Num cenário de estradas cortadas, aldeias isoladas e prejuízos avultados, o professor Fernando Seabra Santos, antigo reitor da Universidade de Coimbra e referência em engenharia hidráulica, traça um diagnóstico implacável das cheias recentes no Baixo Mondego. Em entrevista à Coimbra Coolectiva, o académico atribui a culpa principal à «incúria humana» – essa mistura de desleixo e falta de visão de futuro que compromete infraestruturas caras e bem planeadas, concluídas há mais de quatro décadas. Mas há esperança: com gestão adequada, manutenção rigorosa e decisões políticas corajosas, como a retoma da barragem de Girabolhos, o rio Mondego pode voltar a ser dominado. Entre mitos desmontados e soluções concretas, Seabra Santos guia-nos pelo labirinto técnico do problema.
Da cacofonia informativa ao cerne da questão
Uma desgraça nunca vem só. «Este episódio das cheias do Mondego, às quais se seguiu uma enxurrada de desinformação, que confunde a opinião pública e que não serve para nada, é mais um exemplo disso», dispara o professor. Listas intermináveis de causas – essenciais, acessórias ou pura invenção – termos incorretos, conceitos errados, unidades trocadas, só geram confusão. O conhecimento científico baseado em evidência, por natureza objetivo e, como tal, tendencialmente agregador, é substituído pelo conhecimento para-científico baseado em perceção e preconceito, por natureza subjetivo e centrífugo, democrático na ignorância e com consequências nefastas. Para Seabra Santos, esta desordem informativa é um primeiro obstáculo a que a opinião pública compreenda o que se passou: Por que razão estas cheias se repetem, apesar dos grandes investimentos que fizemos e das grandes infraestruturas que construímos, por que razão as suas consequências são tão devastadoras?
A resposta, complexa por natureza, resume-se com simplicidade em três grupos de razões: incúria humana, gestão hidráulica ineficiente e alterações no regime da bacia hidrográfica. Vamos por partes, seguindo a lógica do especialista.
Incúria: o desleixo que trai os grandes investimentos
«Se eu tivesse de responder rapidamente, diria que a primeira grande responsabilidade é a incúria. Incúria humana», afirma categórico. O Baixo Mondego é um sistema engenhoso: um canal artificial de 40 km ladeado por diques de aterro, com núcleo de argila impermeável e enrocamentos de proteção contra a erosão. Projetados na década de 70 pelo engenheiro Armando Lencastre (obras concluídas em 1981), estes diques canalizam a água do rio entre Coimbra e Figueira da Foz. Funcionam? Sim, se forem bem mantidos. O problema é que a sociedade, que foi capaz de libertar «somas muito grandes» para os construir, desvaloriza a necessidade de manutenção, apesar de saber que isso é essencial. Esquece que eles requerem atenção regular ao longo de todo o ciclo da sua vida útil: limpeza, reparações, monitorização permanente.
O filósofo José Gil baptizou este comportamento, que segundo ele nos é característico, de «não inscrição» – uma falha de caráter, como o desleixo. Resultado? Taludes internos, que deveriam ser prados ou cobertos com vegetação rasteira, estão hoje cobertos de florestas densas, de choupos, eucaliptos, acácias, plátanos, pinheiros, … visíveis no Google Earth, de Coimbra à Figueira. «Isso diminui a capacidade de transporte do leito e aumenta a altura de água em toda a extensão do rio em cerca de um metro, quando já nos encontramos no limite do galgamento dos diques», quantifica. Uma pressão ideológica de «jardim em todo o lado» tende a inibir a única atitude tecnicamente fundamentada, a de desmatar anualmente o leito do rio.
Igualmente importante é a reposição regular da cota de coroamento dos diques que, por assentamento natural do aterro em quarenta anos de funcionamento, apresenta em alguns pontos diferenças da ordem das dezenas de centímetros. A própria estrutura dos diques, fragilizada ao longo dos 45 anos de funcionamento e sobretudo nos anos em que ocorreram as maiores cheias, não tem sido convenientemente reposta.
