O relatório de avaliação ao estado do arvoredo urbano que ditou 135 abates no espaço de duas semanas não é consensual, mas há um chão comum a biólogos e autarquia: as árvores da cidade estão em decadência, depois de décadas de maus tratos e descuido. A diferença está na resposta a dar a um parecer externo à Câmara Municipal de Coimbra e na capacidade encaixe de soluções alternativas.
«Acredito que os testes tenham sido feitos com a qualidade a que estão obrigados, não é essa a questão. O problema é que a sintomatologia pode ser validada numa perspectiva ou outra. Porque é que aquela árvore tem de ser abatida e não lhe posso prescrever um tratamento que lhe permita viver mais anos ou até recuperar? Isto não consta do relatório», observa Helena Freitas, bióloga, investigadora e coordenadora científica do Laboratório de Fitossanidade (Fitolab) da Universidade de Coimbra.

A avaliação fitossanitária foi adjudicada ainda pelo anterior executivo, mas os relatórios só foram divulgados este Verão, com a indicação de que os abates propostos seriam seguidos de replantações imediatas, ao abrigo do programa «Compete 2020 – (Re)arborização de espaços verdes e criação de ilhas-sombra em meio urbano», com um financiamento de 75 milhões de euros. A entrada dos fundos é parte da justificação da autarquia para avançar agora com o plano, mas a pergunta mantém-se: porquê agora?
À frente do Centro de Ecologia Funcional da UC, Helena Freitas entende que a recomendação de remoção das 135 árvores é assumida pela câmara «porque dá jeito». «Há um objectivo muito claro de eliminar árvores para desenvolver um projecto de mobilidade e estão à procura de argumentos para o fazerem, sem danos na opinião pública», contrapõe.
A especialista, que já dirigiu também o Jardim Botânico, dá conta de casos em que conseguiram salvar árvores sinalizadas para abate e destaca que, em Portugal, a formação em arboricultura está aquém do nível europeu. «Falamos de empresas, por norma, muito pequenas, que fazem testes que avaliam grosseiramente a vitalidade das árvores. Não há nada sobre o solo, por exemplo. O nosso coberto arbóreo nas cidades é muito mal tratado e não deve surpreender ninguém que a maior parte das nossas arvores está em stress, é frágil e doente. O que é preciso perceber é porque determinadas conclusões dos testes obrigam num caso ao abate e noutro não», reforça. «Não há verdade, não há transparência, não há diálogo e este documento é exemplo disso», conclui.

Também o movimento ambientalista ClimAção Centro, num texto publicado no Facebook, critica a CMC por não incluir a comunidade científica local no processo de decisão e não ter feito «nenhum esforço para comunicar a calamidade», tratando as perdas de árvores «como simples números numa folha de cálculo de Excel, num exercício banal de subtracção e adição». O grupo sugere a criação de um provedor da árvore ou de uma comissão como medidas para «abrir o diálogo à sociedade civil».
«Os poderes públicos têm de ter abertura. As coisas não podem ser assim fechadas e a cidade tem de se insurgir», reforça Helena Freitas. Mas na comunidade científica há quem aceite os relatórios fitossanitários sem reservas.
Jorge Paiva: relatório «bem feito», mas abate devia ser faseado
Especialista em botânica, divulgador de ciência e com uma longa e intensa actividade em defesa do ambiente, Jorge Paiva entende que o estudo acolhido pela CMC «está bem feito» e não questiona as recomendações de abates. «Há muitas árvores que estão doentes porque antigamente se faziam podas drásticas, a que eu chamava “derrotas das árvores”. As câmaras colocavam as árvores e nunca mais lhes ligavam. Hoje há departamentos para tratar destes assuntos».
Para o biólogo, que chegou a avançar para tribunal contra a CMC pelo abate de plátanos na Av. Emídio Navarro, sinalizados como doentes numa altura em que se estava a desenvolver um projecto de um metro ligeiro de superfície, a realização de avaliações fitossanitárias coloca Coimbra «no começo» e «já é alguma coisa». A única crítica vai para a «maneira como [o abate] está a ser feito». «Devia ser faseado e numa altura em que desse para plantar», indica.

Francisco Queirós explica que a onda de calor sentida neste Outono empurrou as replantações para Novembro e é também com recurso ao plano de rearborização que o vereador refuta a possibilidade de os abates serem convenientes à concretização do projecto do Sistema de Mobilidade do Mondego: «Podem consultar os documentos e verificar que em todo o lado as árvores são substituídas e colocadas outras. Não é para ajudar as obras do metro ou de quer que seja».
O plano prevê que a rearborização fique concluída até ao final do ano.
