Leonor Viegas assina esta reportagem, editada por Teresa Dias, produzida no âmbito da parceria entre a Coimbra Coolectiva e estudantes da turma do Mestrado em Jornalismo e Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, orientada pelo professor Francisco Sena Santos, para a cobertura colaborativa do Tech & Arts Festival, no TUMO Coimbra.
Uma sala ampla começa a encher, as primeiras batidas ecoam pelo espaço e os vários olhares deixam-se hipnotizar pelas três pessoas à volta da mesa branca repleta de cabos, computadores e maquinarias. Surma, Nelson Brízida e Miguel Pires vêm de universos distintos, mas partilham a paixão pela música eletrónica. Os pés trocam-se entre a diversidade de pedais dispersos pelo chão, enquanto os sussurros, produzidos no microfone coberto por um pedaço de tecido, complementam a diversidade de sons que prendem a atenção de uma plateia já composta. Entretanto, aos artistas junta-se um saxofonista cujo nome é desconhecido. Juntos brindam o público que se reuniu no edifício do TUMO Coimbra, no passado domingo.
Num constante vai e vem, grupos de jovens movimentam-se entre a mesa repleta de auscultadores e um Game Boy antigo que lhes desperta a curiosidade. Outros distraem-se numa sessão fotográfica improvisada junto a um velho televisor cercado por um fundo preto. Entre música, programação, robótica e fotografia, o Tech & Arts Festival oferece à cidade uma iniciativa que celebra a ligação entre a tecnologia e a arte.
Os Chanfana, como são conhecidos Nelson Brízida e Miguel Pires, eram vizinhos e frequentavam a mesma turma quando começaram a dar os primeiros passos na sua carreira. “Cada um foi desenvolvendo o seu gosto individual que acabámos por partilhar”, recorda Miguel. Foi desta forma que se juntaram ao mundo da música eletrónica, não apenas como consumidores, mas também como criativos. E, nesta tentativa de “aprender a nadar” no universo artístico que escolheram, como descreve Nelson, já conquistaram o prémio Música Independente de Coimbra – MIC.
Por outro lado, Débora Umbelino, mais conhecida por Surma, iniciou o seu percurso ligada a instrumentos como o contrabaixo, piano e a guitarra, além da própria voz, com foco na música clássica e no jazz. Foi na sua passagem pela banda Blackwater & The Screaming Fantasy que se deixou levar por uma certa curiosidade no estilo eletrónico. “Sempre tive uma paixão por mexer nas maquinarias todas”, comentou.
Numa área musical alternativa e fora dos holofotes do mainstream, Surma descreve-se como uma sortuda por ter conquistado o seu público dentro de “um nicho mais pequeno”, até fora das fronteiras portuguesas. Aconselha os jovens artistas a não abandonarem a sua identidade nem se deixarem influenciar pela pressão de produzir determinados conteúdos, apenas com o objetivo de alcançar sucesso comercial. Mesmo assim, reconhece a importância do percurso percorrido antes de criar o atual projeto. “Se não tivesse essa formação não me sentia tão libertadora ao fazer aquilo que faço enquanto Surma”, ilustra.





O papel da IA na criação artística
O trabalho de artistas como Surma, Nelson Brízida e Miguel Pires é um exemplo da união entre arte e tecnologia. No entanto, ao longo do Tech & Arts Festival vários foram os momentos que deram lugar ao debate sobre os riscos de novos meios alternativos, como a IA. A última mesa redonda que teve lugar na iniciativa reuniu profissionais e estudantes de arte numa conversa sobre a utilização destas ferramentas na criação artística. A bancada extensa que se encontra de frente para a entrada do edifício do TUMO Coimbra começa-se a compor. O público move cadeiras e almofadas soltas até encontrar o seu lugar de conforto para assistir a “Art Enhanced by Technology: Technology Becoming Art!”.
Maria Cardantas frequenta o segundo ano do curso de Arte e Design e acredita que a tecnologia e a arte podem andar de mãos dadas, mas que os jovens se sentem motivados a voltar ao passado, a uma “estética vintage”. Para a estudante, o surgimento da IA é uma realidade alarmante, que acarreta riscos como a diminuição de postos de trabalho no meio artístico. Mostra-se ainda apreensiva em relação à perda do interesse público no trabalho desenvolvido de forma tradicional.
O mais perigoso na utilização da IA, aos olhos de Maria Cardantas, é a utilização de fontes externas para retirar imagens que não são creditadas. “Essa foi a primeira impressão que eu tive da IA, que roubava”, lamenta a estudante. Recorda ainda que se trata da arte de pessoas reais, que dedicaram o seu tempo a criar um estilo, o que torna esta prática desrespeitosa. No entanto, não se esquece da existência de programas que já compensam os artistas ao gerarem imagens inspiradas nas suas criações. Reitera ainda que a IA deve ser utilizada “eticamente, como um meio e não como um fim”.
