Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.

O nome é emprestado por Miguel Torga, mas despudoradamente corrompido, de forma a sabermos ao que vamos. Aqui não se encontrará a fastidiosa norma, não há um cânone que ordene momentos, não há carcere litúrgico espartilhando a refeição.

Há partilha, como o amplo espaço sugere, há o entrelaçar de ocasiões, convívio. O tempo e ordem aqui perdem consistência. Bem-vindos ao Bixos.

No andar superior do edifício que já albergou uma garagem, oficina e até uma bomba de gasolina, estende-se num vasto espaço aberto este restaurante, que tanto o pode ser, como pode ser bar, lobby de hotel, pista de dança, esplanada, copo de fim de tarde, copo de fim de noite, refeição ou, no fundo, o que quisermos.

Ao contrário da cidade, este espaço reinventa-se a cada momento.

A música está sempre presente, dançável, ambiente, acentuando os sentidos, promovendo diálogo, confraternização.

A base da cozinha é italiana e, na minha irrelevante opinião, há três primi piatti que não devemos falhar: a Focaccia, o Carpaccio de Carne Seca, Rúcula e Parmesão e a Salada de Pêra e Parmesão. São a santíssima Trindade das entradas, e decoradas com o ouro líquido, são os mais consentâneos iniciantes.

A focaccia, aquele gorduroso pão – atenção não tanto como o Politécnico de Coimbra, que vê mudar o seu nome para Polytechnic University of Coimbra e se prepara, assim, para digladiar com o Azeite Gallo como o maior produtor de azeite nacional – que estala enquanto nos ensopa o palato é o inevitável ponto de partida de qualquer casa italiana.

O Carpaccio de Carne Seca, em itálico termo Bresaola, para sermos mais fidedignos – algo que o Município não conseguiu ser com o WRC e a cancelada Super Especial, que assim vê fugir para a Figueira da Foz – recorda-nos um pouco o nosso paio que, em picante conluio com o maturado parmigiano, nos salga a boca, abrindo alas para o que está por vir.

Neste baile dos debutantes, fechamos com Salada de Pêra e Parmesão, como alternativa ao anterior. Sendo que a pêra serve aqui de paliativo, um pouco como o papel da Câmara no Concelho, para refrear o enérgico ímpeto regenerador do reggiano queijo.

Levantemo-nos, saiamos das mesas ao estilo diner americano e procuremos a pausa junto ao sofá, nas entrincheiradas varandas ou mesmo de pé, porque não, defronte do DJ, empunhando um Pisco Sour, o melhor cocktail do espaço.

É este enlevo que nos traz ao Bixos, camaradagem, conciliábulo: uma refeição, um copo e dois
dedos de conversa.

Regressemos à mesa, que tanto nos pode trazer as mais frescas pastas, como Linguini Carbonara (com ovo, sempre com ovo), Linguini Gamberi di Bixo ou Gnocchi al Gorgonzola e Noci, como, aquelas que sempre se pedem, Pinsa non Pizza.

E as Pinsa non Pizza, que são? Pois bem, são Pinsa, que no fundo são pizzas, de massa ligeiramente mais alta, mais algodoada e de forma retangular. Há-as para todos os gostos e são, no hábito do que faz o Bixos, um estímulo à partilha.

Têm a costumeira Margherita, a al Pesto, a Diavola, minha favorita, com salame e chourição picantes, a suculentíssima de Uovo Fritto, como quem diz, estrelado, e a exótica Pistacchio e Mortadella, a fazer lembrar nome de banda desenhada – que é o que parece a gestão do Cartola que irá, uma vez mais, encerrar portas, fecha e abre mais vezes que as pernas duma profissional do Cobra Dourada.

Para finalizar, eu entrego-me sempre à Mousse de Chocolate Estaladiça. O nome diz tudo e é um Toblerone em forma aveludada. Para a criançada, sim porque este restaurante também é das famílias, Pinsa e Gelado.

E já que Coimbra é agora cidade low-cost, com a Primor e a Pepco a juntarem-se à pioneira Primark e de forma que a decadente aristocracia do Eixo Celas-Penedo possa usufruir também deste laivo de cosmopolitismo, frescura e visão desempoeirada, o Bixos prima pela justiça nos preços.

Dito isto, pede-se mais um Pisco Sour, que traz as necessárias notas para acabarmos a noite numa desmesurada, mas sempre consciente, Tarantella.

Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.

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Jornalista

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