Este mês inauguramos uma nova série que entra na conversa que a sociedade prefere soterrar no silêncio e coloca a morte, a dor e o fim de ciclo onde eles devem estar: no centro das nossas vidas, da nossa cidade e das nossas relações com quem fica. Todos os meses vamos trazer «Cartografias da Morte: A vida depois da vida», assinada por uma doula de fim de vida, realizadora, cantora, compositora e escritora, com formação em etologia canina, cuidadora dos pais desde os 16 anos, ativista dos cuidadores informais e fundadora e presidente da Associação Dom Bichon, dedicada ao resgate e acompanhamento do fim de vida de animais.

Rita Joana cuida dos seus pais, ambos com elevados graus de incapacidade há cerca de três décadas, vivendo na pele o desgaste e o amor profundo dos cuidadores informais. É também ativista em causas ambientais e, com o seu marido, criou a Associação Dom Bichon, dedicada ao resgate, reabilitação e acompanhamento final de vida de animais, com foco forte no luto e no apoio afetivo no fim da vida de bichos que se tornaram familiares.

De Coimbra, cidade que, como diz, «todos têm imensos projetos», Rita Joana junta ainda o seu trabalho como autora do livro infantil A Minha avó é pequenina (com ilustrações de Inês Massano, editora Minerva), que desafia a forma como falamos de cuidado, fragilidade e envelhecimento junto das crianças.

Por que falar de morte hoje?

A série «Cartografias da Morte» quer pôr em palavras aquilo que a sociedade tende a evitar: a morte, o luto, a saudade e a transformação que a perda traz. Rita Joana parte da ideia de que vivemos a morte como choque, porque fugimos das conversas sobre perda, mudanças e despedidas, e que, por isso, não sabemos mais como acolher a dor, nem honrar a memória do que ou de quem se foi.

Vai falar de morte de plantas, de animais, de pessoas, e de como preparar o encontro com a própria morte sem tabu, com ternura, inteligência e respeito. A morte, como nos lembra, não é ruptura total, mas antes um ponto de viragem que desorganiza todas as certezas e nos obriga a reconstruir a nossa vida — e, por isso, também pode ser fonte de transformação, amadurecimento, e até de novas formas de ligação.

O título «Cartografias da Morte: A vida depois da vida» quer dizer isto mesmo: cada luto desenha novos mapas dentro de nós — da nossa relação com quem partiu, com quem fica, com os animais, com a natureza, com a cidade, com a própria existência.

Um espaço de luto, saudade e cuidado

Ao longo dos próximos meses, Rita Joana vai partilhar reflexões sobre luto e saudade, porque acredita que é mais relevante falar dos processos internos do que ficar presa à ideia de catástrofe. A Associação Dom Bicho está, paralelamente, a desenvolver um workshop e workbook de luto e saudade, pensado como um diário e um espaço de despedida, onde as pessoas possam nomear o que sentem, recordar e ritualizar o adeus, num tempo em que a morte tende a ser «higienizada» e os rituais esvaziados.

«Cartografias da Morte» quer ser um espaço aberto, com tempo, com calma, com leitura lenta: um lugar para parar, sentir, escrever e pensar, em vez de fugir. Porque a morte, como Rita Joana nos lembra, não nos rouba a vida: ela é parte do que nos faz humanos, emotivos, ligados e capazes de cuidar, até o fim.

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