Um amigo ofereceu-me um livro precioso. «Pensar Como Uma Montanha», de Aldo Leopold (1887-1948), apela a uma ética da terra, que a partir da contemplação considera a terra elemento da comunidade, com a qual os humanos se devem relacionar eticamente. A dado ponto narra o corte de um velho carvalho atingido mortalmente por um raio. Quinze páginas descrevem o processo demorado em que o enorme tronco seco é cortado por homens com uma grande serra, viajando no tempo em sentido inverso, desde aquela circunstância no inverno de 1930 até 1865, quando a bolota vingou num descampado de adversidades. «Compreendemos que aquelas duas pilhas de serrim eram algo mais do que madeira: eram o corte transversal integral de todo um século; que a nossa serra estava a abrir caminho, golpe a golpe, década a década na cronologia de uma vida, escrita em anéis concêntricos de
bom carvalho» (A. Leopold).

Noutro lugar e noutro tempo recordo o grande plátano sentinela da avenida Emídio Navarro, em Coimbra. Não morreu por um raio, mas atraiçoado por desamor numa nebulosa manhã de setembro, em 2022. Talvez ele conhecesse a estória do velho carvalho, por ter vivido quando Leopold a escreveu. Mas as serras de hoje não se demoram no corte, não mordem cada anel concêntrico de tempo. Por isso não escreveu memórias da sua longa vida. O grande plátano da Emídio Navarro sucumbiu, ferido por inclementes motosserras, perante olhares atónitos e perversos sorrisos orgulhosos, empenhados em transformar o Dia da Árvore no dia da morte.

Consolamo-nos ao estilo de Leopold imaginando a gigante verde no momento da matança, pela calada da manhã no início de um novo ano letivo. Habitantes acordavam incrédulos com o roncar de serras motorizadas. Ramos enormes tombavam para sempre. Uma serra embrutecida trespassava impiedosamente o grosso corpo da árvore, abrindo caminho «golpe a golpe, década a década na
cronologia de uma vida” (A. Leopold) da cidade de Coimbra. Cada anel um tempo, um momento da História.

Naquela nebulosa manhã de setembro, em 2022, uma motosserra deslizou veloz, cortando abrutadamente quase um século de vida. Cidadãos gritavam «assassinos!». Mas outros respondiam: «É só uma árvore!». … É só uma árvore.

Uma árvore que meses antes assistira à procissão da Rainha Santa, como fazia há décadas. Sem demoras a motosserra abocanhou impiedosamente madeira equivalente aos dois anos da pandemia que nos levou tanto a desejar o ar livre. Logo depois, mordeu o ano em que o rali de Portugal saiu pela primeira vez da Porta Férrea, acelerando pela cidade. Seguiu cortando anéis marcantes, de quando Portugal ganhou o Festival da Canção, o Papa Francisco visitou Portugal pela primeira vez, e quando a seleção nacional de futebol venceu o Euro 2016. Num ápice, a motosserra trespassou o tempo de quando Coimbra se tornou património mundial da UNESCO, Madonna e os U2 atuaram no estádio, pondo a cidade no centro do mundo. Rapidamente rasgou os anos da construção da ponte Rainha Santa Isabel, e seu início de ponte Europa. Era só uma árvore…uma árvore vivenciando concertos na inaugurada Praça da Canção, a voz de Adriana Calcanhoto, e a criação do parque Verde,
provavelmente a melhor da cidade, no limiar dos anos 2000.

Em grande velocidade, carrascos de motosserra matavam, em segundos, a História de um lugar. Cortaram-se anos a fio: de quando a árvore testemunhou as Queimas das Fitas no Parque Manuel Braga, a vinda do Papa João Paulo II a Portugal, e antes, quando em Coimbra se construiu a ponte Açude, se acolheram portugueses regressados de África, e de quando chegou a Coimbra a Democracia pela Revolução dos Cravos, em 1974. Tempos antes, gritou rebelde pela Briosa, acalentou mães e noivas com quem se despediu dos jovens que partiram para o Ultramar.

Ouviu-se a serra cortar 1969, a crise académica, o «peço a palavra!», as prisões de estudantes pelo cruel regime. Ouviu-se no corte da serra sons de fado e canções de intervenção: vozes do Zeca e Adriano, notas da guitarra de Paredes. A serra cortou mais fundo, a inauguração da atual Portagem e da nova ponte de Santa Clara, das ilhas no rio com festas e picnics, e dos passos de Torga pela cidade. E antes, e muito antes, por tempos já pouco definidos nos anéis concêntricos, que com as margens do Mondego guardavam memórias da cidade e das pessoas.

Algures por essas linhas de tempo, nos anos quarenta, trinta ou vinte do século XX, aquele plátano se fez árvore resistindo às intempéries e à passagem do comboio que agora dá lugar a um autocarro articulado, incapaz de afastar automóveis da cidade. Chegando a motosserra ao cerne, a árvore sucumbiu e um tremor ecoou no ar. O grande tronco de História caiu para nunca mais se levantar. Património destruído, aniquilado, cruelmente assassinado.

Era só uma árvore, disseram os carrascos. Era só uma árvore; a última de um icónico lance de belos plátanos sombreando a avenida. Frondosas, amigas, refrescantes, respirando os gases venenosos em troca do ar necessário para vivermos. Era só uma árvore de tanta idade, como outras muitas pela cidade, abatidas e trocadas por muros de betão e faixas de alcatrão. Era só uma árvore como outras tantas, «sempre no caminho do progresso», dizem. Ou o progresso nas mãos erradas, dizemos nós. Era só uma árvore… com o tempo da História e um lugar na cidade. Era só uma árvore…foram mais de mil. «Quando virmos a terra como uma comunidade à qual pertencemos, podemos começar a usá-la com amor e respeito.” – Aldo Leopold.

Vídeo feito por Jorge Monteiro em 12 de setembro de 2022.

Mário Montez – membro do ClimAção Centro

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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