Se fosse uma peça teatral, o cenário era perfeito. Iluminados pelo sol outonal, conversamos com o casal protagonista. Clara Moura nasceu «na vila que tem o nome mais bonito de Portugal», Ribeira dos Carinhos, na Beira Alta. José Vieira Lourenço é de Vila Flor, perto da Miranda do Corvo. Conheceram-se num magusto há quase 50 anos.
Era 1974. Clara acabara de chegar a Coimbra, vinda de França, para onde a família emigrara em 1965. Veio para fazer um curso de férias na Universidade de Coimbra e resolveu ficar para tirar licenciatura em Letras Românicas. Morava na pensão de uma prima do pai, em frente ao Seminário Maior, e todos os dias, da janela do segundo andar, via os seminaristas a sair para tomar café. José era um deles, estudante de Teologia. No ano seguinte, mudou para Filosofia. «As pessoas acham que o seminário é uma prisão [mas] eu sempre tive liberdade total. Jogava dados no café com as amigas e os amigos. 1974 foi um ano magnífico! A revolução trouxe outras revoluções.»

No Seminário havia um grupo de teatro que Clara e outras amigas foram convidadas a integrar. Fizeram O Palheiro, peça proibida em Portugal antes de 74, de Miguel Barbosa. «A primeira vez que ela foi encenada em Portugal foi no Seminário Maior de Coimbra, por nós», conta do espectáculo que também teve direito a digressão pelas aldeias.
Naquele ano, não houve aulas nas universidades e os estudantes foram convocados para fazer serviço cívico que, nas palavras de Clara, significou «uma forma de participar ativamente da revolução, fazer a nossa parte na construção de um novo mundo». Ela conheceu pessoas do Graal, que trabalhava com esclarecimento das pessoas nas aldeias, alfabetização de adultos. Passou, então, a participar nas acções do movimento de inspiração cristã e fez curso de alfabetização pelo método Paulo Freire.

«Os métodos do Graal eram muito interessantes porque juntavam pessoas, as mais diferentes, era uma convivência informal. Lembro-me de percorrer as aldeias na carrinha de um dos grandes sábios desta cidade, o professor Previdência, grande físico da Universidade. Ele tinha uma carrinha grande porque tinha uma família grande. Era uma Kombi, que chamávamos de pão de forma. Foi uma experiência linda!» O professor João da Providência morreu em 2021, com 88 anos.
José não participou nestas campanhas porque estava envolvido com o movimento Cristãos pelo Socialismo, que, segundo ele, teve muito impacto em Portugal. «Havia muita efervescência no país e havia a tradição da oposição ao regime dos católicos progressistas, como o episódio da Vigília da Capela do Rato, no final dos anos 60. Depois veio a revolução e os cristãos tiveram o seu papel, com os chamados católicos da esquerda.»
José e Clara casaram em 1977. Os frutos deste amor, como José diz abrindo um sorriso, são duas filhas. Sofia, a mais velha, foi para a Dinamarca para fazer um mestrado em Nutrição e Saúde e lá ficou, já lá vão 20 anos. É gestora de projetos na Liga Dinamarquesa Contra o Cancro e mãe de Isabel, com sete anos. Inês Moura, a outra filha, é artista plástica e divide o tempo entre Coimbra, Lisboa e São Paulo.

Depois de concluirem as licenciaturas, José fez mestrado em Filosofia Contemporânea e Clara em Ciências da Educação. Enquanto ela foi professora assistente convidada da Faculdade de Letras durante 18 anos, ele foi maioritariamente professor no Ensino Secundário, das disciplinas de Filosofia e Psicologia. Actuou fortemente na área de formação de professores e foi ainda professor convidado da Universidade de Leiria e da Católica de Viseu. Tem também muito orgulho nos quatro anos em que foi coordenador da Área Educativa de Coimbra, tendo sob sua responsabilidade todas as escolas do distrito, que são mais de duas centenas.
Mas o marido de Clara, pai de Sofia e Inês e avô de Isabel, voltou ao teatro. Desta feita para ensinar expressão dramática, na Escola Secundária Quinta das Flores. Em 1993, fundou o Grupo Ibris de Teatro. «Passei uns 15, 16 anos a fazer a Mostra Teatro Escolar, em parceria com o Teatrão, a Escola Secundária Avelar Brotero, o Nova Ágora – Centro de Formação de Associação de Escolas, e o Centro de Formação de Associação de Escolas Minerva.» Foi interrompida pela pandemia, mas espera que regresse ainda este ano.
Desde que se reformou, em 2012 e 2014, o casal que abraçou Coimbra e a comunidade coimbrã como suas, só fica quieto quando dorme. Clara foi para São Tomé trabalhar num modelo de formação de professores para o ensino secundário com uma Organização Não-governamental. José foi ter com ela e da experiência saiu o livro mais recente, Moli Moli – Ecos de São Tomé, na segunda edição – além dos quatro manuais escolares de Filosofia que já publicou e a obra Ferramentas do Aprendiz de Filósofo (2005, Porto Editora).

José dá aula de teatro na Associação Cavalo Azul, de famílias solidárias com deficiência, há quatro anos. No ano passado, começou um grupo teatral em Assafarge que já estreou a primeira peça: O Principezinho, de Saint-Exupéry. Este ano, estão a ensaiar um texto dele, Cruzeiro Bazófias, «uma brincadeira com o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, adaptado à realidade actual».
Quando se reformou, Clara disse para si mesma que não queria nem podia parar porque «tem muita coisa para fazer, muitos interesses, muita coisa que tinha sido posto de lado porque não havia tempo». Entre os interesses e gostos está a fotografia. Desde então tem participado nas iniciativas do colectivo Pescada N.º5, a primeira em 2019. Na mostra de 2021, apresentou um trabalho inspirado no conto A Biblioteca de Babel, com pessoas a ler em várias línguas o texto do escritor argentino Jorge Luís Borges. Na edição deste ano, participou com uma obra sobre refugiados.
É precisamente a refugiados que Clara e José dão aulas de Português, na Assistência Médica Internacional, em Coimbra, uma vez por semana. José está também na direcção do Movimento Cidadãos por Coimbra, é activista do grupo ambientalista ClimAção Centro e integra o Coro Dom Pedro de Cristo. Como bom professor que é, ensina-nos que Dom Pedro de Cristo foi um compositor do século XVI e também cantor-mor do Mosteiro de Santa Cruz. A primeira atuação do coro, que foi fundado em 1970, foi no Seminário de Coimbra, onde estudava.

O cenário perfeito de que falámos lá no começo desta história acaba de ganhar um novo elemento: a composição Magnificat, de Dom Pedro Cristo, não em razão de seu sentido litúrgico, mas por seu sigificado mais amplo: de louvor a este casal que tem na educação, formal e informal, a sua missão de fé.
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