O que é, afinal, moderno? E o que é antigo?

Chamamos muitas vezes progresso ao que talvez seja apenas esquecimento. Os nossos avós valorizavam a sombra porque trabalhavam de sol a sol e sabiam o que significava encontrá-la no meio do calor. A jornada pesava e exigia o cuidado da observação. Valorizavam as árvores porque sabiam que delas vinham alimento, abrigo, frescura e vida. Valorizavam os solos, porque compreendiam que, se os violentassem, eles deixariam de fazer brotar a sua força e a sua energia. Tudo isto significaria viver a fome.

Havia uma relação directa, clara e quase instintiva entre o ser humano e a terra. Hoje, essa relação parece ter-se perdido.

Vivemos numa sociedade onde muitas crianças acreditam que os frangos nascem já depenados e embalados, que o leite com chocolate vem de vacas castanhas e que os bifes não têm qualquer ligação a um ser vivo. Este afastamento da realidade da natureza revela algo mais profundo: uma desconexão quase total entre o humano, o corpo e o planeta que o sustenta.

Quero acreditar que este paradigma é apenas uma passagem. Uma transição para algo melhor. Uma aprendizagem que talvez venha à força; uma aprendizagem que não foi necessária em alguns países que, há décadas, compreenderam a importância de proteger o território e os ecossistemas.

Países como a Suécia, a Finlândia, a Dinamarca, a Noruega ou a Alemanha têm vindo a desenvolver políticas consistentes de protecção da biodiversidade, preservação das florestas e integração da natureza no espaço urbano. Não são sociedades perfeitas, mas perceberam algo essencial: proteger a terra é proteger a própria sobrevivência.

Entre nós, porém, persiste muitas vezes uma mentalidade defensiva e curta. Ouvimos frequentemente pessoas a pedir o abate de árvores porque podem cair numa tempestade e atingir um telhado. Querem cortar árvores porque podem arder num incêndio. Ou, simplesmente, porque fazem folhas (aquilo a que se chama, com alguma ironia, «lixo»).

Mas as árvores não são lixo. São sistemas vivos que regulam temperatura, estabilizam solos, capturam carbono, abrigam aves e insectos e mantêm o equilíbrio dos ecossistemas.

Quando esta consciência se perde, perde-se também a percepção da nossa própria fragilidade.
As encostas que deslizam, os terrenos instáveis e os desequilíbrios ambientais não surgem por acaso. São frequentemente o resultado de décadas de agressão ao território.

Coimbra não é excepção. Independentemente do executivo municipal que esteja em funções, os abates de árvores continuam a ocorrer de forma preocupante, muitas vezes sem um debate público profundo sobre as suas consequências ecológicas, urbanísticas e sociais.

Ao mesmo tempo, a cidade vive um ritmo constante de construção. Novas urbanizações surgem com a justificação de que é necessário criar habitação. No entanto, muitos desses empreendimentos correspondem a condomínios de luxo, com valores médios entre os 650 e os 700 mil euros, claramente inacessíveis para grande parte da população.

Mas há uma outra questão que raramente entra na discussão pública: o impacto permanente das obras na vida quotidiana da cidade.

Ruído constante, pó, maquinaria pesada, trânsito alterado. Uma sucessão interminável de estaleiros que transforma o espaço urbano num território de perturbação contínua. A saúde física e mental das pessoas também depende do silêncio, da estabilidade e da relação com o ambiente que as rodeia.Talvez por isso exista um fenómeno silencioso que poucos nomeiam, mas que muitas comunidades começam a sentir: uma espécie de luto ambiental.

Um luto que surge quando desaparecem árvores antigas, quando as paisagens familiares são substituídas por betão, quando os lugares de que guardavam memória deixam de existir.
Mesmo que não seja consciente, a comunidade sente essa perda.

Porque os seres humanos não vivem apenas de infraestruturas e paredes. Vivem também de lugares, de sombra, de pássaros, de ciclos naturais e de paisagens que lhes dão sentido de pertença.
Quando esses elementos desaparecem, algo dentro da própria comunidade entra em processo de luto.

Talvez a verdadeira modernidade não esteja na multiplicação de condomínios ou na velocidade das máquinas. Talvez a verdadeira modernidade seja reaprender algo que os nossos avós já sabiam: que, sem árvores, sem solos vivos e sem equilíbrio com a terra, nenhuma cidade pode realmente prosperar.

Esta dor de luto constante subtrai a capacidade criativa e alimenta uma postura demissionária das próprias populações.

Quem se sente em perigo iminente (e os corpos rodeados deste ambiente ganham a memória silenciada pelo ritmo vertiginoso) não tem forças para reivindicar. Estamos demasiado ocupados a sobreviver. Estamos subjugados.

A perda obriga a momentos de pausa, constantemente rejeitados pelo constrangimento de pagar contas, ter estabilidade, assegurar a segurança dos nossos filhos.

Estamos em luto. Hoje. Há muito tempo. Pelo presente, pela herança ambiental que não nos sentimos capacitados para defender.

Rita Joana Pinheiro Maia é doula de fim de vida, realizadora, cantora, compositora e escritora, com formação em etologia canina, cuidadora dos pais desde os 16 anos, ativista dos cuidadores informais, e fundadora e presidente da Associação Dom Bichon, dedicada ao resgate e acompanhamento do fim de vida de animais.

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