Pede-se ao articulista que tenha uma única voz.
Lamentavelmente, não serei capaz de cumprir a regra… Porque o que hoje vos trago fala de mim.
Corrijo; fala de quem amo.
Morreu-me a minha sogra. E com ela morreu-me parte do marido.
Os lutos que aqui tenho abordado parecem mais etéreos; desvinculados. Não se assemelhando às dores que carregamos nos rins.
Mas este talvez vos seja mais próximo, porque fala de um vínculo tão belo; de uma das perdas mais assustadoras.
A orfandade deixa-nos sempre muito frágeis. Transforma-nos em frutos sem árvore… E todos sabemos o que acontece ao fruto depois de colhido, depois de tombado.
Ou é comido ou apodrece. A metáfora parece-me violenta e realista.
Maria Manuela, Nelita como era conhecida, foi fadista, ceramista, mãe. Tinha um feitio que ninguém gostaria de atravessar. Gostava do mar, de bolos e tabaco.
Gostou de muita coisa que me escuso a registar.
Mas foi também, como disse, um ser que pariu. Mulher vítima de violência obstétrica… Essa dita que vai existindo e desexistindo conforme os executivos governamentais. Nasceram-lhe três. Rasgaram-na toda. E assim viveu com uma parte do corpo envergonhada, com pespontos de fraco costureiro.
Os anos trouxeram dores várias. Tinha fibromialgia; outra doença de mulher fraca.
Parte da sua alimentação eram os anti-inflamatório.
Mais recentemente começou com alterações gástricas. Não cagava!
Graça tem o meu pai, que me fez, mas não foi rasgado para me assumir como sua, há muitos anos que sofre da mesma cruz. Ora caga, ora não caga.
A diferença não sei se está no cu ou na merda. Deverá ter género: o primeiro e a segunda.
Quando levo o paizinho ao médico, sinto a recepção diferente.
— Senhor Dr., o papá não defeca.
Que ir à guerra e ter levado um tiro não se deve ver no terceiro olho, mas sempre lhe enfiaram a câmara pela tripa acima.
Já a senhora minha sogra, mulher como tantas, habituada a um grau de dor sem misericórdia, ia sendo limpa… Mesmo depois de lhe encontrarem massas variadas noutras peças, a colonoscopia podia ser feita fora da urgência.
Duas semanas antes de morrer, lá fomos nós.
Recebidos por uma equipa muito competente. O chefe, aliás, telefonou ao filho, meu marido.
— A senhora dona Manuela, já fez o exame?
Que não. Que o havíamos marcado três vezes e, das três vezes, nos tínhamos visto impossibilitados pelas dores, pela prisão de ventre e, finalmente, por uma queda, de o fazer.
Estava preocupado. Com o que via… Com o que suspeitava.
Com a queda, foi levada de ambulância para os serviços de emergência. Deram-lhe alta… e, logo de seguida comunicam à família que se arrependeram. Afinal a mulher não se tinha nas canetas tendo que lá ficar.
Três dias com pedido feito para a colonoscopia ser realizada no hospital. E a senhora, deitada, esperando.
— Mas afinal, o que tem a minha sogra? — perguntei diversas vezes.
Massas… Soubesse a senhora quanta massa tinha e teria partido com a alegria de quem deixa valente herança.
Mas diagnóstico, nem vê-lo.
Procuravam a origem. Todos sabemos que é questão filosófica que nos encanta a todos… a origem!
Poderia ser operável, diziam.
No dia da sua morte, o chefe de equipa, com semblante pesado, comunica-me: “Temos horas ou dias.”
Na véspera, a Nelita pediu-me bolos.
Respondi que não podia. Que estava à espera de vaga para fazer o exame. Que poderia ter que ser intervencionada de urgência.
Olhou-me resignada.
Enquanto ouvia o senhor doutor com a sentença na boca, só me recordava que lhe tinha negado o último e simples desejo: bolos. Agora, com ela inconsciente, ficavam-me nas mãos as fomes da moribunda. E eu, furibunda!
Mas avanço!
O marido fechou a loja; os outros dois filhos juntaram-se no leito de morte… Aguardando o último suspiro.
Conseguiram um quarto individual. Algum que bateu as botas antes. Caso contrário, ter-nos-íamos mantido num quarto de três, com a televisão aos gritos e a voz da Cristina Ferreira a acompanhar o desencarne.
Momentos depois de a instalarem com os filhos, entra uma enfermeira com um homem carregado de ferramentas.
Que a maçaneta da casa de banho estava estragada. Se não se importavam que a arranjassem. Com certeza teriam concluído que a quase morta não se incomodaria…
Fui fumar um cigarro e, na volta, o meu marido disse-me.
— Acabou de morrer.
Uma enfermeira entra.
Abana o corpo, aos gritos.
— Dona Manuela! Ó Dona Manuela.
A morta recusou responder.
Falando com um dos médicos sobre os procedimentos que viriam, vejo uma enfermeira dirigindo-nos as condolências. Falava e choramingava.
Perguntei se, dadas as circunstâncias, haveria necessidade de fazer o reconhecimento.
Mil voltas deu o homem para nunca dizer a palavra corpo ou a palavra morte.
Uma das regras da comunicação com as famílias é a obrigatoriedade da utilização da nomenclatura adequada.
O cérebro recusa um acontecimento desta monta. Dizer “a sua mãe morreu”, ajuda à aceitação. Mas… a fragilidade humana é lixada. E uma equipa de saúde inteira não foi capaz de encontrar uma alma de coragem.
Não estou a acusar ou a condenar indivíduos. Estou a contar-vos como é grave não tratarmos a finitude como disciplina.
A falta de diagnóstico não foi técnica. Foi humana.
Nenhum quis ser confrontado com a paciente, em fim de vida, consciente; ninguém quis comunicar à família que a perda estava iminente.
Ninguém teve formação para dignificar este momento… E como vivem todos os dias com a dor de não poderem cumprir com o seu papel de deuses salvadores, a defesa que aprenderam foi esta: adiar.
E assim se rouba o que mais precioso existe: o tempo derradeiro.
O momento em que cada um poderia dizer, escutar, chorar, amar, rir, partilhar e comer bolos.
O meu marido é um homem doce… Mas está rijo. Empedernido.
Os lutos diferem.
Mas eu tenho-lhe chorado este saque.
Haja cu, Nelita, para tanta fraqueza de espírito.
Pode ser que um dia os doutores aceitem que não podem salvar todos e se permitam essa fragilidade… Pelos que partem sem saber que estão de partida. Por todos os que beijam sem saber que nunca mais beijarão.