Filipe Cruz representa a associação Inércia, que procura promover a proximidade digital. Do seu ponto de vista, existe um fascínio em explorar os limites da máquina original e “fazer coisas que eram impossíveis há 20 anos atrás”. Desde criar música com um método diferente, desenhar ou desenvolver criações em 3D através dos programas digitais, várias são as hipóteses. Defende ainda, que certos modelos de IA podem ajudar a atingir os objetivos dos artistas, apesar de haver quem queira capitalizar estas ferramentas.
Aos olhos de Filipe Cruz, a capacidade de dar as instruções certas à máquina também contempla uma perspetiva artística. Mas à discussão junta-se Daniel Cardoso, aluno do curso de Artes do 11º ano, para defender que não é comparável o esforço de um artista durante dias, horas ou meses, a um pedido feito numa plataforma de IA. Também Maria Cardantas se opõe a esta ideia: “Não me compensa ter a visão e não ter o mérito de a realizar por mim mesma”.
Esta conversa contou ainda com a presença de Tathiani Sacilotto a representar a indústria cinematográfica. Numa perspetiva conciliadora, vê a IA como facilitadora do trabalho criativo, por poupar tempo em processos necessários à produção de filmes. Compreende que a criação de paisagens sonoras com recurso a estas ferramentas não se compara à gravação de um conjunto de músicos, nem à capacidade de transmitir a emoção humana. No entanto, assevera que os grandes estúdios já surgem programados para trabalhar dessa forma. Mesmo assim, acredita que o cinema independente não vai ser prejudicado, mas sim procurado pela sua autenticidade.
O erro humano como capacidade insubstituível pela máquina
Paula Cunha, representante da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), recebe o compositor e intérprete Samuel Úria numa reflexão em torno das limitações da máquina e das características que tornam o artista único. A plateia tímida começa a ser preenchida pelos curiosos que se quiseram juntar à conversa envolvida por microfones, câmeras e holofotes.
De perna cruzada e num registo descontraído, o autor sublinha que “a criatividade é uma capacidade intrínseca ao ser humano”. Descreve a IA como uma ferramenta facilitadora, mas esteticamente limitada, marcada pela padronização e repetição. Na sua perspetiva, esta apenas consegue reproduzir aquilo que já se tornou automático, óbvio e rotineiro, o que pode levar a um ponto de saturação.
Nas palavras de Samuel Úria, o erro humano é algo insubstituível. Enquanto a IA é incapaz de perseguir o defeito, para um artista a capacidade de demonstrar vulnerabilidade e fragilidade é algo que o define, argumenta. Segundo o autor, a dúvida é benéfica para o processo criativo, seja na música, na pintura, no cinema ou em qualquer tipo de arte. A máquina persegue a ideia de perfeição, mas “um artista não tem de ser perfeito”, remata.
Tecnologia, arte e os seus limites
O TUMO é um centro de tecnologias criativas para crianças e jovens dos 12 aos 18 anos. Mas, com todas as incertezas em torno da evolução tecnológica no meio artístico, como se deve ensinar a trabalhar a tecnologia com responsabilidade? A subdiretora do TUMO Coimbra, Rita de Almeida Neves, considera que só a interagir e a conhecer os bastidores desta área, bem como os viés que ela pode ter, se conseguem formar melhores criadores. “É importante perceber como a tecnologia funciona e que é o nosso lado humano que decide o que fazer com ela”, constata.
A responsável acrescenta ainda que, ao trabalhar com jovens, os limites devem ser bem negociados e seguir o mote “liberdade com responsabilidade”. Para mostrar que nem toda a tecnologia é permitida e que existem regras na sua utilização, no TUMO Coimbra não são aceites telemóveis, revela. “A tecnologia tem um espaço, propósito e contexto”, reitera Rita de Almeida Neves. Acrescenta ainda que o objetivo da instituição é ensinar a trabalhar ferramentas como a IA de forma responsável, para que no dia a dia as utilizem “com outros olhos”.
Paula Cunha sublinha que os artistas não estão contra a tecnologia, já que a componente digital pode ser útil quando utilizada com respeito pelo trabalho já realizado. Após os debates que decorreram ao longo do evento, permanece a incerteza sobre os limites a aplicar à IA. No entanto, a representante da SPA sugere três ideias baseadas no acordo aprovado no Parlamento Europeu no início deste mês, que vem reforçar a “Lei da IA” da União Europeia. Conclui que tudo pode ser feito desde que haja “transparência, consentimento e remuneração”. Transparência em relação aos conteúdos protegidos, consentimento do autor para a utilização da sua obra e remuneração pelo uso da mesma.
