Há uma certa fadiga no ar — e não é só física. É a sensação de que, se abrirmos as redes sociais, estamos sempre aquém: não treinamos o suficiente, não comemos bem o suficiente, não dormimos o suficiente. Sempre há alguém para fazer melhor, mais rápido, mais certo.

Mas e se o problema não estiver nas pessoas — estiver no discurso?

Foi essa inquietação que nasceu o “(In)coerente”, um evento que chega a Coimbra no próximo dia 16 de maio com uma proposta simples, mas pouco habitual: falar de saúde, prazer e escolhas sem moralismos nem receitas universais.

É precisamente nessa tensão que o evento se organiza. Ao longo de uma tarde no Palácio da Quinta da Portela, o “(In)coerente” propõe conversas entre médicos e pessoas do mundo do vinho, entre profissionais de saúde e criadores de tecnologia, entre chefs e pessoas. A ideia de José Pratas, médico, é que há algum tempo observamos este desencontro entre aquilo que nos dizem que devemos ser e aquilo que, na prática, somos. “Há muita gente que não se revê no discurso vigente, muitas vezes fundamentalista”, explica. “Queremos ser mais saudáveis, claro. Mas não queremos deixar de viver.”

No centro está uma crítica clara à forma como hoje se fala de saúde, sobretudo nas redes sociais. Para José Pratas, esse universo tornou-se uma espécie de ditadura da performance e das restrições, onde os estilos de vida aparecem muitas vezes associados a uma lógica de culpa. “Se eu não corro uma maratona, mais vale ficar em casa. Se eu não como peito de frango com brócolos a todas as refeições, estou a falhar”, caricatura, apontando para um sentimento de inadequação que atravessa muita gente.

A resposta que o projeto quer dar passa por outro caminho: equilíbrio, escuta e alguma leveza. Em vez de insistir no “não faça isto”, a ideia é discutir como tornar hábitos e até pratos tradicionais mais saudáveis, sem perder o prazer. Em vez de reduzir tudo a proibições, procura-se formas mais realistas de viver melhor.

Esse princípio estende-se ao próprio formato do evento. Com vinho, espumante, kombucha, gelados, pratos mais ou menos saudáveis preparados pelos chefs, marcas com impacto da região e música ao pôr do sol, o ambiente foi pensado mais como um festival e menos como uma conferência. “A nossa ideia é tornar temas sérios em algo fixe”, resume José, defendendo um modelo em que assuntos complexos podem e devem ser tratados de forma descontraída, sem perder densidade.

O “(In)coerente” é também um braço do Círculo, projeto fundado por José Pratas, Catarina Mouraz, Miguel Salvador e Beatriz Nunes, que quer criar “clubes imperfeitos para pessoas imperfeitas”: espaços onde se vai para treinar, comer, conversar, ouvir música ou assistir a palestras, enquanto, nos bastidores, a saúde é acompanhada através de métricas validadas cientificamente. A ambição é desenvolver uma proposta enraizada em Coimbra, mas com capacidade para criar comunidade e impacto real.

José Pratas diz que esse caminho tem sido exigente, entre o trabalho médico, o internato e o desenvolvimento do projeto. Ainda assim, fala dele com entusiasmo e com a verdade de quem encontrou uma causa. Também por isso a participação na Geração Coolectiva marcou o percurso do Círculo. José Pratas sublinha que o programa foi importante “para conhecer pessoas muito interessantes, constatar que há mesmo muitas pessoas com vontade de ter impacto na comunidade e que a Coolectiva teve o papel crucial de as fazer entrar nessa onda”, além de ter trazido críticas construtivas dos organizadores e mentores que ainda hoje ficam na cabeça quando está a trabalhar.

No fim, o “(In)coerente” propõe exatamente aquilo que o nome promete: assumir contradições, desarmar certezas e trocar o tom de sermão por uma conversa onde cabem prazer, dúvida e ciência. E, entre um copo, um petisco e uma conversa, talvez seja essa a forma mais honesta de falar sobre saúde.

Serviço: O evento “(In)Coerente” acontece no sábado, 16 de maio, das 14h00 às 20h00, no Palácio Quinta da Portela, em Coimbra. Os bilhetes custam 13 euros e incluem um copo de vinho ou espumante e um prato de chef. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.

 

 

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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