Ainda no plano da falta de manutenção da infraestrutura, dos quatro diques de proteção existentes na margem direita do rio, só dois funcionaram. «Se o dique sifão 3, localizado imediatamente a montante da autoestrada tivesse funcionado, o nível da água naquela zona teria sido reduzido em cerca de 20 cm e a rotura podia ter sido evitada», informa.
Da má gestão das barragens à fúria dos caudais
Não para por aí. A segunda causa liga-se à «falta de capacidade de gestão». A barragem da Aguieira é um empreendimento de fins múltiplos que pode, e deve, ser utilizado, como fonte de energia renovável para produção de eletricidade, a uma cota alta. Mas, na aproximação de fenómenos atmosféricos que façam prever a ocorrência de chuvadas intensas e/ou prolongadas sobre a bacia, a sua utilização prioritária deve passar a responder a um outro fim, o controlo de cheias. A cota de espera deve ser trazida para valores mais baixos, que estão estabelecidos, de forma a criar um volume de retenção capaz de modelar a cheia e de mitigar os seus efeitos. Ora, tanto na cheia de 2001 como na de 2016 (e em menor escala também na de 2019), essa transição não decorreu com a rapidez e a amplitude que estão definidas em protocolo, significando isto que o operador não foi capaz de resolver convenientemente o conflito entre o interesse económico associado à produção de eletricidade e o interesse público do controlo da cheia, em prejuízo deste último.



Dragagens negligenciadas e erosões descontroladas
A manutenção das cotas do fundo é outra operação necessária que não está a ser executada. A areia acumula-se em Coimbra, entre a Portela e o Açude, à taxa aproximada de 70-80 mil m³ por ano. Dragagens? Só uma desde que as obras foram executadas em 1981, efetuada em 2018 e 2019. «Precisamos de intervir a cada três anos, retirando 200 mil m³ para manter a cota de fundo projetada», explica. Cada metro dragado na vertical, representa uma diminuição de igual valor da cota da superfície da cheia, em regime quase uniforme. A erosão a jusante (Coimbra-Montemor), a uma taxa idêntica (80 mil m³/ano), escava pilares de pontes – risco real, como em Entre-os-Rios. Solução lógica: transpor areia de montante para jusante, com monitorização batimétrica regular para controlar o sistema, como todos sabemos que tem de ser feito.
E entramos no terceiro pilar, as mudanças no comportamento hidráulico da bacia, difíceis de quantificar. Projetado nos anos 1970, o sistema enfrenta agora um rio mais selvagem: precipitações intensas e prolongadas, desviando-se das previsões, culpa das alterações climáticas? Como pano de fundo, sem dúvida. Mas Seabra Santos aponta sobretudo o dedo aos incêndios: É impressionante a mancha que os incêndios de 2017 e de 2025 representam na bacia hidrográfica do Mondego. E é sintomático que as grandes cheias sucedam aos grandes incêndios. «Eles eliminam o coberto vegetal das encostas, diminuem a infiltração, aumentam escorrências superficiais e concentram picos de cheia de forma avassaladora». Em resultado, o «rio natural» comporta-se hoje de modo «ainda mais violento» que no passado e, portanto, mais difícil de domar. O que há a fazer é rever os protocolos de operação da Aguieira, diminuindo a cota de espera e aumentando o caudal descarregado em momentos de maior alívio no Açude.
Destaques positivos e medidas imediatas
Nem tudo são nuvens negras. Nesta cheia de 2026, três «novidades positivas»: a gestão muito boa da Aguieira mostrando que, pelo menos neste aspeto, a APA – Agência Portuguesa do Ambiente aprendeu com os erros do passado, a iniciativa corajosa e eficaz do comandante Carlos Tavares (Proteção Civil) de propor o corte da A1, atitude que provavelmente terá salvado muitas vidas, e a liderança irrepreensível da presidente da Câmara de Coimbra. Para já, urge desmatar anualmente os taludes, fazer dragagens trienais, repor rapidamente os diques degradados e concluir a infraestrutura. Estes são os passos baratos, urgentes e essenciais, mil vezes mais eficazes que as habituais promessas reativas maximalistas pós-tragédia, de repensar todo o sistema, de pôr em causa todas as decisões, de começar tudo de novo.
