A segunda edição da Biblioteca Humana, na Estufa Tropical do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, reuniu 25 participantes que esgotaram as vagas em grupos intimistas, «lendo» cinco investigadores como livros humanos em sessões de 30 minutos. A iniciativa foi promovida pelo CiBB — Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia, que integra o CNC-UC, o iCBR-FMUC, o GeneT e o MIA-Portugal — e tem como objetivo aproximar diferentes unidades de investigação da comunidade.
Paulo Coelho, técnico de emergência, foi um deles: «Gostei muito, não só pelo sítio, mas sobretudo porque é um livro diferente para desfolhar, para redescobrir como é que são as pessoas — mais do que o livro, foi a partilha entre os diversos participantes que gerou uma dinâmica muito interessante; li dois livros em uma hora, como uma inteligência artificial, mas humana». Como parceira na organização, a Coimbra Coolectiva viveu de perto este momento de escuta ativa e empatia — daqueles que nos recordam por que fazemos jornalismo soluções: para tecer pontes entre ciência e vizinhança, entre laboratórios e conversas de café. Paulo quer repetir: «Desligamos das agendas e conectamos de verdade. A repetir definitivamente».
Capas que dão vida às histórias
Rita Félix, designer e ilustradora científica no gabinete de comunicação do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, criou capas personalizadas para os «livros humanos»: postais ilustrados entregues aos participantes, acompanhados por um A2 que identifica cada secção na estufa. «Converso com os investigadores para perceber a história que partilham — ciência do dia a dia e lado humano, hobbies que se interligam», explicou. Cada postal inclui um excerto editado da história, para contextualizar. Rita incentiva: «Desenhar ajuda-me a pensar — com um lápis na mão surgem novas ideias. Experimente: basta qualquer papel e uma caneta.»
Os livros humanos foram Ana Rita Álvaro, Diogo Magalhães e Silva, Joana Ferreira, Lisa Oliveira Rodrigues e Vítor Bueno. Ana Rita Álvaro (Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra) levou o seu percurso sobre o sono — da higiene noturna ao impacto das rotinas no quotidiano cerebral. Diogo Magalhães e Silva (GeneT) partilhou a sua chegada à Transferência de Tecnologia, cruzando laboratório, universidade e sociedade. Joana Ferreira (Multidisciplinary Institute of Ageing Portugal) propôs uma conversa sobre curiosidade, coragem, planos e desvios — carreiras científicas feitas de mudanças inesperadas. Lisa Oliveira Rodrigues (Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra) falou sobre o canto — hobby — e a atividade científica, mostrando como as práticas artísticas alimentam criatividade e resiliência.





O «livro humano» Vítor Bueno, doutorando no Centro de Neurociências e Biologia Celular, falou sobre a aproximação das neurociências e da música eletrónica, revelando paralelos entre o cérebro e camadas sonoras. Depois de falar com dois grupos, partilhou: «Repito a dose com certeza, achei muito interessante. O que leva a conversa a ser fluida é a participação dos outros na leitura — começa-se a falar sozinho, mas quando fazem perguntas, sai do plano inicial e fica palpável, como se as letras saíssem do papel e ganhassem vida».
Para Vítor, a ciência precisa disto: «Eu faço parte do Grupo de Estudos em Neuroimunologia e Encefalite, que junta clínicos, investigadores, pacientes e cuidadores. Isso conscientiza, traz conhecimento acessível e mostra que pacientes não estão sozinhos». Ele defende: «Ciência é tudo, desde o espaço às plantas pequenas — deve ser acessível a todos, do investigador ao autocarro, para melhorar políticas públicas como vacinas».

Teresa Girão, diretora do Jardim Botânico, abriu as portas da Estufa e sentiu o impacto: «Desde o início da carreira, trabalho em ciência e com pessoas — hoje mais com plantas, mas para as pessoas, para investigação, ensino, lazer. Esta biblioteca traz novas pessoas e histórias». Ela vê igualdade: «Somos pessoas a trabalhar para um bem comum, como estas investigadoras». Teresa convida outros espaços: «Empresas, escolas, auditórios — em duas horas, prestamos serviço público. Qualquer cantinho serve, indoor ou ao ar livre. Gerimos espaços com responsabilidade social; a Coimbra Coolectiva pode agregar instituições interessadas em promover os seus espaços e o conhecimento».

A Coimbra Coolectiva, como parceira na organização, acredita nessas conversas que cruzam percursos científicos com paixões pessoais. O formato revela cientistas como vizinhos — com dúvidas, desvios e hobbies —, desmontando a ideia do investigador distante. Iniciativas como esta mostram como a escuta ativa pode ligar laboratórios à cidade, gerando empatia e diálogo entre investigação e comunidade. A edição de 2026 reforça o formato, com réplica prevista em outros espaços de Coimbra.




