Fala-se muito no que se pode e no que se deve fazer para revitalizar a Baixa de Coimbra, que apesar de tradicional centro de comércio com restaurantes, cafés, padarias e pastelarias, e pequenas lojas de produtos tradicionais tem problemas ao nível da segurança, acessos, desertificação e degradação arquitectónica. Um dos maiores desafios, é o facto de os comerciantes da zona terem opiniões divergentes no que toca às duas principais possíveis respostas: o alargamento dos horários dos estabelecimentos e a descentralização das instituições sociais para outros pontos da cidade.
«O alargamento dos horários é a minha luta. Com as lojas abertas mais tempo cria-se uma dinâmica que vai levar a que as actividades na Baixa surjam com alguma naturalidade», defende a presidente da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC), Assunção Ataíde. Para a dirigente, o maior problema prende-se com o fim-de-semana. «Criou-se a ideia que a Baixa está fechada e, ao domingo, as lojas devem estar abertas. Se calhar compensa aos comerciantes abrir ao domingo e fechar à segunda-feira», entende.
A questão dos horários
Assunção Ataíde gere a garrafeira A Camponesa no Largo do Poço, junto ao Salão Brazil, que está aberta até à meia noite. «Não é por acaso. A mais valia dos centros comerciais é o horário. As pessoas que vêm à Baixa à noite têm três ou quatro lojas abertas. Abrir as lojas mais tempo deve ser uma estratégia do grupo e não do indivíduo», explica. A ideia é incendiária e divide opiniões entre lojistas, como ficou evidente num encontro que reuniu, há algumas semanas, cerca de seis dezenas de comerciantes e o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, José Manuel Silva, no Salão Brazil, lojistas apontam para outras situações a melhorar, como o estacionamento e a segurança.
Alguns lojistas defendem que não podem abrir portas em horário nocturno por motivos familiares e falta de recursos para contratar novos funcionários. Preocupações «compreensíveis» para a presidente da APBC mas que Ataíde contra-argumenta que, nesse caso, «é melhor estar aberto ao fim-de-semana e fechar durante a semana». Segundo Assunção Ataíde, combater a desertificação e atrair mais gente para a Baixa seria o ponto de partida para resolver outras situações, como a segurança. “Maior movimento nas ruas da Baixa seria um garante de maior segurança”, considera. Pedro Serra, gerente do espaço CoolaBoola Colab, na Praça do Comércio, concorda e acrescenta: «Com habitação jovem também teríamos mais gente na Baixa e, consequententente, mais segurança».
Lojas fechadas
Quando se fala de desertificação da Baixa de Coimbra não se está apenas a falar de moradores e visitantes. Percorrendo as ruas e ruelas estreitas que vão desde a Praça do Comércio e Praça 8 de Maio até à beira rio, não é difícil constatar que há várias lojas com as portas fechadas há muito tempo. De acordo com Pedro Serra, a Praça do Comércio apenas 30% das lojas estão ocupadas e há muitos edifícios habitacionais vazios. Na conhecida Rua Adelino Veiga, repleta de montras, o panorama é o mesmo. Grande parte dos espaços comerciais têm as portas fechadas.
Além da falta de procura, existe o problema do elevado valor das rendas. Assunção Ataíde lamenta que «muitos senhorios que não arrendam, não vendem nem emprestam». «Devem estar à espera que os espaços valham milhões», desabafa. Os arrendamentos de casas e lojas a custos controlados são uma das propostas da APBC a curto prazo. Outra é a de melhorar a aparência das lojas fechadas.
Estacionamento e segurança
Os lojistas reclamam mais policiamento na Baixa, bem como maior celeridade nos tempos de resposta das autoridades. «A APBC já fez um questionário rua a rua e um levantamento dos problemas para entregar à Polícia de Segurança Pública», revela Assunção Ataíde, notando que já tem sentido melhorias. No entanto, a segurança «é a ponta do icebergue», sublinha.