Girabolhos: a barragem essencial para regularizar cheias e secas
Uma outra finalidade da Barragem da Aguieira é a de garantir o fornecimento de água durante o período de verão. Às populações, à indústria e à agricultura. A concretização deste objetivo não nos deixa uma margem ilimitada para adaptar o protocolo de funcionamento em regime de cheia. Exemplificando: se, com uma cota de espera de 116 m na Aguieira, a que corresponde 63% da capacidade total da albufeira, foi possível reduzir a cheia natural de 2026 em Coimbra de 3400 m³/s para 2100 m³/s, teria sido necessário, pelas nossas contas, diminuir a cota de espera para 112 m (52% da capacidade) para conseguir que a cheia em Coimbra não tivesse ultrapassado os 1600 m³/s. Ora, com uma redução tão drástica da capacidade armazenada, aumenta a probabilidade de que a precipitação sobre a bacia, que venha a ocorrer entre o final da cheia e o início do verão, não seja suficiente para repor o volume de água necessário ao fornecimento num período de seca.
«É este jogo que torna essencial a construção da barragem de Girabolhos», defende o professor Fernando Seabra Santos. Com uma capacidade de 340 milhões de metros cúbicos – 80% dos 423 milhões da Aguieira –, Girabolhos funcionaria como reserva estratégica de água, permitindo, como explica Seabra Santos, «fazer uma gestão racional dos recursos hídricos numa base intersazonal, mas também, e isso é cada vez mais importante, numa base interanual, atendendo à prevista diminuição da precipitação média sobre os Países da Europa do Sul e consequente aumento da probabilidade de ocorrência do chamado stress hídrico. Reservar esta água do inverno para o verão, até de uns anos para os outros, não a deixar escoar para o oceano porque é aqui que nós precisamos dela».
O projeto está pronto, com estudo de impacto ambiental concluído. A obra chegou a avançar em modelo de PPP – Parceria Público-Privada, a Endesa investiu 60 milhões de euros em acessos antes de desistir por razões técnico-económicas, conforme esclareceu o ex-ministro Matos Fernandes, que negou pressões políticas da «geringonça» para descontinuar a obra em 2016 –, mas pode ser retomada rapidamente. Inscrita no PROT-C – Plano Regional de Ordenamento do Território do Centro, recentemente aprovado em Conselho de Ministros, com apoio de autarquias e consenso público muito alargado, Seabra Santos estima um prazo de 4 a 6 anos para a sua execução: «Um tempo mais do que suficiente».
Seabra Santos alerta ainda contra a tentação de adotar soluções do tipo pequenas bacias de retenção que, embora muito adequadas no plano da arquitetura paisagista, se revelam muito pouco eficazes quando se trata de domar caudais da ordem das centenas ou milhares de metros cúbicos por segundo. É necessário fazer contas, mas à partida, não há maneira de dominar uma cheia destas a não ser com grandes embalses, com grandes barragens.
Estrutura permanente e ordenamento lúcido
Seabra Santos sonha com uma entidade dedicada ao Mondego, porque «o rio precisa de quem cuide dele»: foco e responsabilização; monitorização pluviométrica, hidrométrica e batimétrica, modelação em tempo real para prever as respostas do rio e pilotar a gestão hidráulica das comportas; definição de um plano de manutenção de toda a infraestrutura e meios para o executar; redefinição do protocolo de gestão hidráulica da Aguieira enquanto Girabolhos não estiver concluído. No ordenamento, realismo: Parque Verde e Choupalinho podem deixar de ser inundados, pelo menos com tanta frequência. A rutura dos diques do Baixo Mondego pode ser evitada. «As obras domaram o Mondego em larga medida, mas precisam de ser mantidas, geridas, concluídas e complementadas face ao que mudou desde 1981», resume.
Num país de contrastes hídricos acentuados, tanto no espaço como no tempo, onde o Alqueva gerido com profissionalismo está a transformar o Alentejo, o Baixo Mondego clama por política consequente – não reações impulsivas. O País não tem carência de água, mas tem carência de gestão da água. Fernando Seabra Santos oferece o mapa: cabe à sociedade e aos decisores traçar o caminho.
