Mavia Kamran nasceu em 1998, perto de Islamabad. Descreve uma infância estável e tranquila, numa família que, não sendo rica, vivia confortavelmente acima da média. «Éramos muito felizes, não tínhamos nenhum motivo de queixa», conta. Até que, por volta de 2005, tudo mudou. Tinha 7 anos quando a guerra afegã se começou a fazer sentir no Paquistão, ameaçando a estabilidade e afetando o nível de vida de inúmeras famílias pelo país. Lembra-se de ver negócios a fechar em massa, a situação financeira a deteriorar-se, a insegurança a intensificar-se – e o pai, inquieto, a emigrar para Itália, na tentativa de proteger o futuro da família.
Estrangeiro, pela primeira vez
«Só em 2009, quando eu fiz 11 anos, é que conseguimos visto e nos juntámos a ele», sublinha. Mas a adaptação, recorda, não foi fácil. A língua era-lhe estranha; a caligrafia, muito diferente do modelo cursivo árabe a que estava habituado; e a escola, qualquer coisa de angustiante nos primeiros meses. «Toda a gente me perguntava sobre o Osama bin Laden: se eu o conhecia, se era a favor, o que eu achava dele e coisas desse género. E, honestamente», desabafa, «isso partia-me o coração, porque tínhamos fugido do nosso país precisamente por causa do contexto político» – e eram ali, em solo italiano, novamente confrontados com ele, sob a forma de preconceito.
Apesar de tudo, com o tempo, o jovem integrou-se. Familiarizou-se com a língua, fez amigos e começou a sentir-se em casa naquela terra que, pelo menos, lhe garantia paz e estabilidade para crescer sem sobressaltos. Concluído o secundário, optou por continuar a estudar e formou-se em eletricidade no ensino superior. «O problema», confessa, «é que, em 2016, era extremamente difícil encontrar um emprego na área». Num impulso, decidiu então abrir uma lavandaria, com a ajuda financeira do pai. Meses depois, o estabelecimento fechava portas e a família perdia tudo o que nele havia investido.
Foi então que Mavia resolveu aprender a fazer pizza. «A restauração é o ramo mais fácil para se arranjar trabalho em Itália», justifica. Por isso, fez um curso de seis meses e mudou-se para Nápoles, para aprender o ofício no terreno durante um ano. Mas se tinha jeito e gostava do que fazia, recorda não conseguir calar o fogo empreendedor que o movia e crescia a cada dia. É, pois, que Mavia nunca quis viver nem trabalhar às custas de ninguém. Sonhava ser dono de algo só dele, pelo que decidiu arriscar e abrir uma pizzaria em Milão. Naquele ano, investiu milhares, apostou em ingredientes de alta qualidade e baixou os preços para atrair clientes, mas nada resultou. A concorrência era feroz demais, as rendas subiram sem avisar, os impostos multiplicaram-se – e assim retornou o jovem à estaca zero. «Perdi tudo, outra vez», conta. «Nessa altura, o meu pai ainda me dava apoio financeiro, mas, quando isso aconteceu, decidiu que não me podia continuar a ajudar e que teria de me desenrascar sozinho se quisesse continuar a empreender».


Desmotivado, mas convicto de que o negócio tinha, sim, potencial para sobreviver – desde que melhor pensado e estrategicamente localizado – Mavia mudou-se sozinho para Tarragona, em Espanha. Ali, deparou-se uma vez mais com dificuldades, sobretudo linguísticas e culturais. Não se sentiu encaixar e, passado uns meses, voltou a fazer as malas, rumo a Lisboa. «Foi tudo muito rápido», reconhece. «Falei com um amigo e ele disse-me que, em Portugal, tudo era mais barato e acessível, então eu não hesitei e mudei-me para cá, em 2019».