O estacionamento é outro dos desafios apontados para resolver o problema da desertificação da Baixa de Coimbra. Lojistas lembram opções como o parque gratuito do Convento de São Francisco, o parque da Praça das Cortes, junto ao Estádio Universitário, e o Parque Verde do Mondego com a opção do pagamento de 15€ mensais. Na Coolectiva, já partilhámos essas e outras opções. No entanto, Pedro Serra propõe horários isentos de pagamento, como sexta-feira a partir das 17h. «As pessoas querem estar mais à vontade na Baixa, sem se preocuparem com o que pagam de estacionamento», defende o gerente do CoolaBoola CoLab.
A APBC tem acordos com alguns operadores privados de forma a permitir que os comerciantes associados possam ceder 1h de estacionamento aos clientes. «Se os clientes forem a três lojas, têm 3h de estacionamento gratuitas. Admito que não haja ainda grande divulgação desta iniciativa mas vamos fazê-lo”, reconhece.
«Plano Marshall» na Baixa
O presidente da Câmara Municipal de Coimbra, José Manuel Silva, defende para a Baixa uma espécie de «Plano Marshall», numa analogia ao Programa de Recuperação Europeia, que foi o principal plano dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial e que recebeu o nome do Secretário de Estado dos Estados Unidos, George Marshall.
«A solução para os problemas da Baixa não se vai fazer num só dia», considera José Manuel Silva. O autarca defende também uma ponderação dos horários dos estabelecimentos, compreendendo, no entanto, que os lojistas queiram estar com a família. «Se calhar mais vale fechar à segunda-feira e abrir ao domingo mas são os comerciantes que têm de analisar», considera. Quanto à deslocalização da resposta social, admite que poderá ser benéfica e dá o exemplo da Casa dos Pobres que, depois de 80 anos na Baixa, mudou para São Martinho do Bispo «e tem agora melhores condições para prestar o seu serviço», descreve.
«Queremos que as pessoas prefiram a Baixa aos centros comerciais, até porque nenhum tem uma Praça do Comércio ou um Terreiro da Erva. A Praça do Comércio em Espanha seria uma “Plaza Mayor” cheia de vida, a Rua da Sofia nunca teve um plano de reabilitação. Queremos fazer isso tudo», atira o autarca eleito em Setembro do ano passado. José Manuel Silva admite também preocupação relativamente aos edifícios degradados na Baixa de Coimbra, admitindo estudar a possibilidade de tomar posse administrativa de prédios degradados, embora faça a ressalva: «A Câmara Municipal de Coimbra não é bom exemplo, e temos de cuidar da nossa casa primeiro antes de bater à porta dos privados».
Uma solução a nascer na rua Adelino Veiga
Está a nascer na Rua Adelino Veiga, pleno coração da «Baixinha», um novo espaço colaborativo. O projeto COL.ECO – Colaboração na Organização Local da Economia Eco Sustentável do Concelho de Coimbra surge no âmbito de uma candidatura ao Programa Parcerias para o Impacto, do Portugal Inovação Social e tem como objetivo receber pessoas com uma ideia de negócio para investir no comércio local.
No entender da presidente da APBC, o projecto pode revitalizar a rua, uma das mais desertificadas da zona. «Arrendámos um prédio e a Câmara comparticipa com 25%. O objectivo passa por criar 15 microempresas, na companhia de um gestor social e um gestor financeiro, que têm 18 meses para criar o seu negócio», descreve Assunção Ataíde, completando que se vai tratar de uma espécie de incubadora, com interesse para as artes e as indústrias criativas. «Já temos um artesão e uma pintora de cerâmica.» A presidente da Agência aplaude a chegada à Baixa de empresas novas e dirigidas por jovens nos últimos anos na Baixa de Coimbra, como é o caso da Loop, na Praça do Comércio desde 2018, e do espaço de cowork Nest Collective, no Largo das Ameias. «São jovens interessados e muito dinâmicos».
A Câmara Municipal de Coimbra garante que o «Plano Marshall» está em curso e começa com a regulação do estacionamento, melhoramento dos transportes públicos, dar vida às praças, efetuar limpezas mais frequentes e embelezar os espaços para aumentar a atractividade de pessoas. «Desenhámos uma linha de rumo e estamos a percorrê-la», frisou José Manuel Silva, que prevê nova vida para a Baixa de Coimbra quando entrar em funcionamento o sistema de Metrobus na cidade, previsto para 2024, que vai atravessar aquela zona e potenciar a ligação ao rio Mondego.
