Coimbra distinguiu-se como o município português com melhor desempenho a nível de acesso a espaços verdes urbanos num estudo que analisou 862 cidades europeias quanto ao cumprimento do 3+30+300. Segundo o princípio formulado por Cecil Konijnendijk, especialista neerlandês em silvicultura urbana, todos devem poder ver três árvores a partir da sua residência, local de trabalho e instituição de ensino, deve existir uma cobertura arbórea de 30% em cada vizinhança e um espaço verde público de qualidade a menos de 300 metros de casa.
Num esforço para combater as ondas de calor e ser uma cidade mais verde, Beja tornou-se o berço da criação de um Refúgio Climático, inspirado no princípio 3+30+300, no âmbito do PRO NAT.URBE, Programa de Ação para a Resiliência e Restauro da Natureza em Áreas Urbanas, lançado pelo Governo português em abril. Por sua vez, no passado 14 de julho, o Bloco de Esquerda entregou um projeto de lei com o intuito de garantir que até 2035 nenhum bairro urbano tenha menos de 30% de cobertura arbórea e que a população tenha acesso a um espaço verde de pelo menos meio hectare a menos de 300 metros da sua residência.
Coimbra é uma cidade verde?
Apesar de ser a melhor a nível nacional, Coimbra apenas regista entre 8 e 15% da população com acesso adequado a espaços verdes. Uma percentagem que fica aquém quando comparada com cidades como Helsínquia e Hamburgo, que ultrapassam os 50%. Poderá Coimbra adotar o exemplo de Beja e reinventar-se como uma cidade mais verde?
João Loureiro, professor associado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e coordenador do FLOWer Lab, acredita que Coimbra tem o melhor desempenho devido a espaços de grande dimensão, como o Jardim Botânico, o Jardim da Sereia, o Parque Verde, o Parque Manuel Braga, o Parque do Choupalinho e o Choupal. Contudo, defende que estes locais deveriam estar mais “bem cuidados”, com menos espécies invasoras, e “cumprir mais funções”, não sendo só do usufruto das pessoas.
“É um caminho que a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) tem noção que tem de ser traçado”, acrescenta. Neste momento, o Município é parceiro do projeto BeeConnected SUDOE, em conjunto com João Loureiro e Sílvia Castro, também professora associada da FCTUC. Esta investigação tem como objetivo combater “a fragmentação dos habitats, promovendo a conectividade entre áreas naturais e seminaturais isoladas, de forma a favorecer a diversidade e resiliência das comunidades de polinizadores silvestres”.
O investigador destaca a importância de espaços verdes urbanos como refúgios de biodiversidade e de regulação do clima, locais de convívio e partilha para todas as gerações, além dos benefícios a nível da saúde mental e física associados ao contacto com a natureza. Nesse sentido, considera “estranha” a tendência de menor acesso a espaços verdes quanto mais urbanizada uma cidade se torna.
Na opinião de João Loureiro, “nota-se a transformação de uma cidade para pior quando existem zonas onde o arboreto não poderia ficar por questões de segurança, como a Avenida Emídio Navarro”. Destaca Paris como uma metrópole que foi capaz de conjugar a existência de espaços verdes com o urbanismo, combatendo assim as ilhas de calor, pois existe “um aumento na ordem dos 4 e 5 graus centígrados em zonas sem árvores”. Aliás, Paris pertence à lista de locais que implementam o princípio 3+30+300 nas suas políticas.
A compreensão da qualidade e do tipo de cobertura verde de uma cidade numa macroescala leva João Loureiro a considerar o 3+30+300 como um bom ponto de partida para o planeamento urbano de uma localidade. Apesar de reconhecer as dificuldades da sua aplicação em zonas históricas, como a Baixa, julga que o princípio é totalmente aplicável em bairros novos.

O que pode ser feito?
“Coimbra não é uma cidade muito grande, devia ser possível ter uma política de gestão de espaços verdes. Helsínquia é uma cidade muito maior e consegue fazê-lo”. Para João Loureiro, o caminho passa “não só por melhorar os espaços verdes que já existem, mas também garantir que todas as caldeiras vazias possam ter árvores”. Alerta ainda que “não basta fazer plantações em massa de árvores sem garantir que há um seguimento ao longo do tempo de ver quantas é que sobrevivem”. A nível local, o Jardim Monte Formoso é, na sua visão, um projeto que melhora os canteiros e faz sementeiras, envolvendo a comunidade de forma a garantir o cuidado contínuo necessário.
O investigador realça a necessidade de assegurar que as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia (JF) cuidem dos espaços verdes ao seu encargo e tenham uma política ambiental vincada. “Temos um papel de exigir que as nossas cidades tenham espaços mais verdes, mas muitas vezes não exigimos de uma forma tão vincada, as pessoas têm mais poder sobre a gestão local do que julgam”, assevera.
Por fim, João Loureiro refere a importância de investir em espaços verdes pelo seu potencial de combate às alterações climáticas e de regulação térmica, que ajuda a evitar mortes relacionadas com ilhas de calor. Este dado é corroborado pelo estudo “Cooling cities through urban green infrastructure: a health impact assessment of European cities”, de 2023, que concluiu que o aumento da cobertura arbórea para 30% nas cidades poderia evitar quase 40% das mortes relacionadas com as ilhas de calor urbanas.
As promessas da CMC
Segundo o programa eleitoral da coligação Avançar Coimbra, as ruas da cidade “desenhadas para carros sacrificaram praças, passeios e árvores; bairros e freguesias continuam com acessos limitados, poucos equipamentos e fraca ligação entre si”. Nesse sentido, o atual executivo comprometeu-se a requalificar as margens do Mondego; reivindicar a responsabilidade da gestão, qualificação e expansão do Choupal para a CMC; criar corredores verdes, entre outras iniciativas.
A Coimbra Coolectiva procurou perceber qual o estado de execução destas promessas, porém não foi possível obter esclarecimentos por parte da CMC. Além disso, ficou por clarificar em quantos bairros já foram criados e requalificados espaços verdes e azuis e quais os avanços na aplicação do Plano Municipal de Ação Climática até ao momento, compromissos também presentes no programa eleitoral. A existência de um plano para Coimbra se aproximar de cidades como Helsínquia a nível de acesso adequado a espaços verdes pela população foi outro tópico que ficou por responder.

