Quando achamos que conhecemos verdadeiramente um local e este depois se revela num detalhe até então para nós desconhecido, esse momento é tão desconcertante quão revelador. Para quem é de Coimbra ou por cá vai itinerando, em trabalho ou estudo, a Escola Agrária de Coimbra (ESAC) faz parte da paisagem da cidade. Um elemento quase difuso, distante, que não aparenta conter quaisquer segredos. Mas tem, vários até. Um deles é o seu Percurso Interpretativo do Ensino, um núcleo expositivo que até já foi chamado de Museu Nacional da Agricultura, e que vamos agora descobrir.

Os antecedentes da Escola Agrária recuam até 1886, com a fundação da então chamada Escola Central de Agricultura, em Sintra, destinada a servir o país com gente conhecedora da terra e das culturas. Em 1887, transfere-se de plantas e bagagens para Coimbra. Depois de várias designações e múltiplas reformas estruturais, chegou à actualidade como ESAC, uma das constituintes do IPC – Instituto Politécnico de Coimbra.
Criação da colecção
Rui Amaro, Presidente da ESAC, que organizou o Percurso Interpretativo juntamente com trabalhadores da Escola, esclarece a sua génese: «Na criação e continuidade desta colecção, cremos ser justo referenciar o Sr. Jorge Gomes, o Sr. Agapito e o Prof. Óscar Crispim, que foi responsável por este espólio durante alguns anos. O maior destaque é para o Prof. Machado Faria que, enquanto Presidente da ESAC, entendeu ser relevante para a preservação da memória da ESAC juntar o maior número de peças possível num espaço dedicado a esse fim e então designado por “Museu” na Casa do Bispo, imóvel da ESAC que foi em tempos a residência de férias do Bispo de Coimbra».
Segundo o responsável, em 2018 e 2019, antecipando a necessidade de libertar o espaço na Casa do Bispo, onde foram recentemente iniciadas as obras de recuperação para a instalação da sede do IPC, foi feito um esforço de deslocalização e reorganização do espólio ali existente pela presidência da ESAC, com a colaboração da presidência do IPC. «A ideia passou por tornar visível/visitável o conjunto de peças [da colecção], colocando-as em vitrines numeradas ao longo de espaços de circulação no interior da Escola, a que chamámos de “Percurso Interpretativo do Ensino na Escola Agrária de Coimbra”, com uma breve descrição do seu conteúdo». A inauguração deste Percurso coincidiu com a comemoração do 132º Aniversário da ESAC, em 2019.
Um espólio vivo
A passagem de testemunho entre diversas gerações de professores e de trabalhadores, foi fundamental para a sobrevivência e manutenção deste acervo, que vai sendo continuamente ampliado com a adição de novos elementos, com peças que deixam de ser úteis, em laboratórios, por exemplo. E é um espólio vivo, com muitos dos seus elementos a serem utilizados em contexto de aula. «Algumas das peças expostas mantém a sua capacidade funcional, enquanto que outras, pelo seu próprio conteúdo são objecto de observação e de recolha de elementos com interesse pedagógico», esclarece Rui Amaro.
«Refira-se que, tratando-se de um espólio presente numa escola reconhecida como ligada à
agricultura e que, por isso mesmo, a maioria terá uma relação directa com essa actividade no sentido mais lato (produção agrícola, produção animal e produção florestal), muitas das peças extravasam a área e há exemplos relacionados com o ensino de disciplinas correlacionadas como a Química, Física, Biologia, Matemática, Topografia e transformação de alimentos de diversa natureza e origem».
Expostos em vitrines e a habitar as paredes da Escola, encontramos assim diversas espécies de leguminosas, uma colecção de exemplares de insectos, frutas ou cogumelos em papier mache – que enganam, pela autenticidade –, instrumentos caídos em desuso e que testemunham uma época menos electrónica, mais mecânica. Uma abelha e uma lagarta de bicho-da-seda (Bombyx mori) ampliados. Alfaias diversas que bem ilustram o trabalho agrícola, cartazes antigos ilustrados e inúmeros outros objectos dedicados à temática agrícola. E muitos elementos que obrigam a uma visita preenchida e demorada.

Biblioteca aumentada
O enriquecimento do espólio e do Percurso, acrescenta Rui Amaro, «começou com o acréscimo de um acervo rico de livros e revistas, muitos deles com mais de dois séculos de idade, exposto na Biblioteca da ESAC». Esta expansão foi oficialmente aberta ao público por ocasião da sessão comemorativa do 135º aniversário da ESAC, em Abril de 2022. A Biblioteca da ESAC revela agora «15 mil livros títulos em livros, alguns deles muito antigos e que datam dos séculos XVII ao XIX. A este número junta-se a coleção de publicações periódicas, que reúne cerca de 1030 títulos, à volta de 40 mil exemplares, distribuída por quatro salas, conforme os períodos». Muitos destes exemplares terão vindo com a transferência e estabelecimento da ESAC em 1887, muitos outros foram doados por antigos docentes e alunos.

Visitar o Percurso
O Percurso Interpretativo do Ensino na ESAC subverte a ideia de serviço educativo associado a um museu moderno, que se dedica a trazer e a conduzir os estudantes através do seu espólio. Aqui a colecção é parte da Escola, indissociável da sua existência e papel educativo. Complementa-se ao currículo, habita o seu espírito e história, acompanha o seu quotidiano escolar e secular. Para a visita, Rui Amaro deixa a sugestão: «Em condições normais, o espaço é visitável autonomamente por
qualquer pessoa existindo, para o efeito, um pequeno guia que pode seguir percorrendo os espaços de
circulação da Escola. Existe ainda a possibilidade, mediante um contacto prévio e, sobretudo para grupos, de haver um acompanhamento que pode beneficiar de algumas indicações acrescidas sobre algumas das peças e do contexto da sua proveniência e utilização».














