Pelas 10h25 de 27 de janeiro, uma explosão no primeiro andar do número 77 da Rua Augusto Marques Bom, no Vale das Flores, alterou repentinamente a vida de 20 famílias. Além de 35 desalojados, foram registados cinco feridos, um deles com gravidade após ficar soterrado debaixo dos escombros. No dia seguinte, o prédio de sete andares passou por uma peritagem técnica na qual não foram detetados danos estruturais que comprometessem a sua estabilidade.
Nove pessoas foram temporariamente realojadas por quatro dias no Hotel D. Luis, com apoio da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), enquanto as restantes foram acolhidas por familiares. No caso de Sindra da Corte e Emil Wentzel, casas de amigos foram o refúgio encontrado por duas semanas e meia. Vindos da África do Sul, escolheram Coimbra como casa em setembro de 2022 pelo clima estável, a diversidade cultural e a média dimensão da cidade. “Queríamos estar num lugar grande o suficiente para termos a nossa vida privada, mas pequeno o suficiente para vermos os nossos amigos frequentemente”, esclarecem.
Estavam no Centro de Saúde quando receberam a fatídica ligação telefónica por parte de Mário Montez, vizinho do prédio adjacente, que estava em teletrabalho quando ouviu “um barulho muito forte, como um trovão” e sentiu o apartamento tremer, seguido de silêncio total.


“Só quero viver numa bolha por um mês”: Esgotados fisicamente, emocionalmente e psicologicamente
Segundo Sindra, receber uma notícia deste género “é tão inacreditável, é como se alguém dissesse que o céu ficou roxo”. Ao regressarem, viram a dimensão real dos danos; no entanto, consideram que ainda estão em estado de choque por ser “muito difícil assimilar e processar o que aconteceu”. Destacam a violência de prosseguir com as obrigações quotidianas após uma experiência que alterou o curso das suas vidas: “num instante tudo o que conhecíamos desapareceu, é muito difícil conectarmo-nos com os nossos sentimentos quanto à situação”.
“Não controlas o tempo, não controlas o teu descanso, não consegues recuperar. E a vida normal continua, ainda tens de pagar as contas, de preencher formulários e de trabalhar. Mas não estás bem e és forçado a seguir em frente”, Sindra da Corte.
As semanas seguintes foram caracterizadas por um estado de exaustão, causado pelas decisões intermináveis, e uma sensação de estar perpetuamente na rua, por estarem em casas de amigos ao invés de numa casa que conheciam como sua. A pergunta “para onde vamos agora?” imperou até encontrarem uma habitação temporária, “uma tarefa impossível em Coimbra”.
Contam que foram rejeitados por diversos senhorios num período que coincidiu com as tempestades Kristin, Leonardo e Marta. O que levou a que experienciassem um sentimento avassalador de impotência por não terem controlo sobre a situação em que se encontravam. “Estamos sendo levados ao desespero e não podemos nos desesperar porque temos uma filha, o desespero não vai resolver o problema”, ressaltam.
Carregavam ainda o peso de “cada decisão tomada poder impactar os recursos financeiros para encontrar uma melhor oportunidade no futuro, o que pode originar uma circunstância perigosa e precária da qual não seja possível recuperar”, expõe Sindra. Com o passar dos dias, foram perdendo a resiliência e já não se sentiam capazes de pedir ajuda, apenas tentavam sobreviver.
Além do stress emocional que enfrentaram, Sindra e Emil relatam as dificuldades passadas pela sua filha, que se viu impossibilitada de dormir normalmente durante esse período de instabilidade. “Tentar explicar a uma criança que já não moramos na mesma casa e que não sabemos onde vamos morar daqui para a frente foi mais um dos desafios a enfrentar”, enfatiza Sindra. Sublinham ainda os momentos de raiva pelo desaparecimento da vida que lutaram para construir e os pesadelos todas as noites.




Viver num limbo
O prazo de regresso prometido – entre um a três meses – já foi ultrapassado, o que faz com que Sindra e Emil se encontrem num momento de incerteza que os impede de delinear os próximos passos. O seu apartamento é um dos que sofreu danos mínimos, por se encontrar no quinto piso. Apenas as molduras das janelas e a porta de entrada, arrombada pelos bombeiros para se certificarem que a habitação estava vazia, foram afetadas.
