«Vocês têm vinhos incríveis e tão baratos! Como é que não ouvimos falar mais deles?», atira Latoya Hamilton. Três horas e dez copos de vinho depois, ela, Nicole e Dwane Barrett só queriam saber onde iam jantar a seguir. São jamaicanos, vivem em Nova Iorque e durante as férias em Lisboa decidiram vir a Coimbra assistir à masterclass «Redescobrindo Rioja», na The Winehouse. A mentora foi Nika Shevela, especialista em vinhos espanhóis, que conheceu Sara Matos, fundadora da escola de vinho, nas aulas para obtenção do certificado Wine and Spirit Education Trust (WSET), em Londres.
A sala estava cheia; o ambiente, acolhedor e informal. Sara alternava entre o inglês e o português, nesta que era a última iniciativa de 2023, às portas de 2024 e do quarto aniversário da única escola de vinho em Portugal. Já se sentia o aroma a planos para este ano no ar. Wine Games, Viagem de Estudo ao Jura (França), cursos de Introdução ao Vinho e de Especialista em Vinhos Portugueses, além dos cursos de Qualificação Nível 1 e Nível 2 em Vinhos, da WSETGlobal. Sara está a terminar o Nível 4 numa escola no Reino Unido para poder ensinar o Nível 3. Quando isso acontecer, a The Winehouse passa a ser o terceiro sítio no país onde isso se pode fazer, primeiro na Região Centro e a ser leccionada por uma mulher.
Voltando aos Barrets, Dwane não hesitou na resposta quando lhe perguntei por que estava ali: «A minha mulher queria vir e vim acompanhá-la». Nika Shevela foi incansável. Falou de vinho como se fosse água e fez com que o chamado néctar dos deuses se tornasse acessível a todos, com mais ou menos conhecimento sobre o assunto. É precisamente essa a linha de Sara Matos, a one woman show que não se intimida quando a sala só tem homens, mas admite ter um prazer diferente quando são elas a procurá-la, ou não continuassem maioritariamente «nos bastidores» deste universo enófilo.
«A questão do género é muito interessante e muitas vezes abordada de forma errada. Quando falamos de igualdade é igualdade de oportunidades. Não pretendo ser um homem na minha vida privada ou profissional, como formadora de adultos acredito na capacitação de pessoas. Há tendências gerais, as mulheres tendem a estar na sombra, mas é também um facto que são diferentes dos homens em muitas coisas. Muitas dizem que não percebem nada de vinho, mas se pedirmos para analisarem um vinho de forma intuitiva dizem coisas muito acertadas, porque [historicamente] estão mais associadas aos cheiros e expostas às coisas que estão na cozinha, por exemplo, como as especiarias».

Sara fundou e é a única funcionária deste espaço democrático dedicado ao conhecimento, mas também à partilha. Sozinha, mas rodeada de parceiros, alguns dos tempos em que era gestora na Adega Luís Pato e na Lavradores de Feitoria, a técnica, formada em Relações Internacionais com pós-graduação em Enologia, montou do zero o negócio na Quinta da Portela e ainda teve tempo de se dedicar ao estudo, criar a própria marca de vinho (Defio), fazer consultoria para cafés e restaurantes, ensinar o módulo Atlas e Vinhos do Mundo do Curso de Escanção da Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste, e colaborar e ser membro do painel de provas da Revista de Vinhos.
Há um ano foi membro do júri do programa de capacitação da Geração Coolectiva. Em Outubro passado, foi uma das cinco mulheres ao nível mundial a receber uma bolsa de estudo para a conclusão do diploma WSET da fundação norte-americana Women of the Vine & Spirits Foundation.
Ninguém diria, mas todo este percurso foi atropelado pela pandemia, apenas duas semanas depois de arrancar. «Eu tinha esta ideia ingénua de que a partir do momento em que reabríssemos as portas as pessoas iam querer vir, mas foi extremamente gradual e só hoje estou a começar a sentir,
no meu negócio, uma aproximação ao que tínhamos antes. Não soube ler bem como ia ser este regresso pós-covid, mas tenho pessoas desde o início no Clube de Vinhos, por exemplo, que é fruto da pandemia.»
O Clube de Vinho é uma subscrição mensal, para que quem quiser possa receber vinhos de acordo com os seus gostos.
Nesta sala onde estamos, estão pessoas que nunca cá tinham estado, como os Barret, mas também vários alunos habituais. «Eu devia estar muito inspirada quando criei o nome, porque a ideia era mesmo que isto fosse uma casa. Há alunos que fazem os cursos e parece que desaparecem mas não, voltam mais tarde, quer para pedir um conselho, quer para fazer um curso. Há muita gente que não é profissional da área porque aprender sobre o vinho tem a ver com a forma como maximizas o teu prazer, e o prazer não está só relacionado com o vinho em si. Está relacionado com as pessoas com quem o partilhas, com a comida, com os lugares e isto é sustentável. Tu criares uma relação emocional com qualquer coisa, neste caso um produto, é uma ligação muito mais sustentável e, portanto, voltas sempre a casa.»
Sara recebe sempre os alunos com um sorriso rasgado — e não raras vezes acentuado por um batom carmim — e confessa que, apesar do lado solitário e de muito trabalho de preparação e estudo, actualmente, «em tudo o que esteja relacionado com o vinho, as pessoas reconhecem a credibilidade e o profissionalismo» da marca que criou com um objectivo: o de «ligar pessoas». «Às vezes, estão muito separadas. Ou porque não querem dar a entender que precisam de ajuda, ou porque não conhecem ou por estarem fechadas no seu dia-a-dia. Eu gosto de sentir que ligo pessoas aos produtores, produtores aos servidores, servidores aos restaurantes, todos os actores, alunos, mercado de trabalho ou apenas entusiastas.»
Empreendedorismo em Coimbra
«Sem ser condescendente, acho que há algo na nossa geração que é mais aproximador, no sentido em que criamos amizades e essas amizades não são estanques com o facto de sermos profissionais. Quando não posso fazer alguma coisa, peço a amigos para me substituirem e encaro isso sem competitividade, vejo quem pode fazer por mim ou comigo», contou Sara, que, em 2022, criou o vinho Defio com Ana Sofia Oliveira (Wine Agency): um tinto Baga Clarete, primeiro vinho premium sem gás em lata (e em breve também em garrafa), feito com a Nieeport, na Bairrada; e um branco de Curtimenta, em cumplicidade com Rodrigo Martins da Espera, na região de Lisboa.
Também tem um Grape Ale com a cervejeira artesanal Epicura, que é uma mistura de vinho branco com cerveja. Encontram-na no restaurante O Palco, por exemplo. Nas cubas de cimento da WiseShape está neste momento um branco Dão, feito com Carlos Raposo. «Fazemos vinhos que gostamos com as pessoas de quem gostamos», disse Sara, sublinhando que «a WiseShape é uma empresa local gerida por uma mulher, que é inclusiva, que dá postos de trabalho e faz cubas de vinho. Tem uma visão global e possibilidade de crescimento a nível mundial». «Coimbra tem muita coisa a dar ao mundo e não só a si própria», rematou.

