Reportagens sobre incêndios sobem ao palco do Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, no dia 13 de setembro, às 19h. Estudantes da Pós-Graduação em Jornalismo de Investigação Colaborativo da Universidade de Coimbra apresentam uma sessão inédita de jornalismo performativo ao vivo, que traz reportagens investigativas sobre as causas e consequências dos incêndios em Portugal, numa narrativa envolvente e sensorial.

O tema central desta edição é o “Deserto Verde”, uma investigação aprofundada sobre a expansão das plantações de eucalipto em Portugal e seus impactos ambientais, sociais e económicos. Stefan Candea, coordenador do curso, relembra como esta temática emergiu numa altura em que o concelho de Coimbra vivia de perto os estragos dos incêndios florestais: “Portugal está a arder todos os anos para que, entre outras coisas, o papel higiénico possa ser mais barato na Europa Ocidental”, comenta, sublinhando a complexidade e urgência da questão.

Candea destaca ainda que a criação desta pós-graduação responde a uma inquietação pessoal: “Eu criei esse tipo de aula prática que gostaria que tivesse existido há 25 anos, quando comecei. Uma aula voltada para o futuro, não apenas para jornalistas, mas também para profissionais de outras áreas que podem colaborar para manter os poderes abusivos sob controlo.”

O coordenador lembra que aprendeu à custa de “muitos anos de tentativas e erros” e que hoje vê valor em partilhar metodologias e ferramentas, além de trazer à formação a experiência acumulada em redes internacionais como a European Investigative Collaborations, que cofundou. Ao longo do último ano, o curso funcionou “como um laboratório multidisciplinar”, com workshops práticos, convidados de Portugal e do estrangeiro, e módulos que abrangeram temas tão diversos quanto finanças forenses, cartografia, dados, podcasting e inteligência artificial.

Clara Almeida Santos, professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e coordenadora académica do curso, sublinha que se trata de uma formação pioneira no país, que está a afirmar Coimbra como um polo de experimentação em jornalismo investigativo. Destaca ainda a importância da forte componente prática e a valorização da diversidade de percursos dos participantes: “O curso proporciona uma grande liberdade para que os alunos explorem temas com impacto real, tanto a nível local como global.”


Segundo Clara, esta predisposição para cruzar áreas é o que distingue o programa: “O objetivo é formar jornalistas preparados para lidar com os desafios atuais, usando ferramentas modernas e trabalhando de forma interdisciplinar e colaborativa, quebrando fronteiras geográficas e de pensamento.” A docente reforça ainda que os projetos desenvolvidos ao longo do curso não ficam apenas no plano académico, “ganham vida própria, tornam-se reportagens com valor social e cultural”, o que justifica também o formato inovador de apresentação ao público.

Jornalismo no palco

No campo prático, Micael Pereira, repórter especial do Expresso e formador da pós-graduação, destaca o caráter coletivo do trabalho: “Trabalhámos numa equipa coesa que investigou a floresta, os incêndios e as políticas florestais. O jornalismo ao vivo é uma partilha direta entre jornalistas e público, e esta experiência vai além do texto: coloca a investigação no palco.”

Para o jornalista, que pela primeira vez participa neste formato, a sessão representa “um exercício de confiança e risco criativo”. Ele explica que esta é uma prática já consolidada em países como França: “É uma forma de devolver à sociedade as investigações de modo imediato, criando envolvimento através da oralidade e da presença física.”

Micael sublinha ainda a interdisciplinaridade vivida em sala de aula: “Tivemos jornalistas com diferentes perfis, mas também um biólogo, um arquiteto, pessoas de áreas diversas cujo olhar ajudou a complexificar os trabalhos. Esse cruzamento de saberes é essencial porque estas histórias impactam a sociedade em várias camadas.”

Convite aberto

A Pós-Graduação em Jornalismo de Investigação Colaborativo da Universidade de Coimbra é aberta a estudantes de Mestrado ou Doutoramento, licenciados em qualquer área e ao público em geral com currículo relevante validado pela coordenação, valorizando-se a experiência interdisciplinar. O curso tem um custo de 900€, mas, com apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (Living the Future Academy), metade do valor é comparticipado, ficando 450€ a cargo do formando. As inscrições para a segunda edição decorrem até 5 de setembro.

A sessão do dia 13 de setembro, com duração de 90 minutos e entrada a cinco euros, convida o público a refletir sobre os incêndios e o modelo florestal português através de uma fusão de investigação jornalística e performance. A inscrição pode ser feita aqui.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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