O ensino superior em Portugal pode finalmente sentir o impacto de uma verdadeira revolução: Coimbra acaba de lançar areia na engrenagem do sistema vigente. O Politécnico de Coimbra, em parceria com a Escola 42 – uma das mais radicais e inovadoras instituições de formação digital do mundo – avança com uma proposta para a criação da primeira licenciatura nacional em Computação e Desenvolvimento de Software. Uma licenciatura baseada num método sem professores, sem exames, mas antes numa mistura de ambição individual e colectiva com facilitação trazida pela tecnologia.
Assinado a 11 de julho, este acordo junta nomes bem conhecidos: Jorge Conde, presidente do Politécnico de Coimbra, Maria Manuel Marques, presidente do Conselho Geral do Politécnico de Coimbra entre 2021 e 2025, Pedro Santa Clara, fundador da Escola 42 em Portugal e Alexandre Gomes da Silva, presidente da Coimbra Business School | ISCAC. Juntos desafiam abertamente o modelo universitário tradicional, apostando numa aprendizagem prática, colaborativa, guiada pelo espírito de “self learning” ou de aprender fazendo, e com acesso total, 24 horas por dia, a uma escola que não distingue idade, origem e ainda menos o currículo académico.
O projeto está nas mãos da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), mas a ambição é clara: Coimbra quer ser a capital portuguesa da disrupção nas metodologias de ensino; da inclusão real e ambiciosa; da meritocracia como suporte à aprendizagem. Coimbra quer atrair talento de todo o mundo e deixar para trás a sala de aula estática, as sebentas, os power-points, do século XIX.
“Estamos à beira de uma revolução tão profunda como a que Gutenberg provocou com a imprensa”, sublinha Pedro Santa Clara. “A Escola 42 já trocou as voltas ao ensino tradicional em mais de 30 países e soma dezenas de milhares de candidatos, oriundos dos caminhos mais improváveis. Aqui, médicos, pedreiros e jovens recém-saídos do secundário partilham o mesmo espaço – e a mesma ambição.” Para Alexandre Gomes da Silva, este é apenas o início: “A Coimbra Business School joga na primeira liga e não se vai acanhar para desafiar o futuro. Não queremos seguir tendências, queremos criá-las – e a 42 encaixa perfeitamente nesse ADN.”
Ao encerrar o seu ciclo como presidente do Politécnico de Coimbra, Jorge Conde não hesitou em apontar a dificuldade de mexer nas fundações do ensino superior em Portugal: “Esta é a minha última intervenção pública à frente do IPC e quero ser totalmente franco: passámos anos a falar de inovação pedagógica, fizemos de tudo para desafiar modos de pensar, ensinar e aprender nesta instituição. Conseguimos? Muito menos do que desejávamos. A resistência à mudança é real – os professores, demasiadas vezes, estão cristalizados em velhos hábitos, presos ao conforto das suas salas formatadas. Mudar dá trabalho e, para muitos, é um desconforto que evitam a todo o custo. Apesar disso, começámos finalmente a desformatar espaços, a experimentar novas abordagens. E foi aqui que a Maria Manuel, enquanto presidente do Conselho Geral, tantas vezes me desafiou: ‘Quando é que vamos trazer a 42 para Coimbra?’. Só fazia sentido se trouxéssemos uma inovação autêntica para o ensino superior, algo que conferisse grau e rompesse com o habitual. Acreditámos e arriscámos. Apresentámos o projeto à A3ES, conscientes de que seria inédito e de que ninguém sabe ao certo como será o resultado. Mas não temos medo de arriscar. Se não avançarmos, não é por falta de vontade – é porque o país não quer mesmo inovar. O projeto está entregue, a confiança entre todos é sólida. Estou convencido de que vamos conseguir a aprovação e que o Politécnico de Coimbra será pioneiro, liderando – finalmente – a revolução que o ensino superior português tanto precisa.”
Na voz de Maria Manuel Leitão Marques, fica o desafio à cidade: “Coimbra está pronta para inspirar o país, para se abrir ao mundo, para trazer estudantes de todas as origens e provar que o ensino superior pode mesmo ser o motor de uma nova economia.”
Se a A3ES der luz verde, Coimbra deixa de ser apenas símbolo do passado académico de Portugal e passa a ser o epicentro da transformação que muitos pensaram impossível. Coimbra pode afinal ser uma lição. Um exemplo. O exemplo transformador. O futuro do ensino superior já começou – e não pede licença. O sistema não vai poder ignorar este balde de areia na engrenagem.






