos nos telhados ou nas caleiras.

A verdade é que, neste Bairro, ainda se ouve o barulho das crianças a jogar à bola e os escuteiros em grupos e, antes da pandemia, realizavam-se festas de santos populares com música e bailarico, festa dos vizinhos, festivais de sopas, magustos e piqueniques. Não esquecendo a muito típica tradição de pedir e cantar os Bolinhos e Bolinhós! Claro que também se organizavam limpezas colectivas dos espaços e visitas com especialistas de botânica, promovendo a reciclagem e o cuidado pela natureza. E há a presença nas redes sociais que ligam actuais e antigos moradores, partilhando necessidades, ofertas e memórias.

Durante a pandemia o Bairro continuou a pensar colectivamente e inaugurou-se uma lápide e plantou-se uma árvore em homenagem às pessoas que morreram vítimas de COVID 19. Moro em Monte Formoso, um Bairro citadino que tem sabido manter a vida comunitária, promovendo a qualidade de vida intergeracional através de uma cidadania activa.




Ana Parada da Costa é nascida e criada em Coimbra, residente no Monte Formoso e actualmente Conselheira da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) e Conselheira do Conselho Económico e Social de Portugal (CES).


Share.

Jornalista

Comenta esta história