De momento, têm um acordo com o senhorio que os isenta do pagamento da renda enquanto não retornarem ao imóvel. Contudo, permanece a questão “quanto tempo estamos dispostos a esperar?”, pois uma situação que se dizia temporária está a ganhar um carácter cada vez mais permanente. Por esse motivo não têm a certeza se desejam regressar ao apartamento no número 77 da Rua Augusto Marques Bom. Algumas razões prendem-se com a criação de novas rotinas além de terem mobilado a casa atual, com a ajuda do Destralhe, à qual a sua filha já se está a adaptar.
O papel do Estado e da comunidade
Segundo o casal, desde o incidente, não receberam mais informações do condomínio ou da Proteção Civil e o único apoio oferecido pela CMC foi a estadia de quatro dias logo após a explosão.
Eunice Duarte, vizinha do prédio adjacente, alerta para a forma deficiente como os serviços públicos prestam auxílio a estrangeiros. Explicita que durante os momentos que acompanhou Sindra à CMC ou à Proteção Civil, não testemunhou vontade de comunicar em inglês, documentos noutros idiomas ou a presença de um tradutor que facilitasse a interação. Além disso, relata que a CMC os direcionou para o condomínio, o condomínio para a seguradora, a seguradora para a Proteção Civil, que os direcionou de volta à seguradora.
Apesar de todas as dificuldades, Sindra e Emil dizem-se muito gratos pela comunidade que os ajudou a ultrapassar este capítulo e por nenhum membro da família se ter ferido durante a explosão. “Espero que compartilhar esta informação ajude as pessoas a perceberem o custo que uma situação destas acarreta. Como podemos apoiar a nossa comunidade e nos prevenirmos. É necessário refletir que tipo de conversas precisamos ter com as seguradoras, os proprietários e os locais de trabalho”, assevera Sindra. Declara que o seu local de trabalho tem se mostrado compreensivo, mas sabe que nem toda a gente usufrui da mesma “sorte”.
Por sua vez, Mário e Eunice relatam que acolher a família de Sindra e Emil foi “o mínimo que poderiam fazer” e destacam que a situação trouxe à tona a reflexão sobre o que uma comunidade pode fazer quando se depara com uma situação de catástrofe. Apesar de não ter sido fácil partilharem o apartamento por terem dinâmicas familiares distintas, consideram que as crianças se divertiram e puderam esquecer o caos por instantes. Além disso, a experiência aproximou-os e permitiu a partilha de perspetivas políticas e culturais, que Mário descreve como “enriquecedora”.
Obras sem fim definido
Fernando Alves, administrador do condomínio do edifício, explica que a primeira prioridade foi fechar o prédio para salvaguardar os moradores e os seus bens. O passo seguinte consistiu na limpeza dos destroços e na retirada de tudo o que ficou danificado devido à força da explosão. Conta que as pessoas foram forçadas a sair porque o acesso à luz, água e eletricidade foi cortado.
Nesse momento, os seguros foram acionados e começou a inventariação da situação específica de cada fração, para passar à fase de orçamentação, que se encontra a terminar. Embora Sindra e Emil afirmem que não foram contactados pelo condomínio desde a explosão, Fernando Alves diz existir um grupo de WhatsApp e dois condóminos que o acompanharam em cada etapa do processo.
Aos dias de hoje, já existe água, luz e eletricidade junto aos contadores gerais do edifício e quando as obras tiverem início vai se prosseguir à ligação a cada apartamento. Segundo o administrador, o prédio voltará a ser habitado pelos moradores dos andares superiores em breve. “Quem quiser regressar terá de se sujeitar às obras e a descer pelas escadas, mas sabemos que existem pessoas em grande dificuldade e, quanto mais rapidamente pusermos tudo em movimento, mais rapidamente podem voltar”, adiciona.
No que toca à reabilitação, o interior das partes comuns vai ser totalmente reabilitado, além dos dois apartamentos afetados mais severamente e restantes frações que possuam estragos.
Relativamente à duração das obras, Fernando Alves não quis dar um prazo concreto, mas garante que vai ser antes do final de 2026: “Tenho um tempo que meti na minha cabeça e espero cumprir. Isto tem sido um sacrifício muito grande para nós todos e até para a empresa, por termos muitos condomínios. Tem sido um trabalho de equipa e estamos crentes que vamos cumprir”.
A Coimbra Coolectiva contactou a Proteção Civil e a Polícia Judiciária para obter esclarecimentos sobre o estado do edifício e sobre a investigação ao motivo da explosão, sem obter resposta até à publicação desta reportagem.
