Oh, oh, oh, meus pantagruélicos coimbrinhas.
No preâmbulo desta rubrica, ainda antes de tomar forma, foi cogitado o título O que está na mesa em vez de Lindo Serviço. Apesar da decisão unânime neste último, devo confessar que, para a prosa que hoje vos apresento, o primeiro título é mais adequado.
Coimbra, apesar de toda a sua idiossincrasia conservadora, hermética, higienizada, estéril e fechada sobre si mesma, é uma cidade que alberga em si todo o país, constituindo assim, talvez, o primeiro exemplo de cadinho cultural da nação, muito por culpa da sua instituição maior, a Universidade, que por cá estabeleceu todo um espectro de influências de Chaves a Faro.
Este melting pot (expressão tão noventeira caída em desuso, para grande pena minha) trouxe consigo os costumes e tradições de outras regiões, nomeadamente as culinárias.
Com a época festiva à porta, o Natal por terras conimbricenses far-se-á certamente com o
Bacalhau à mesa, prato de eleição do centro e norte de Portugal.
No entanto, é já usual encontrar o Peru – desengane-se quem achar ser esta uma mediática importação, pois é talvez a refeição natalícia mais remota do país, provavelmente do último
quartel do século XVII – na noite de Consoada por essas casas da mondeguina encosta.
Mas na confluência de autóctones de outras regiões de que é composta a Lusa Atenas podemos ainda saborear em certos lares – no meu caso, por exemplo – o transmontano Arroz de Polvo na noite de dia 24 e o Cabrito Assado no almoço de dia 25, que poderia ser também Borrego. Borrego esse que serve de mote ao Natal alentejano, sempre iniciado com Sopa de Cação, outra das opções possíveis na casa deste vosso escriba. Afinal de contas, o Tatonas não será assim tão coimbrinha de gema como advoga. No melhor pano…
O Natal quer-se farto, redondo, calórico, gordurento e oleoso e é com isso que podemos contar na mesa das sobremesas. Quase sempre coberta a vermelho, nunca a encarnado.

A amálgama de doçaria tradicional dá azo a uma cacofonia de grafias, palavras homófonas de conteúdos diferentes, e palavras díspares de conteúdos idênticos. Esta dismorfia semântica é também uma das belezas do Natal à mesa, trazendo consigo, nesta terra em particular, um furta-cor de sensações.
Temos as filhós, que podem ser as filhoses, mas que, num tom mais geriátrico, são também
velhoses. Massa de abóbora, frita em tom disformemente esférico. Tanto nome para tão pouco prazer. Há ainda quem faça filhós enroladas, que já nada tem de abóbora, nem tão pouco de filhós.
Sendo, na sua conceção (à parte da forma enrolada) em tudo semelhante aos coscorões, o meu preferido doce tradicional desta época. Uma massa simples, de farinha, ovos e manteiga,
frita às tiras, toscamente cortadas, polvilhadas depois com canela e açúcar, num crocante que
se abre em fofa massa na segunda camada.

Na mesa estarão ainda os doces feitos de víveres mais indicados para refeições e dos quais eu fujo sempre, as enfadonhas aletria, tapioca e, o mais apreciado (mas não menos insípido), arroz-doce.
A aletria (outrora, em tempos medievos, apelidada de ovos de laços) originária do árabe (al itriyaa – os fios) e o arroz doce que tanto pode ser à fatia – se for à moda cá da terra – ou à colher, leitoso e cremoso. O melhor será sempre passar um pouco no micro-ondas, que é a única forma desta sobremesa ganhar uma textura digna desse nome. Ainda há quem discuta se com gemas ou sem gemas. Para prato tão sensaborão, votá-lo à palidez é condená-lo ao eterno limbo da doçaria nacional.
Dos mais típicos – senão OS mais típicos – doces da quadra são os Sonhos e as Rabanadas. E se
aqui os junto é por partilharem a enfartada Calda de Açúcar. Sejam sinceros, vocês não gostam
dos Sonhos, gostam da Calda.
A aburguesada versão das Rabanadas dá pelo nome de Fatias Douradas – pindérico nome
imprimindo um bacoco pedantismo para nomear a mesmíssima receita.
Em algumas casas não podem faltar as Azevias, fina massa recheada com grão e amêndoas
depois frita e polvilhada com açúcar e canela.
Ao canto da mesa e no recôndito do estômago há ainda espaço para o Tronco de Natal, ainda
há bem pouco tempo quase desconhecido, substituindo um pouco (e bem) a inenarrável
lampreia de ovos (originalmente, no meu imaginário infantil, da Vasco da Gama).

Não podíamos finalizar sem falar do Bolo-Rei, entretanto vítima de golpe palaciano, lutando
arduamente para não perder o trono para a rainha, o Bolo-Rainha entenda-se, mais
consentâneo com os paladares atuais. Mesmo que sem brinde ou favas, ou apenas com fava,
que a vida é dura, cá vai resistindo ao juízo do tempo.
Coimbra é, sem dúvida, uma congregação de diversificados sabores e gastronomias, trazidas
ao longo dos anos por aqueles que fizeram da cidade o que ela hoje é: incontido marasmo
comensal.
Para não terem de fazer como o utilizador de Coimbra da GLOVO que fez o segundo pedido
com o valor mais alto de 2023, a rondar os 2.500€, preparem, com a ajuda dos vossos
familiares, o repasto natalício no conforto do vosso lar e desfrutem dum feliz e santo Natal.
Pantagruélicas e festivas saudações, meus coimbrinhas.
*PS: Partilhem connosco as vossas experiências gastronómicas natalícias!