Apesar de Portugal ser um país de vinho, o conhecimento parece ser eternamente «só para alguns». «Criou-se a ideia de que o vinho é uma coisa tão distante, tão difícil de falar, com palavras tão difíceis, que as pessoas acham que é inalcançável. Sentem-se inibidas, mas eu quero acabar com essa ideia através desta ideia de comunidade ou de várias comunidade de alunos, de produtores, etc». Sara defende e promove a proximidade, mesmo dentro do sector, e também tomou a iniciativa de criar mapas para corrigir alguns erros comuns sobre a geografia nacional.

«Havia muita informação em inglês, mas os mapas de Portugal estavam todos errados e quis fazer eu bem. Há livros fantásticos sobre castas internacionais, mas não sobre castas portuguesas. Gostava de fazer um, um dia.»
O Mapa vitivinícola de Portugal, com design de Joana Corker, inclui as regiões demarcadas, as denominações de origem, os anos de demarcação, as sub-regiões, as castas mais prestigiadas, os principais rios e serras. Foi o primeiro de uma série de 15 que deve ficar disponível este ano. Os restantes 14 são de cada uma das regiões demarcadas. Já estão à venda os da Bairrada e do Douro.
Quanto à promoção dos vinhos nacionais de que falávamos no início, há «muito caminho a trilhar». «No Curso de Escanção alguém me disse: “Temos de dizer às pessoas que o Arinto de Bucelas
é o nosso Chardonnay”. Mas não. Não temos de dizer nada disso. Os estrangeiros têm de começar a dizer Arinto, Encruzado, Baga. As nossas palavras, ainda que possas comparar para dizeres o estilo de vinho de que gostas. Temos de fazer esse trabalho de os obrigar a dizer as palavras. Acham que os ingleses conseguem dizer os nomes franceses? Não conseguem, mas bebem na mesma, conhecem na mesma», defendeu Sara. «É um trabalho que tem de partir de nós, deixar de nos estarmos sempre a comparar.»
Os Wine Games são um dos cursos com mais sucesso na The Winehouse. Em duas horas e através de jogos interactivos relacionados com o vinho e os sentidos, os participantes percebem que há razões fisiológicas e psicológicas para gostarem dos vinhos que gostam e que não há problema em gostar de vinhos diferentes do vizinho ou da maioria. As aulas podem oferecer-se, através de vouchers, e actualmente os jogos fazem grande sucesso como actividades de team building de empresas locais.
«Há várias grandes empresas que estou a descobrir e que têm muita gente e operam a nível global, mas estão mais na sombra. É um desconhecimento quando se diz que Coimbra é pequena. É que quem está a trabalhar não precisa de se estar sempre a publicitar-se a si mesmo.»
Na caixa de desejos para 2024 de Sara e da The Winehouse está a criação de uma bolsa para quem quiser fazer o Nível 1 do WSET, abrindo a possibilidade a outros actores do sector de oferecerem os outros níveis nos anos seguintes. «Estou a definir as regras, mas a ideia é que seja motivacional e independente do facto de a pessoa trabalhar ou não no sector», explicou a fundadora. Criar uma feira ou festival com os vinhos que ela e Ana Sofia Oliveira gostam — naturais, de mínima intervenção e castas indígenas — é «uma coisa que gosta[vam] muito de fazer, mas não está no topo da pirâmide. Mais uma vez, a vontade de juntar «pessoas de quem gostamos que fazem coisas de que gostamos».
Cool Games
- Que livros sobre vinhos recomendas?
As Castas do Vinho Misturadas com histórias (João Afonso, Oficina do Livro, 2023) e The Concise World Atlas of Wine (Hugh Johnson e Jancis Robinson, 2012) - Vinho favorito?
Espera Curtimenta. - Restaurante em Coimbra onde te sentes em casa?
Notes. - Se tiveres de comprar vinho, onde vais?
Aos distribuidores com quem trabalho.

- E quem for ao supermercado?
Escolha as garrafas mais atrás, no escuro. - Qual é o mínimo que deste por um vinho e depois disseste: “Isto é muito bom”?
7 ou 8€ - O mais raro que bebeste?
Romanée–Conti. - Ainda há vinhos que te surpreendem?
Aconteceu a dar aulas sentir-me arrepiada e virem as lágrimas aos olhos. É como com as pessoas, achamos que conhecemos só de olhar, mas calma: é preciso provar.
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