Nem todos os lutos entram pelas portas das igrejas, nem deixam flores sobre um caixão. Alguns não têm cerimónia, nem condolências, nem uma data para serem lembrados. Instalam-se devagar, enquanto continuamos a trabalhar, a pagar impostos, a educar os filhos e a acreditar que amanhã há de ser um pouco melhor. Só muito mais tarde percebemos que morreu algo. Uma ideia. Um valor. Um princípio que julgávamos inabalável.

Estamos rodeados de lutos invisíveis.

Perdemos a confiança sem darmos por isso. Perdemos a ética sem lhe fazer funeral. Perdemos a capacidade de distinguir desenvolvimento de destruição, progresso de especulação. Habituámo-nos, com uma inquietante naturalidade, à ideia de que tudo pode ser medido pela rentabilidade, como se a dignidade humana, a floresta, a memória ou a palavra dada coubessem numa folha de Excel.

A palavra crescimento adquiriu uma autoridade quase sagrada.

Crescimento económico.

Crescimento urbano.

Crescimento imobiliário.

Crescimento turístico.

Sempre crescer.

Como se uma árvore fosse saudável apenas porque continua a aumentar de tamanho, mesmo quando já apodrece por dentro.

Há dias caminhei por um eucaliptal. Da estrada via-se o habitual: eucaliptos, mais eucaliptos, uma paisagem uniforme que dificilmente faria alguém abrandar o passo. Bastou afastar-me alguns metros para encontrar outro mundo: sobreiros, castanheiros, aves de rapina, um silêncio limpo, daqueles que quase nos constrangem porque já nos desacostumámos deles.

Fazemos exatamente o mesmo às pessoas e às sociedades.

Ficamos pela superfície.

Pela aparência.

Pelo rótulo.

Pela utilidade.

Já quase ninguém entra.

Deve ser por isso também nos convencemos de que a crise da habitação se resolve apenas construindo mais. Constrói-se, aprova-se, loteia-se. Mas… para quem?

Multiplicam-se empreendimentos cujo preço exclui precisamente aqueles cuja dificuldade serve de argumento para justificar a urgência da construção. O problema nunca foi apenas construir casas. Foi construir um discurso suficientemente eficaz para convencer um país de que os direitos podem ser apresentados como favores.

Quando uma família recebe uma habitação pública, não recebe caridade. Vê reconhecido um direito que o Estado tem a obrigação de garantir. Não existe benevolência onde existe um dever.

Ainda assim, insistimos na encenação.

Chamam-se as famílias.

Dizem-se os nomes.

Apontam-se as câmaras.

Procura-se a emoção.

A fragilidade transforma-se em cenário.

Não consigo deixar de perguntar porquê.

Porque razão um cidadão há de expor também a sua intimidade para exercer um direito?

Há qualquer coisa muito portuguesa neste ritual. Um leve aroma feudalismo. Parecemos continuar à espera de alguém que, da varanda do poder, distribua favores ao povo reunido na praça.

Pensávamos ter deixado esse país para trás. Que saudosismo será este?

Saímos das aldeias em busca de qualidade de vida e reproduzimos um sistema hierárquico não legislado, agora com contornos democráticos.

Mudaram os edifícios.

Mudaram os cargos.

Mudaram os microfones.

Mas permanece esta estranha necessidade de transformar direitos em atos de magnanimidade.

Falemos então da profundidade deste luto colectivo, social.

Um luto que não fala apenas da pobreza ou da dificuldade de acesso à habitação; que se expande no desgaste da confiança nas instituições.

Quando governantes representam o Estado em cerimónias desta natureza enquanto subsistem controvérsias públicas ou processos judiciais relacionados com decisões tomadas no exercício de funções anteriores — como sucede no caso amplamente divulgado envolvendo Miguel Pinto Luz e os atos urbanísticos contestados pelo Ministério Público, cuja legalidade o próprio sempre afirmou não ter violado — a questão deixa de ser apenas jurídica.

As instituições vivem da legalidade.

Mas vivem igualmente da credibilidade.

Independentemente do desfecho judicial, os símbolos contam. A confiança dos cidadãos constrói-se tanto pelas decisões como pela imagem de exemplaridade que o poder transmite.

É esta a verdadeira fadiga do nosso tempo.

Não nasce de um caso concreto, nem de um governo ou de uma legislatura. Nasce do afastamento crescente entre o discurso oficial e aquilo que os cidadãos observam todos os dias. Do cansaço de quem cumpre deveres enquanto sente que o poder exige cada vez menos de si próprio.

Foi-se perdendo, quase sem darmos por isso, o sentido da exemplaridade.

E quando quem exerce funções públicas deixa de sentir a obrigação de ser exemplar, a democracia perde uma das suas colunas mais discretas.

Não é a legalidade que se rompe primeiro.

É a autoridade moral.

Essa não se decreta.

Não se regulamenta.

Não se impõe.

Conquista-se.

E basta muito pouco para a perder.

Será que o maior equívoco do nosso tempo é acreditar que a democracia se resume ao ato de votar.

A democracia é uma cultura. Feita de informação, formação e intervenção.

É uma disciplina; uma forma de caráter.

É a consciência permanente de que o poder nunca pertence verdadeiramente a quem o exerce. É sempre um empréstimo. Breve. Revogável. Exigente. Ou assim se espera.

O povo não é um instrumento.

Os grandes lutos da humanidade raramente começam nos cemitérios.

Começam muito antes.

No dia em que deixamos de corar perante aquilo que nunca deveria ter parecido normal.

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