Durante um ano inteiro, trabalhou 13 a 14 horas por dia, no restaurante italiano Al Garage, por apenas 700 euros mensais. «A minha condição era péssima», admite. «O restaurante era famoso no Marquês de Pombal…e funcionava bem», recorda, «mas trabalhávamos imenso e recebíamos muito pouco em troca». Então demitiu-se, outra vez. E fez as malas, outra vez.
Desta vez, seguiu para o Algarve, onde assumiu a responsabilidade da cozinha numa pizzaria de renome. «Adorei essa fase da minha vida», partilha. Tinha o mar à porta, trabalhava apenas 5 dias por semana e recebia à percentagem por pizza produzida, o que lhe permitia rondar os dois mil euros mensais, com casa paga e carro facultado pelo estabelecimento. Então, durante dois anos e meio, contentou-se. Tinha uma vida estável, com direito a tudo e mais um pouco. E era feliz… Mas sentia-se incompleto… constantemente assombrado pela mesma, incansável, pergunta de sempre: «Por quanto tempo é que vou continuar a trabalhar para os outros?». Era o fogo empreendedor a subir novamente à tona. Talvez estivesse na hora de investir as poupanças acumuladas nos últimos anos e tentar, novamente, algo seu? Mas onde? E como?
18 mil euros e uma janela
Um colega falou-lhe de Coimbra – uma cidade universitária, jovem e dinâmica, que Mavia não conhecia, mas que lhe parecia ser terreno fértil para empreender. Então falou com o amigo de longa data Ali, que aceitou integrar o projeto e tornar-se sócio do negócio. «Logo a seguir», conta, «comecei a procurar restaurantes em marketplaces online e, passado um pouco, lá encontrei um espaço à venda que me agradava». Sem hesitar, despediu-se, comprou um bilhete de autocarro e seguiu caminho em direção a Coimbra. «Já eu ia a meio da viagem quando recebi a notícia de que o estabelecimento que vinha visitar tinha acabado de ser vendido», lamenta. Mas Mavia não se deixou recuar: contactou a agência intermediária e pediu que lhe mostrassem qualquer outro espaço disponível, para fazer valer a deslocação. E foi o que aconteceu, recorda: «Levaram-me até à rua António Vasconcelos e apontaram para um restaurante muito pequenino que ficava em frente ao parque infantil». Era o antigo Quim dos Ossos. «Nem sequer tinham chave para me deixar entrar», conta, «mas eu olhei pela janela e decidi que era aquele». Pagou os 18 mil euros de trespasse – tudo o que tinha – e assim ficou com o espaço, que batizou La Piccola Cucina Italiana, em homenagem ao seu tamanho anedótico.



Só nós os dois
Seguiram-se semanas intensas de preparação: Mavia alugou um T0 perto da Baixa, decorou o espaço como pôde e encomendou o equipamento necessário à Alemanha, com a ajuda financeira de amigos e conhecidos. Mas o dinheiro fazia-se curto, pelo que cada decisão exigia cálculos apertados – e eis que os sócios queriam usar ingredientes de qualidade, mas não tinham como pagar por eles. «Contactámos várias empresas de fornecedores, mas todas recusaram a encomenda sem pagamento antecipado, e nós não tínhamos aqueles cinco mil euros para lhes dar naquele momento», contam. Ainda assim, arriscaram insistir outra vez, junto de outro distribuidor. «Dissemos-lhe que, se ele nos desse três semanas, pagar-lhe-íamos tudo sem falta, e ele, milagrosamente, aceitou», recordam. Até hoje, Mavia não esquece esse gesto sem o qual tudo o resto teria sido em vão.
