Tudo começou com um desodorizante. «Tinha uma rotina muito agitada e muita dificuldade em encontrar um que fosse ao encontro das minhas necessidades», conta Inês Avelar no espaço da Mirística no Mercado do Amanhã do Circular 23. O perfume e as cores encheram-nos de curiosidade para saber a história da comerciante que já tinha alguma preocupação com as substâncias que colocava no corpo e quando deu por ela estava a procurar uma solução que fosse natural, segura para o organismo e sustentável. Mas não se limitou a comprar. Pesquisou e começou a fazer em casa. Depois de várias testes conseguiu o que queria com três ingredientes: óleo de coco, bicarbonato de sódio e amido de milho. «Cheguei a uma solução muito muito boa, muito eficaz e foi isso que me basicamente me deu aqui a motivação para começar.»

Foi há nove anos. E se ouvir falar de biocosmética vegana ainda não é propriamente comum, imaginem produzir em 2014, mas foi nessa aventura que Inês Avelar embarcou, ainda a sua morada era Almada. Hoje é em e a partir de Serpins que produz e vende os seus produtos de cosmética artesanal vegana Mirística, porque para Inês e o marido, Bruno Saraiva, era importante estar mais perto da natureza e foi aqui ao lado, na vila e freguesia do município de Lousã, que decidiram montar o laboratório e balcão para levantamento de encomendas.

O desodorizante foi a alavanca. Da vontade de reduzir a própria pegada ecológica Inês Avelar quis também oferecer a quem quisesse alternativas à cosmética produzida em massa e não demorou a prosseguir com a pesquisou e começar a substituir todos os produtos de cosmética que já utilizava, inclusive detergentes. O resultado foi «um produto sólido, muito desengordurante e eficaz a remover a sujidade e as gorduras. Com ele dá para fazer diversos produtos de limpeza para o lar e a partir deste sabão conseguimos fazer toda uma série de produtos para o nosso dia-a-dia», explica.

Sabão artesanal para a loiça e roupa, detergente ecológico para a máquina, todos os produtos foram surgindo a partir da necessidade pessoal e dos clientes. A oferta é a mais variada possível e vai desde produtos de higiene como pastas de dentes, desodorizantes, sabonetes e champôs (secos, para cuidar de rastas, sérums, condicionadores e máscaras capilares) até aos produtos para o corpo e para o rosto como esfoliantes, cremes faciais, cremes de olhos, tónicos refrescantes, máscaras faciais, citronela e neem, loção para depois do sol e água micelar. Femininos e masculinos.

Além da ausência de químicos, a vantagem dos cosméticos biológicos é a durabilidade. «Dão para muito mais utilizações. Temos muitos produtos que nem sequer contém água na composição, como os nossos desodorizantes e os bálsamos, que são produtos muito concentrados.» Inês refere ainda as máscaras faciais e capilares à base de pó, em que o consumidor só deve acrescentar água e multiplica a quantidade de produto.

Os acessórios completam a vasta gama da Mirística e são feitos de desperdício. Saboneteiras e pentes feitos com sobras de madeira, escovas de dentes recarregáveis que permitem trocar apenas a cerda e manter o cabo, com diversos modelos e tipos de materiais como o bioplástico, a madeira de faia e a madeira de nogueira. Os ingredientes são de origem natural e «têm muitos benefícios para a nossa pele, para o cuidado da nossa pele e não só», sublinha Inês Avelar que trabalha diretamente com as plantas e tudo o que provém delas, dos óleos às manteigas, além de ingredientes e origem mineral como argilas e pigmentos que dão as cores aos produtos.

Ver para crer

A Mirística tem loja online desde a fundação, por isso a mudança de morada não perturbou as vendas e Inês Avelar garante que a procura tem aumentado. «Estou muito inserida dentro deste meio, já são muitos anos a trabalhar e é claro que quanto mais nos rodeamos do nosso nicho mais sentimos que ele é maior do que às vezes é», mas para a produtora a diversidade, visibilidade e comunicação são essenciais para que mais pessoas optem por este tipo de soluções.

No que toca a preços, a diferença nota-se apenas relativamente às marcas brancas. Inês garante que quando o produto é feito com «ingredientes de elevada qualidade temos sempre de nos comparar a produtos com um grau de qualidade semelhante» e conta que o negócio avançou também graças às dúvidas dos clientes sobre onde adquirir, porque muitos produtos «eram difíceis de encontrar em Portugal». E até «ensina a pescar». Partilha as receitas, faz oficinas onde ensina a fazer os produtos cosméticos que vende e participa em palestras e conferências de consciencialização sobre o impacto negativo da produção de cosméticos em massa, dos testes em animais e a importância de reduzir a pegada ecológica e preservar a biodiversidade do planeta.  

Querem mudar para biocosméticas e não sabem como? «O que eu recomendo sempre é não mudar tudo de um dia para o outro, porque é muito mais difícil de nos adaptarmos a uma mudança gigante do que ir mudando aos poucos», recomenda Inês Avelar, e também diz para «não deitar fora aquilo que já temos em casa, utilizar até ao fim».

A empresária confessa que em sítios como Lisboa há «mais pessoas direcionadas para este tipo de produto e mais iniciativas que proporcionavam o encontro com este tipo de produtos» e Coimbra precisa de mais eventos como o Circular 23 e o Coimbra Vegan Market para criar uma «maior proximidade do público com este tipo de produtos.» A Mirística faz a sua parte e está, aos poucos, a marcar cada vez mais presença nos eventos do género da região.

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