Recebemos do cidadão Miguel Dias, membro do coletivo ClimAção Centro, um pedido de publicação de texto de opinião na nossa rubrica Mensagem Cidadã, apresentado enquanto direito de resposta ao artigo assinado por José Manuel Silva e Ana Bastos sobre a construção de uma nova ponte sobre o Mondego, publicado no jornal Diário de Coimbra, a 26 de setembro de 2025.

Viaduto do IC2 sobre o Choupal: diagnóstico certo, solução errada

De forma envergonhada (porque será?), o atual executivo introduziu na campanha eleitoral a proposta da construção do viaduto do IC2 sobre a Mata Nacional do Choupal. Começou por colocar um cartaz na Rotunda do Almegue a prometer uma nova ponte sobre o Mondego: só se esqueceu de dizer que a ponte, que é um enorme viaduto com uma extensão total de cerca de 1300 metros, atravessa o Choupal.

Posteriormente, em artigo de opinião publicado nos jornais locais, José Manuel Silva e Ana Bastos apresentam a construção da nova ponte como solução «benigna» para resolver os congestionamentos de trânsito na Rotunda do Almegue. Começam por fazer um diagnóstico muito acertado da sua principal causa: 60% do trânsito que chega à rotunda é trânsito de atravessamento que não se destina diretamente a Coimbra, mas que circula pelo centro da cidade via IC2.

Surpreendentemente, o diagnóstico acertado gera depois uma solução aberrante e lesiva para o património natural e cultural da cidade: em vez de encontrar e propor soluções que desviem esse mesmo trânsito indesejável do centro da cidade, o Juntos Somos Coimbra quer perpetuar o tráfego de atravessamento no centro de Coimbra, propondo para tal sacrificar o Choupal. Em suma, em vez de afastar o trânsito indesejável do centro da cidade, estende o tapete ao trânsito de atravessamento à custa do maior sumidouro de carbono da cidade. Já agora, alguém se lembra de alguma medida tomada por este executivo para melhorar a fluidez de tráfego na Rotunda do Almegue nos últimos 4 anos? Nem sequer o estudo de semaforização que constava do programa eleitoral do atual executivo foi realizado. Parece sim existir uma política de terra queimada, que conviveu bem com o caos diário das filas de trânsito, para agora justificar a opção da ponte no Choupal.

No artigo fica também patente a total falta de sensibilidade ambiental que marcou todo o mandato de José Manuel Silva. Achar que um viaduto automóvel com milhares de veículos a lançar poluição sonora e de partículas sobre a Mata Nacional do Choupal – 24 horas por dia – não terá impactos significativos sobre a flora e a fauna do Choupal fala por si e talvez ajude a explicar a razão pela qual cresceram tanto as ilhas de calor em toda a cidade nos últimos 4 anos. Será que José Manuel Silva ignora que este mesmo projeto já teve uma avaliação ambiental negativa em 2009? Mais, porque não refere o Presidente que, para além da ponte do IC2 que propõe, está também projetada a nova ponte ferroviária da Alta Velocidade, também esta com fortes impactos na mata? Estamos na realidade a falar de duas pontes novas no Choupal.

Ninguém ignora que há um problema de congestionamento de trânsito na Rotunda do Almegue que urge ser resolvido, mas a solução não passa por separar fluxos de tráfego automóvel com mais vias, como se fez no passado. Por regra, este tipo de opções só resulta em mais automóveis. O que há a fazer é tirar carros da Rotunda! Menos carros, menos filas! A solução implica implementar várias medidas complementares entre si.

Desde logo, abolir as portagens entre Coimbra Norte e Condeixa e proibir o trânsito pesado de atravessamento pelo Almegue. Esta medida não é eleitoralista como diz o Presidente, é apenas uma forma inteligente de gerir a rede rodoviária existente, poupando milhões ao erário público e com resultados imediatos. Outra medida é a solução «Coldplay», dotar o tabuleiro da Ponte de Açude de uma faixa de aceleração, que José Manuel Silva, o autarca que em tempos passados ameaçou cortar o IP3 (lembram-se?), deixou de defender perante um simples «não» das Infraestruturas de Portugal. Esta medida teria ganhos muito significativos na Casa do Sal. A já referida semaforização da Rotunda do Almegue que o executivo não realizou pode ter o mesmo impacto que a semaforização teve em tempos na Casa do Sal.

Finalmente, o dinheiro gasto no viaduto seria muito melhor investido a finalizar o troço da A13 entre Ceira e a Pampilhosa do Botão, desviando milhares de carros do centro de Coimbra ou na antecipação do alargamento da rede de Metrobus a Condeixa ou ainda na construção do Anel da Pedrulha ou da Via Estruturante Santa Clara / São Martinho. E, se tudo isto não for suficiente, há outras soluções de engenharia a considerar, nomeadamente sobrelevar a ligação IC2–Ponte Açude: atravessamento em desnível (IC2 por cima; tráfego local por baixo).

Um político sensato e comprometido com o ambiente nunca avançaria para soluções com os impactos que a ponte terá sobre a Mata Nacional do Choupal sem primeiro esgotar todas as alternativas. Infelizmente, sensatez e, já agora capacidade de diálogo, não são o forte deste executivo, como se sabe.

Miguel Dias – membro do ClimAção Centro

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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