Graças a ele, La Piccola Cucina Italiana conseguiu abrir portas ao público, em abril de 2024. Mas, se Mavia e Ali sabiam fazer pizza, nunca tinham criado um menu próprio nem gerido um negócio sozinhos – e não tardariam a começar a sentir o peso de algumas decisões tomadas no limite a sufocar. «Nos primeiros meses», explicam, «vendíamos a pizza por apenas 4,50 euros, sendo que, para a fazer, usávamos mozzarella a 12 euros o quilo e tomate importado caríssimo». Então, durante dois meses e meio, não houve margem para salários. Tinham de pagar renda, eletricidade, fornecedores e IVA, e nada restava, no meio de tudo isso, para se remunerarem – muito menos para contratarem. Então durante seis longos meses, trabalharam, só os dois, «todos os dias, sem um único dia de folga nem ajuda, das 11h da manhã até às duas ou três da madrugada».
E em agosto, fizeram-se à evidência: «Não podíamos continuar assim. Precisávamos de ter margem para contratar mais pessoas», explicam. Pois o feedback era positivo e os pedidos multiplicavam-se, mas o negócio teimava em não se fazer rentável. Então subiram os preços (enfrentaram críticas), refinaram o menu (conquistaram elogios) e contrataram o primeiro funcionário (finalmente). A partir daí, o crescimento foi exponencial. A pizzaria multiplicou os seus clientes regulares; estabilizou uma média diária de 150 a 200 pizzas vendidas por dia – e conseguiu com isso alargar progressivamente a equipa, assim como estabelecer um dia de descanso por semana para todos. «Foi tudo muito mais rápido do que estávamos à espera», frisam.


Da pequena à próxima
Com o restaurante a funcionar e as receitas a entrar, Mavia voltou a fazer contas. Tinha acumulado capital suficiente para expandir e ponderava arriscar mais um salto… Mas o investimento rondava os 50 mil euros, a que se somariam cerca de 12 mil em obras e novos equipamentos – sem contar com os custos da multiplicação das responsabilidades. Avançar implicava expor-se a um risco elevado. Mas… quem não arrisca não petisca, então, em fevereiro de 2026 – apenas um ano e meio após a inauguração do seu primeiro restaurante – Mavia adquiriu mais um espaço e abriu as portas do segundo – desta vez maior, com esplanada e duas portas de entrada, na baixa de Coimbra, junto ao Cantinho dos Reis.
«Honestamente, quando olho para trás, fico sem palavras», confessa. «Quando abrimos a pequena cozinha, imaginávamos viver uma vida tranquila, a vender 70 ou 80 pizzas por dia, talvez com um dia de folga por semana e um funcionário ou dois… Nunca pensámos ter tanta adesão, muito menos conseguir abrir outro estabelecimento tão cedo», insiste.
Hoje, Mavia já não passa os dias na cozinha. Confia na equipa que formou e dedica-se à gestão estratégica do negócio. Nos próximos dois anos, ambiciona abrir mais cinco ou seis pizzarias em Coimbra, para cobrir a cidade por inteiro. Então trabalha. Muito. A partir de março, vai começar a reforçar a equipa – idealmente com alguns funcionários portugueses, porque «os clientes tendem a sentir-se mais confortáveis quando entram num espaço onde não encontram só estrangeiros». Além disso, prevê que o menu integre novas receitas, nomeadamente algumas das «pizzas gourmet» que descobriu durante a estadia em Itália. Num futuro próximo, quer aprender também a usar melhor as redes sociais, porque já tem conta no Instagram, mas confessa não saber mexer nela. E, se «o primeiro restaurante cresceu quase só por recomendação», agora sente «falta de não ter como comunicar com os clientes» – para lhes contar que a pequena cozinha já tem irmã na Baixa e que o plano é continuar a crescer …
Para lhes dizer que, depois de tantos começos e recomeços, encontrou em Coimbra um lugar onde o risco não só compensou, como recompensou… Que, desta vez, mais do que se contentar, espera ficar. E que, afinal, valeu, sim, a pena atravessar meia Europa por aquela pequena cozinha avistada pela janela, que, naquele dia de chuva, lhe prometeu ser ponto de (re)partida para o início do resto da sua vida.
